sexta-feira, 26 de julho de 2013

Olavo, Lucília e Pedro

Estávamos nós no metrô, voltando para casa em um domingo de manhã habitual e rotineiro. E, até por isso, delicioso.

Pela primeira vez - de muitas - pudemos fotografar, juntos, os personagens que descrevo. Quatro olhos os viram. Quatro mãos os escreveram. Por aqui, no entanto, apenas uma pessoa se manifestará pelo peso da pena.

Bom que, também aqui, podemos exercer a unidade que nos domina. A unidade (e o amor) que nos une. 

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Linha 1 - Saens Peña - Cantagalo.

Sentamos de frente - mas distantes - para o casal Olavo e Lucília. Um casal de uns 60 e poucos anos. Passava a imagem de um casal feliz. Muito feliz.

Ele, treinador de futebol de garotos, garimpador de novos talentos; ela, uma professora de Biologia do Ensino Médio, missionária do saber em um colégio da zona sul do Rio de Janeiro.

Por uma época, lecionaram na mesma escola - o Santo Inácio, em Botafogo - e lá se conheceram. Encontravam-se todas as terças-feiras - dias das aulas de Biologia e Educação Física. O ponto de encontro era a sala dos professores, sempre de manhã cedo. Antes de iniciarem as suas aulas, tomavam café puro, preto. Depois, próximo ao horário do almoço, quando da saída do colégio, despediam-se, até se reencontrarem na próxima terça-feira.

Com o tempo, viam-se também às quartas, aos sábados e aos domingos, e, quando deram-se conta, estavam morando juntos. Hoje, já contam 14 anos de casados. 

A relação gerou apenas um filho, o Bruno, de 12 anos. Todos achavam que era seu neto, já que Olavo e Lucília foram "pais-avós". Bruno habituava-se e, bem humorado, chamava os pais de vô. Só de zoação!

Olavo e Lucília sempre tiveram como pilares da sua vida o bom humor, o respeito e a educação, para quem quer que fosse. Eram amados e admirados por alunos, mestres, amigos e, sobretudo, pelo filho. Bruno, além de filho, era amigo dos pais. O pequeno, agora estudante do Santo Inácio (onde os pais não dão mais aula), ouve, orgulhoso, os elogios aos seus velhos.

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Voltando ao metrô, Olavo carregava uma pasta do tipo executiva. Estavam sentados logo no primeiro banco, bem próximo à porta. Na estação da Uruguaiana, Pedro entrou no vagão, bem em frente ao casal Olavo e Lucília. Carregava uma mala de viagem e mais algumas sacolas de compras (conseguíamos ver pães e frios pela transparência do saco).

Pedro, 50 anos, era um alto executivo na área de engenharia civil. Não gostava de ser caracterizado como "engenheiro civil", pois "podia ser confundido com um peão melhorado". Ele preferia, portanto, o "executivo na área de engenharia civil". 

O nome pomposo lhe causou um divórcio com Diana (44 anos), sua única esposa. Ela queria, mas nunca fora prioridade na sua vida. O trabalho e a frieza do dinheiro sempre estiveram em primeiro lugar na vida de Pedro. Diana queria filhos. Pedro sempre "pensava nisso para outra hora". Diana pediu o divórcio há dois anos. Seria prioridade na vida dela mesma.

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Pedro estava indo para sua casa em Ipanema, voltando de Macaé. Seu carro estava na oficina e, por isso, ele veio de carona com o coordenador da obra, que o deixou na Presidente Vargas. Pedro achou um mercado aberto. Antes de pegar o metrô para casa, aproveitou para comprar pão e frios. 

Entrou no vagão carregando uma mala que tinha as suas qualidades: imponente, dura, "de respeito". E dois sacos de mercado, com pães, frios, suco e alguns doces. 

Pedro era destes homens com o “andar em linha reta e olhar de cima para baixo”. Não via quem estava ao seu lado. Ignorava que existiam pessoas acima. "Era pura distração", diria ele.

Não por acaso, Pedro parou na frente de Olavo, que não tinha nada de distraído. Não precisaram trocar palavra alguma. Olavo levantou-se do seu assento (ao lado de Lucília), imediatamente, e, sorrindo para Pedro, e olhando para suas malas, apontou para o assento vazio.

[Nós - que fotografávamos - vimos a cena em câmera lenta...]

Pedro levou sete segundos para olhar na direção (e não para) de Olavo, e, fez que não com a cabeça, permanecendo duramente imóvel.

Olavo sorriu, sentou-se novamente ao lado de Lucília, que o abraçou, e estalou um beijo em sua testa. 

Silencioso, o casal não fez qualquer comentário. Nem com o olhar.
Mesmo longe, conseguíamos ouvir o barulho ensurdecedor que vinha da dureza silenciosa de Pedro.

[A fotografia deste conto se deu, na vida real, em menos de um minuto. As melhores cenas são as captadas nas sutilezas de pequenos e rápidos movimentos].


[Obrigada ao meu fotógrafo preferido por, ao meu lado, permitir que contemos histórias que são, também, nossas].

terça-feira, 16 de julho de 2013

Em observação, no CMNG, parte 2



Hoje é 3ª feira, 15 de julho.

São 6h58 e estou no Centro de Medicina Nuclear da Guanabara de Copacabana, aguardando o meu exame de Raio-X.

Estou em uma recepção, com várias cadeiras. Ao meu lado direito, a sala de “DAY CLINIC” e a sala de “ULTRA-SONOGRAFIA” (escrito assim) e, entre as duas, uma porta, sem nada escrito. Logo à minha frente, a TV ligada, e um bebedouro.

Na frente, também, um corredor, que dá acesso a dois balcões e a outra recepção e as salas dos exames.

Sentado na minha frente está um senhor, branco, cabelo castanho. Veste uma calça bege, e uma blusa bege com detalhes em marrom. Está sentado, de braços cruzados, olhando fixa e seriamente para a TV, e tem a cabeça um pouco inclinada. Não consigo ver seu rosto, mas sei que ele olha sério para a televisão. Se ajeita na cadeira, descruza os braços. Tira algo do bolso, olha. Guarda de novo no bolso o que tirou anteriormente. Cruza os braços e as pernas. E, quando cruza as pernas, percebo que está de bermuda, e não de calça. Coça o pé que está cruzado, em cima do joelho. Descruza os braços. Olha para baixo, deixando de prestar atenção na TV, que permanece ligada. Volta a olhar para a TV. Olha para baixo. Volta a olhar para a TV. Olha para baixo. Volta a olhar para a TV. Olha para baixo. Coça o pé. Descruza a perna e cruza para o outro lado. Se ajeita na cadeira e vejo que está mexendo no celular. Pigarreia e olha para mim, meio de lado. Continuo não conseguindo ver seu rosto. Permanece mexendo no celular. Olha para a TV. Descruza a perna, ajeita-se na cadeira, guarda o celular no bolso. Olha para baixo. Olha para a TV. Ajeita-se na cadeira. Olha para trás, para mim. Pigarreia. Ajeita-se na cadeira. Cruza a perna novamente e coloca a mão no seu pé. Vejo que usa um sapatênis marrom, com meia cinza. Olha para o outro lado, onde está escrito DAY CLINIC. Volta a olhar para a TV. Olha para baixo.

Entra uma moça nessa recepção que estamos. Parece técnica da clinica. É loira, cabelo preso, num coque, e usa roupa toda branca (com um jaleco, também branco). Entra na saletinha (sem indicativo na porta) ao lado direito, e sai da saletinha e dessa recepção, andando pelo corredor.

Entra uma outra moça nessa recepção que estamos. É branca, cabelo liso, um pouco aloirado. Usa calça jeans preta, blusa colorida, listrada, blazer preto, sapatilha vilho. Bolsa preta e sacola de pano, cor crua. Aparenta ter cerca de 40 anos. Pára no bebedouro, retira um copo, enche de água, e bebe ali mesmo, de pé. Pega mais um copo de água e bebe. Vem andando e senta em alguma cadeira atrás de mim.

O rapaz na minha frente, levanta, pigarreia, vai ao bebedouro, pega um copo de água, bebe, joga o copo no lixo e volta a se sentar na minha frente. Consigo ver seu rosto. Tem cerca de 43 anos. Pigarreia novamente, e olha para baixo, para o celular. Braços e pernas, agora, estão descruzados. Olha para a TV. Olha para baixo.

A moça passa novamente e vai ao bebedouro. Enche mais um copo de água e bebe, de pé, olhando para a TV.

O senhor na minha frente pigarreia.

A moça permanece de pé, com uma mão na cintura, e a outra segurando o copo d’água, olhando para a TV. Ela caminha pelo corredor, olha para a frente, e vem andando, até onde ela está sentada, vagarosamente, enquanto bebe a sua água.

O senhor na minha frente coça a sobrancelha. Ajeita-se na cadeira, guarda o celular no bolso. Olha para a TV. Olha para baixo. Coça a nuca. Olha para a TV. Cruza os braços. Respira profundamente.

Um rapaz entra nessa recepção que estamos. É branco, alto, gordinho. Usa calça jeans, casaco preto e mochila preta. Aparenta ter cerca de 18 anos. Senta exatamente atrás de mim.

O senhor na minha frente continua de pernas cruzadas, uma das mãos sobre o pé, e olhando a TV, sério.

São 7h24. Fui chamada.

sábado, 13 de julho de 2013

Em observação, no Labs Dor

Hoje é dia 13 de junho. São 8h51.

Estou no Lab’s Dor, no Centro, aguardando meu exame.

É uma recepção grande, com vários ambientes. Na minha frente, uma pequena recepção e mais cadeiras. Mais à frente, um balcão, com água, café e biscoitos. Ao meu lado direito, mais três cadeiras, e a entrada do local (com a porta de vidro, que dá pros elevadores). Ao meu lado esquerdo, os guichês para atendimento. Bem atrás de mim, mais cerca de 30 cadeiras. Bem à minha frente, é um local de passagem das pessoas.

Sentado ao meu lado direito, um rapaz com a perna quebrada. É moreno, cabelo preto, curto. Veste uma bermuda florida, uma blusa azul e chinelo.

Na minha frente, uma moça, branca, cabelo ruivo, usa bermuda jeans, blusa social de manga comprida, xadrez e chinelo cinza.

Um menino passa ao meu lado esquerdo. Usa bermuda beje, blusa vermelha e boné vermelho.

Uma senhora passa na minha frente. Uma outra moça passa na minha frente. E outra moça também passa na minha frente. E uma moça passa na minha frente. E a faxineira passa na minha frente e sai.

Um senhor entra e o pára na recepção. Ele vem andando vagarosamente. Usa bermuda xadrez, blusa azul marinho e chinelo.

O atendente passa na minha frente e entra no seu guichê, à minha esquerda.

Um senhor passa na minha frente. Uma moça passa na minha frente. Uma senhora passa na minha frente. Três senhores passam na minha frente. Duas senhoras saem. Uma senhora passa na minha frente. A faxineira sai. O atendente sai.

A menina ruiva na minha frente olha para mim.

Um senhor passa na minha frente.

O rapaz ao meu lado vê TV.

A atendente passa na minha frente.

- Li Carlos de Araujo!

Um senhor levanta e sai.

- Vamos lá, seu Li?

- Vamos.

O rapaz ao meu lado se coça enquanto assiste TV, sério.

A menina a minha frente, mexe no celular, séria.

Uma moça passa na minha frente.

Um senhor passa na minha frente.

- Obrigado. Tem que pegar senha?

Duas moças passam na minha frente. Uma delas usa jeans, casaco branco e sandália marrom. É branca, loira, cabelo comprido e liso.

Uma senhora passa na minha frente.

A recepção a minha frente está cheia agora.

Uma senhora passa por mim e fica de pé, ao meu lado. (Será que ela consegue ler o que escrevo?). É branca, gordinha, grisalha e meio aloirada. Usa calça roxa, blusa cinza, sandália azul marinho. Ia sentar ao meu lado, mas desistiu (que bom!). Sentou do outro lado do rapaz de perna quebrada. Existe uma cadeira vazia que nos separa, onde a moça grisalha-loira iria se sentar.

O rapaz, ao meu lado, parou de se coçar e continua vendo TV, sério.

A menina à minha frente continua no celular.

Uma senhora passa ao meu lado e senta atrás de mim.

Um senhor passa na minha frente. Ele sai. Pára no balcão.

Uma moça sai.

Um senhor, agora, passa ao meu lado.

O rapaz ao meu lado, agora, parou de ver TV e observa as pessoas na recepção, comigo.

A menina à minha frente continua no celular, séria.

Uma senhora passa ao meu lado.

O atendente passa na minha frente e pára no guichê.

A senhora que passa ao meu lado, sai.

A menina à minha frente pára de mexer no celular e observa as pessoas na recepção.

E o rapaz ao meu lado volta a assistir TV.

Um senhor passa na minha frente e senta ao meu lado (entre eu e o rapaz). Parece o pai dele. Usa jeans, blusa pólo amarela (dessas fluorescentes) e tênis preto.

Uma moça passa na minha frente.

O senhor ao meu lado levanta e vai à recepção.

Um senhor passa na minha frente e sai.

O senhor ao meu lado volta e senta, ao lado do rapaz.

- É, eu falei errado. - ele murmura.

Percebo que o rapaz ao meu lado é mudo! O pai e o filho conversam por gestos. (Não sei se são pai e filho, mas finja que são). Gosto desse silêncio não-falado. Gosto desse silêncio conversado. O pai murmura enquanto conversa - silencioso - com o filho. 

Três senhores passam na minha frente e param no balcão.

O senhor, ao meu lado, está com as pernas esticadas; agora, dobradas. Tirou a carteira do bolso e guardou documentos. Colocou-a no bolso novamente.

Uma senhora passa na minha frente.

Um senhor sai.

A menina sentada à minha frente levanta.


São 9h06. 

- Luana Zanelli?!

- Sou eu. Deixa eu só desligar aqui o computador, rapidinho?