sexta-feira, 22 de junho de 2018

Em observação, no Infnet - 104

Hoje é sexta-feira. São 18:43.

Estou no Infnet, sentada à mesa, no DPED.

Ao meu lado direito, um corredor por onde as pessoas passam. Ao meu lado esquerdo, uma parede. Na minha frente, uma cadeira vazia.

Quilder passa ao meu lado direito carregando um caderno. Passa novamente. Veste calça jeans, blusa pólo preta e tênis preto.

Quilder passa ao meu lado direito.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Em observação, no Infnet - 103


Hoje é quinta-feira. São 10:31.

Estou no Infnet, na ecdd, na sala de reuniões, sentada à mesa.

Ao meu lado direito, uma cadeira vazia. Ao meu lado esquerdo, uma cadeira vazia. Na minha frente, duas cadeiras vazias.

Por aqui, luzes acesas e tudo silencioso.

- Ele chegou? Aham. Tá ótimo. Tá bom. Isso.

Adriana entra e senta ao meu lado direito. Levanta e sai.

Agora são 10:39. Estou no mesmo local. Sozinha.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Em observação, no Infnet - 102

Hoje é quarta-feira. São 17:38h

Estou no Infnet, sentada à mesa, no DPED.


Ao meu lado direito, um corredor por onde as pessoas passam. Ao meu lado esquerdo, parede. Na minha frente, Joana sentada.

Joana está digitando no computador.

- Oi, sou eu. Oi? Tudo bom? Tudo bem. Você trouxe? Tá legal.

Um homem passa ao meu lado direito.

- O RPA, né? Você é mestre. Tá. Aí...

- Para você assinar, tá? E para você preencher com estas informações aqui. Pode sentar aqui nessa cadeira, tá bom?

Joana digita no computador.

- Vou pedir para você assinar aqui atrás também, tá? Certinho. Obrigada. E aí, Mauro, a previsão de pagamento é para onze dias, tá? Então pode ser que no retorno do recesso. A gente retorna em 16 de julho. Tá? Tá bom? Nada.

Celso passa ao meu lado direito.

- Tchau, vai com Deus.

Joana digita no computador.

- Quem?
...
Agora são 18:01. Estou no mesmo local.

Ao meu lado direito, um corredor por onde as pessoas passam. Ao meu lado esquerdo, parede. Na minha frente, Joana sentada, digitando no computador.

Ana passa ao meu lado direito. Passa novamente. Passa novamente.

- Beijo, vai com Deus.

Emiliano passa ao meu lado direito. Passa novamente.
Emiliano passa ao meu lado direito. Passa novamente.

Ana passa ao meu lado direito carregando um óculos.

Fábio passa ao meu lado direito carregando uma chave.

Ingrid passa ao meu lado direito.

Fábio passa ao meu lado direito carregando uma chave.

Fábio passa ao meu lado direito.

- Gente, tem mais vídeo de mais brasileiro fazendo merda no exterior. Outro grupo de brasileiro fazendo vídeo de merda no exterior. E as meninas não entendem, e as meninas repetindo.
- Claro.

- É, claro.

- Tem muita gente aí?

Fábio passa ao meu lado direito.
...
Agora são 18:33h. Estou no mesmo local.

Ao meu lado direito, um corredor por onde as pessoas passam. Ao meu lado esquerdo, parede. Na minha frente, uma cadeira vazia.

Ana passa ao meu lado direito, carregando uma chave e um óculos.

Ingrid passa ao meu lado direito. Passa novamente. Passa novamente carregando uma pasta. Passa novamente carregando uma pasta.

Fábio passa ao meu lado direito.

Fábio passa ao meu lado direito.
Ingrid passa ao meu lado direito carregando uma folha de papel. Passa novamente carregando uma folha de papel.

- Ah, que legal.

- Ah, que legal.
Fábio passa ao meu lado direito.

Ana passa ao meu lado direito carregando a bolsa e uma sacola.
Ana passa ao meu lado direito carregando a bolsa e uma sacola.
- Pô, Lu...
Fábio passa ao meu lado direito carregando um telefone sem fio.

- Tá no atendimento. Não conheço, professor. Entendi. Entendi. Eu fiz coaching na Abracoaching, em Niterói. É. Fiz lá. Na época, eu paguei 4, em 2011.

- Não entendi, professor, desculpa. Ah, raramente. É. 

terça-feira, 19 de junho de 2018

Em observação, no Psicologia e Coaching - 413

Hoje é segunda-feira. São 19:59.

Estou no consultório Psicologia e Coaching, sentada à mesa.

Ao meu lado direito, uma porta aberta. Ao meu lado esquerdo, uma cadeira vazia. Na minha frente, uma cadeira vazia.


Por aqui, luzes acesas e tudo silencioso.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Em observação, no Psicologia e Coaching - 412


Hoje é sexta-feira. São 07:55.

Estou no consultório Psicologia e Coaching, sentada à mesa.

Ao meu lado direito, uma porta aberta. Ao meu lado esquerdo, uma cadeira vazia. Na minha frente, uma cadeira vazia.

Por aqui, luzes acesas e tudo silencioso.

O celular bipa. WhatsApp da Daphne.

Volto ao silêncio.

O celular bipa. Notificação da agenda.

Volto ao silêncio.

O celular bipa. E-mail do Aderito que chegou.

Volto ao silêncio.

O celular bipa. WhatsApp do Roberto.

O celular bipa. E-mail do Posthaus.

O celular bipa. WhatsApp do Roberto.

Volto ao silêncio.

O celular bipa. WhatsApp do Roberto.

Volto ao silêncio.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Em observação, no Psicologia e Coaching - 411


Hoje é quinta-feira. São 07:03.

Estou no consultório Psicologia e Coaching, sentada à mesa.

Ao meu lado direito, uma porta aberta. Ao meu lado esquerdo, uma cadeira vazia. Na minha frente, uma cadeira vazia.

Por aqui, luzes acesas e tudo silencioso.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Em observação, no Psicologia e Coaching - 410


Hoje é segunda-feira. São 08:19.

Estou no consultório Psicologia e Coaching, sentada à mesa.

Ao meu lado direito, uma porta aberta. Ao meu lado esquerdo, uma cadeira vazia. Na minha frente, uma cadeira vazia.

Por aqui, luzes acesas e tudo silencioso.

Em observação, na Gauísa


Hoje é domingo. São 16:10.

Estou na Gauísa, sentada.

Ao meu lado direito, um banco vazio. Ao meu lado esquerdo, minha mochila e uma garrafa d’água em cima do banco. Na minha frente, um corredor por onde as pessoas passam.

- Oi amor. Tudo bem? Que?

Um homem passa na minha frente.

O celular bipa. Direito da Marcelle.

- Tudo, amor. Tou lendo. Tá bom. Bom trabalho.

Um homem passa na minha frente. É branco, alto, gordo. Cabelo castanho e barba. Veste bermuda jeans, blusa cinza e sapato marrom.

Uma mulher senta ao meu lado direito. É Branca, magra, cabelo curto e liso. Veste uma saia longa vinho, um casaco dourado e uma sandália prateada.

- Que?

Uma menina passa na minha frente.

Uma mulher passa na minha frente.

Uma menina passa.

Uma mulher passa na minha frente.

Um homem passa na minha frente. É branco , alto, magro. Cabelo curto, castanho escuro, barba. Veste calça branca, blusa branca. Carrega um copo plástico de água.

Uma mulher.

Uma mulher passa na minha frente. É branca, alta, magra.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Bréquifrái

O cenário era Botafogo. 10h30 de um sábado.

Eu passava e, como adoro camelôs, retardo o passo para ver o que tem nas bancas. E ouvir as conversas.

- Hoje eu vou lá no shopping, cara.

- É? Fazer o que, mermão?

- Comprar, oras. Eu vi que hoje tem bréquifrái.

- Bréqui-quem?

- Bréquifrái. Minha mulher falou. E eu vi na TV. 

- O que é isso?

- Também não sei. Mas vi que todas as lojas tão vendendo bréquifrái pela metade do preço, cara. Né possível. Tudo. Tudo vendendo bréquifrái. Eu vou lá, né? Ver, pelo menos. Se tiver algum bréquifrái que me interessa, eu compro.

- Acho que vou com tu então. 

(Escrito em 29/11/2014)

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Rita

Conhecemos Rita numa sexta-feira dessas. Um daqueles dias que íamos ao teatro.


Uma sexta-feira seguinte, fomos ao teatro novamente, no mesmo local. Escolhemos a refeição-pré-teatro em função da Caixa. A Rita. Até então, não conhecíamos a sua história. 



Pedimos a refeição, reconhecemos a profissional, cumprimentamos pelo nome (ela soube, então, o nosso) e, ao final do teatro, mais de 23h, no "xixi-antes-de-ir-pra-casa-porque-a-gente-mora-longe", encontramos Rita no banheiro, já sem uniforme.



E foi lá que conhecemos sua história. Antes, a gente conhecia a Rita-caixa. Agora, a gente conhecia Rita-ser-humana.



Desculpe-nos se a gente não parecer lógica ou cronológica. Pela história, basta que a gente escreva com / sobre emoção e sentimentos.


Rita, menina sozinha, sempre meio rejeitada. No dia em que seus olhos e de seu filho se fitaram pela primeira vez, seu mundo se abriu e ela sentiu que passou a existir a partir daquele momento.

Um dia, apenas com seu filho nos braços, resolveu trilhar o seu caminho.


Rita veio do Nordeste com 22 anos. Hoje, tem 25 anos.



A viagem era longa e distante. Ela ouvia dizer que eram quase dois dias viajando. Mas, seu tesouro estava com ela: Augusto, seu filho, com dois anos recém completos. 



Augusto era uma criança calma, tranquila, quieta. Permanecia quase sempre em silêncio. Tinha a pele bem branquinha, como a mãe, e os olhos negros, grandes e expressivos. Sorria pouco, mas era bastante expressivo. 



- Mainha, falta muito?

- Falta, filho. Descansa. Dorme aqui, ó.


E ele dormia, e acordava, e dormia, e nada de chegar esse Rio de Janeiro.



Rita ficou na casa de uma senhora, amiga da sua avó, na Barra da Tijuca. Trabalhou como doméstica, em troca de abrigo. Morava no quartinho de empregada, com Augusto e, fazia "as coisas de casa", para dona Eliza. 



Dona Eliza indicava Rita para passar roupa e cozinhar na casa de amigas, aos domingos, e era nestes "bicos" que Rita ganhava algum. 



- Olha, eu vou, mas tenho o Augusto. Ele tem que ir comigo. 



As patroas gostavam do menino, que ficava sempre sentado embaixo da tábua de passar roupa, ou ao lado da pia, quieto, observando os movimentos. 



Rita, apesar da vida com poucos recursos, era feliz. Seus olhos grandes sorriam, mesmo quando ela não. O mesmo acontecia com Augusto. 



Nessas viagens para as casas das outras "donas", Rita ia de ônibus com ar condicionado. Numa dessas, após algumas semanas, Augusto adoeceu. Uma gripe que não se curava nem por nada. Febre, dor no corpo, mal comia. Emagreceu.



Dona Eliza liberou Rita um belo dia para levar o menino no médico. O hospital público mais próximo era em Jacarepaguá e lá foram os dois. 



- Não há de ser nada, Augusto, meu filho. O doutor vai ver você, dar um remedinho, e já já você fica bom de novo. 

Mas Augusto já estava dormindo, no seu colo. 


O médico atendeu Augusto - e a mãe, com os negros olhos vivos e preocupados - e diagnosticou: "pneumonia". Vai precisar ficar aqui, com a gente.



Rita conseguiu um celular, com a mãe da criança da cama ao lado de Augusto e ligou pra dona Eliza.



- Dona Eliza, a senhora me desculpe ligar essa hora. O doutor disse que Augusto tá com pneumonia e vai ter que ficar. Eu vou ficar com ele. Não posso deixar ele aqui, só. Vou avisando a senhora, tá?



Tá. Claro. Dona Eliza era boa gente. Sua filha foi ao hospital, no dia seguinte, e levou uma muda de roupa para os dois, e um cobertor. Era inverno e fazia frio. 



Rita ficou amiga da Carolina (a mãe de Emerson), e elas conversavam, enquanto seus filhos dormiam. Emerson tinha operado de apendicite, aos nove anos, e já já estaria de alta. 



Augusto preocupava os médicos, que não apresentava melhoras. Em quatro dias, o menino morreu. De manhã cedinho, quando Rita voltou do café da manhã, Carolina cochilava. 



Foi dar um beijo no filho e sentiu-o frio. Já estava morto. Ela não sabe bem que horas ele morreu. Devia ter sido de madrugada, porque ele já estava ficando com o corpinho gelado. 



No dia seguinte, Emerson teria alta e mãe e filho iriam embora.



- Vamos com a gente, Rita. A gente mora aqui perto. Lá na casa que você trabalha, tudo lembra Augusto. É triste, mas vamos começar vida nova, amiga. 



Rita foi. Pediu um dia para ir na dona Eliza, pegar suas poucas coisas, se despedir da dona, e viver na casa de Carolina que, nesta altura, era sua única amiga, após quatro meses de Rio de Janeiro.



Rita só fazia chorar. Em silêncio. As lágrimas só saíam de seus olhos negros e, agora, tristes. 



Foi viver com Carolina no Rio das Pedras, uma comunidade ali, perto do hospital. Em poucas semanas, a amiga conseguiu um emprego para a mãe de Augusto. 



Era longe, mas Rita ia lendo os livros da irmã de Carolina, que era professora. Ia ser Caixa da Batata Inglesa. 



Jamais esqueceria de seu filho, a dor jamais cessaria, mas Rita agora, conseguia olhar para o mundo fora da janela do ônibus. Como trabalhava à tarde / noite, saía de casa às 11h30 e via gente pela rua... [Diferente de antes, que só ficava na casa de dona Eliza, sem sair, quase].



No caminho para o trabalho, viu uma creche e resolveu, um dia, sair mais cedo do trabalho, para passar lá. Quem sabe ela não conseguiria um emprego de meio período? De manhã cedo? Ajudar as freiras? Podia complementar seu salário. 



Hoje, Rita ajudava Carolina com as compras e contas da casa, e ajudava a cuidar de Emerson, que não tinha mais pai. Planejava alugar um cantinho pra ela, ali por perto, mas Carolina dizia que queria a amiga sempre por perto. Rita tinha, agora, uma amiga, uma irmã, uma família.



As irmãs aceitaram a ajuda de Rita, na creche. Ela trabalhava de 8h às 11h, e ficava na experiência, ainda, e, portanto, sem remuneração. Mas Rita gostava do trabalho, das crianças...



Cuidava dos pequenos, bem pequenos. Aqueles que quase não andam ainda. Talvez uns 10, 11 meses. 



E, um dia, saindo da creche, indo pro trabalho, Rita viu um menino sentado, no muro, de costas. Sozinho. O cabelo, preto, liso, e as mãos ao lado do corpo magro.



- Irmã Dulce, qual o nome daquele ali?

- Aquele sentado?
- Sim, o sozinho.
- Alfredo. O Alfredinho. Todo mundo gosta dele, mas é muito calado, quieto. Quase não fala.
- Qual a idade dele?
- Dois anos e quatro meses.


Quase a idade que Augusto teria hoje, se fosse vivo, pensou Rita.



Antes de ir embora, Rita passou por Alfredo. 



- Oi, Alfredo, eu sou a Rita.



E olhou para seus olhos. Negros, grandes. Alfredo não disse nada. Mas sorriu, só com os olhos.



Naquele momento, Rita entendeu que Augusto tinha sido um anjo que passou pela sua vida para que ela encontrasse seu sentido.



E uma única lágrima caiu, em Rita. E no seu coração.




[Um obrigada grande e silencioso a:

- Rita, que passou por nossas vidas e permitiu que escrevêssemos a sua história.
- Sandra e André, que perceberam que Rita poderia virar personagem.
- Thais, que viu a história, e permitiu que eu escrevesse, a partir do seu olhar]