sexta-feira, 28 de abril de 2017

Em observação, no Infnet - 43

Hoje é sexta feira. São 12:05.

Estou no Infnet, na sala de reuniões, no 4º andar da ECDD. Estou sentada à mesa.

Ao meu lado direito, uma lixeira preta. Ao meu lado esquerdo, uma janela. Na minha frente, duas cadeiras laranjas e vazias.

Por aqui, luzes acesas e tudo silencioso.

O celular bipa. E-mails que chegaram. 

Volto ao silêncio.

O celular bipa. E-mail da Monique que chegou.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Sobre os mendigos

[Escrito em Outubro de 2014]

Eu pego sempre o mesmo caminho para ir à academia, que fica a exatos 750 metros de casa. O celular, plugado no rádio, me tapa, com os fones, o ouvido para sons da rua. Mas não os olhos para olhar para gente.

Na praça Cardeal Arco Verde há uma "família" de mendigos. Digo família-entre-aspas, pois acho que eles são uma família. Meu olhar diz isso, mas, como não tenho certeza, prefiro "aspar". A família têm dois cães.

Hoje, o seu dono - um dos moradores da família - atravessou meu caminho, com um dos cães. Por um mini-segundo, eu achei que estavam brigando.

O cão subia e descia do canteiro e o dono corria para lá e para cá. Eles estavam jogando futebol! Jo-gan-do-fu-te-bol. A bola era uma pequena garrafa - já amassada - de água. 

Não era aquela brincadeira de jogar algo longe e o cão pegar. Era futebol. As pernas abertas do rapaz eram o gol. E ambos eram jogadores e goleiros. E a bola ia e vinha, pela calçada estreita. O cão sorria. O dono também. 

Eu quis fotografar a cena, mas eu ia atrapalhar o jogo. Eu estava no meio do campo deles. Ainda consegui sorrir para ambos e dizer: "coisa linda vocês dois".

"Estamos jogando", ele disse. O cão sorriu - para ele, não para mim. E pedia mais jogo. 

Eu fui para a academia. 

Na volta, procurei pelos dois. O cão, dormia. São dois (cães) e dormiam separados, apesar de amigos. 

O dono do cão - e jogador de futebol - estava sentado. Atrás dele, outro mendigo o penteava, com cuidado. Ele se olhava em um pequeno espelho, o trabalho do colega.

O pente fino passava pelos seus fios duros e sujos. A mão vinha em seguida, ajeitando. O que penteava (chamá-lo de cabeleireiro, eu seria leviana) tinha cuidado, delicadeza. O que era penteado (chamá-lo de cliente é ser igualmente leviana) olhava, para si, através do espelho, com orgulho. Se acha bonito. Quase sorri. 

Eu, que parei para ver a cena com mais cuidado e detalhes, quase fotografei. Mas eu não seria respeitosa. Eles estavam em casa, no seu momento de intimidade e cuidado. 

E, dali, do outro lado do canteiro, eu tiro os fones do celular e me permito ouvir o silêncio - e o amor e o cuidado - tão lindo, de uma cena tão poética e que me ensina tanto. 

[Antes de escrever este, eu gerei uma pequena "pesquisa" no Facebook sobre a terminologia "mendigo" ou "morador de rua".
Os amigos foram quase unânimes em escolher o termo "morador de rua".
Apesar de achar este mais apropriado (eu concordo com eles), sobretudo se estou falando deste povo de forma positiva, eu gosto da palavra "mendigo". Gosto do som que ela produz, quando ouço e falo. 
Não tem, portanto, nenhum tom pejorativo, ou negativo. Não há tom, aqui. 
Há, apenas, belezas de cenas que consegui captar. 
E, desculpem, eu continuo preferindo "mendigo" para denominar "morador de rua". Quando eu me refiro a eles, pessoalmente, prefiro perguntar seus nomes e tratá-los por como eles se chamam, e não por sua "condição social".
De qualquer forma, meu muito obrigada a todos que responderam à pesquisa].

segunda-feira, 17 de abril de 2017

O telefonema

(Outubro de 2014)

14h. Quarta-feira.
Você está em casa, sozinha.
O telefone da família (que é diferente do seu) toca. 
Sabe aquele telefone que nunca toca? E, quando toca, não é para você?

- Alô?

- Boa tarde!

[Eu admiro os operadores de telemarketing. E eles têm uma alegria contagiante. Hoje, não me contagiou]


- Boa tarde.

- Com quem eu falo?
- Você ligou para falar com quem?
- Para falar com a senhora mesma!

[Você pensa na alegria do telemarketing, na sua comida esfriando, e em que tipo de resposta pode dar...]


- Desculpe, ligou engano. Tudo de bom. Bom trabalho. Boa tarde.


[Ainda bem, o almoço ainda estava quente...]

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Agildo

Sobre labirintos...

Eu vi uma foto no Facebook de um amigo.
A foto me fez refletir (e eu não refleti tudo ainda, mesmo terminando o texto).
A legenda que ele colocou, idem.

Os labirintos, eles existem em nossa vida.
Na pessoal, na profissional e, sobretudo, dentro de nós.

Eu te faço a pergunta: achar a saída do labirinto é a sua meta? Se livrar do labirinto da vida?

E eu faço uma confissão: eu tenho mais perguntas que respostas. Pra você, pra mim. Mas vamos pensar... - e sentir (que é mais difícil)...

Digamos que a vida seja (esteja?) um labirinto. Caminhos não lineares. Paredes. Curvas. Ângulos. Onde você acha que há uma saída, há uma parede, e outra, e outra.

O labirinto te diz: olhe para si, não para mim. 
Onde está você nessas paredes? 
As paredes são (estão?) paredes. Não espelhos.
O espelho é o seu olho, que olha pra fora-e-pra-dentro.

Achar a saída do labirinto é consequência, portanto. 
Achar as paredes e os caminhos e as entradas e saídas de si mesmo é que é a chave.

Existem as pessoas agressivas. Ou determinadas. Ou focadas.
[E, quando falo "agressivas", não significa que seja algo ruim. Neste caso, a "agressividade" está linkada à decisão, à firmeza, ao "sangue no olhar"].

E, quando não se acha caminhos, cria-se caminhos?
Abre caminhos com marretas?

"Já que aqui não há, crio eu"?
E se a parede estava ali por um motivo? Até para ser olhada?
E se a parede é muito mais do que uma parede?

Agildo, o moço da foto, é um cara confiante. Encara os obstáculos que, porventura, apareçam pelo seu caminho, de forma "determinada" [não sei se é determinada, por isso as aspas].

Agildo desejava passagem. Desejava caminhos.
Os seus caminhos. Não os já abertos.
Os caminhos já abertos não são lineares; e, portanto, não-fáceis.

Agildo, no entanto, munido de coragem, com a sua picareta [ele não é picareta; a sua ferramenta o é], abre os caminhos por entre outros caminhos. Seriam atalhos? Seriam planos B?

As perguntas que faço pra Agildo são:
[Lá atrás eu disse que tinha mais perguntas que respostas...]

- Agildo, quem é você?
- Agildo, que caminho você quer?
- Agildo, você quer a saída do labirinto ou a sua saída?
- A sua saída, Agildo, te leva aonde?
- E sem picareta, como seria, Agildo?
- Perder-se no labirinto, Agildo, e permitir-se a perda-de-si-mesmo para achar-se nos caminhos... já construídos (ou a construir) é aterrorizante?
- Com a sua picareta, você chegou? Onde, Agildo?
- Qual o seu caminho dentro de si mesmo, Agildo? É com picareta que você chega nele?

[Eu sou Agildo. E sou a Inércia.
Eu sou a parede.
E sou a picareta.
E sou os caminhos. E paredes. E entradas. E saídas.
E sou o encontro. E a perda].

É... Agildo... né fácil caminhar não, cara...

(*) Agradecimento especial ao Renato Siqueira.
Por nomear o Agildo.
E postar a foto.
E me permitir (me) descrevê-lo.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Em observação, no Psicologia e Coaching - 291

​​
Hoje é segunda feira. São 19:54.

Estou no consultório Psicologia e Coaching, sentada na recepção.

Ao meu lado esquerdo, parede. Ao meu lado direito, uma cadeira com minhas chaves, livro e um guardanapo em cima. Na minha frente, um vão por onde as pessoas passam.

O celular bipa. Whatsapp da Bianca.

Por aqui, luzes acesas e tudo silencioso.

A campainha toca. Paciente que chegou.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Em observação, no Psicologia e Coaching - 290

Hoje é sexta-feira. São 07:56.

Estou no consultório Psicologia e Coaching, sentada à mesa.

Ao meu lado direito, uma porta aberta. Ao meu lado esquerdo, uma cadeira vazia. Na minha frente, uma cadeira vazia.

Por aqui, luzes acesas e tudo silencioso.

O celular bipa. E-mail que chegou.

O netbook bipa. E-mail que chegou.

Volto ao silêncio. 

Paciente chegou.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Em observação, no Psicologia e Coaching - 289

Hoje é quinta-feira. São 08:03.

Estou no consultório Psicologia e Coaching, sentada à mesa.

Ao meu lado direito, uma porta aberta. Ao meu lado esquerdo, uma cadeira vazia. Na minha frente, uma cadeira vazia.

Por aqui, luzes acesas e tudo silencioso.

O celular bipa. Whatsapp da tia Luluza.

Volto ao silêncio.

O celular bipa. Notificação da agenda.

Volto ao silêncio.

A campainha toca. Paciente que chegou.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Em observação, no Psicologia e Coaching - 288

Hoje é sexta-feira. São 07:09.

Estou no consultório Psicologia e Coaching, sentada à mesa.

Ao meu lado direito, uma porta aberta. Ao meu lado esquerdo, uma cadeira vazia. Na minha frente, uma cadeira vazia.

Por aqui, luzes acesas e tudo silencioso.

O netbook bipa. E-mail que chegou.

Volto ao silêncio.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Em observação, no Psicologia e Coaching - 287

Hoje é quinta-feira. São 08:20.

Estou no consultório Psicologia e Coaching, sentada à mesa.

Ao meu lado direito, uma porta aberta. Ao meu lado esquerdo, uma cadeira vazia. Na minha frente, uma cadeira vazia.

Por aqui, luzes apagadas e tudo silencioso.

O netbook bipa. E-mail que chegou.

Volto ao silencio.

Campainha toca. Paciente chegou.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Em observação, no Psicologia e Coaching - 286

Hoje é sexta-feira. São 07:12.

Estou no consultório Psicologia e Coaching, sentada à mesa.

Ao meu lado direito, uma porta aberta. Ao meu lado esquerdo, uma cadeira vazia. Na minha frente, uma cadeira vazia.

Por aqui, luzes acesas e tudo silencioso.