segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Em observação, no Psicologia e Coaching - 116

Hoje é segunda-feira. São 08:14h.

Estou no consultório Psicologia e Coaching, sentada à mesa.

Ao meu lado direito, parede. Ao meu lado esquerdo, uma cadeira com minha mochila em cima. Na minha frente, uma cadeira vazia.

Por aqui, luzes acesas e tudo silencioso.

sábado, 29 de agosto de 2015

E o bandido me ligou...

(Escrito em 13 de Setembro de 2014)

2h27 o celular toca.
Aparece um número na tela.
[Como troquei de celular recentemente, e alguns contatos desapareceram, podia ser alguém...]

- Alô.
- Suélle?
- Oi?
- Suélle? É tu, Suélle?
- Não, não é a Suélle.
- Qual teu nome, colega?
- Amigo, são 2h da manhã. Eu não sou tua colega. E meu nome não interessa.
- Tu não é a Suzane, né não?
- Isso, não sou a Suzane.
- Com todo respeito, diz teu nome aí.
- Não interessa meu nome.
- Tu é de Paraty?
- Não.
- Tu é do Rio de Janeiro?
- Não interessa.
- Pô, colega, com todo respeito. Eu tou preso. Sou bandido. E só queria conversar com tu. Diz teu nome aí.
- Então... vamos de novo. São 2h da manhã. Não vou te dizer meu nome, nem de onde eu sou.
- Pô, com todo respeito, colega. Eu só queria conversar com tu. Tou aqui, preso. Bandido, saqualé?
- Legal. Liga depois das 9h, então, que nós conversa, tá bom assim?
- Legal, eu vou ligar pra tu. Tu é maneira.
- Obrigada. Tchau.
[Desliguei]
[TRÊS minutos depois o moço ligou novamente]
- Alô.
- Pô, diz teu nome aí, colega?
- Cacete, mermão. Mas tu é chato, hein?
(Pra outro...): - Ela não diz o nome, mas a mina é firmeza. Não é a Suélle.
(Eu em silêncio de novo)
- Tá bom então, colega. Dorme com Deus aí. Desculpa qualquer coisa. Eu queria falar com a Suélle, mas tu é responsa, e aí queria só bater um papo com tu mermo. Mas tá bom. Tu tá quieta aí. Fica com Deus, colega. [Porra, mina legal essa, falou com nóis, cara]...

sábado, 22 de agosto de 2015

Na fila do banco

(Escrito em 08 de agosto de 2014)

Eu ia só tirar um dinheiro. Só isso. Era 12h, dia 06.

Voltei pra casa pra pegar um livro. "A fila deve estar gigante". 

Não é meu habitual, mas entrei no banco, pra ir ao caixa. Sabe aquele dia à toa, que você está a fim de ver gente-diferente? Podia ir ao caixa-eletrônico, mas resolvi entrar.

A fila para não-idosos tinha umas 15 pessoas na minha frente. Dois idosos na fila. A fila de idosos tinha uns cinco ou seis velhotes, todos homens.

Uma senhora - que não parecia idosa - perambulava. Passeava, pra lá e pra cá. Sozinha, em silêncio. Não parava quieta, nenhum minuto.

O senhor, da minha fila (a de não-idosos) era alto, forte, decidido:

- A senhora escolha uma fila e fique nela.
- Deus está com o senhor!
- Tudo bem, obrigado. A senhora escolha uma fila e fique nela. Não pode ficar perambulando assim. 
- O senhor é idoso, tem que ficar na fila de idoso.
- Fico nela se quiser, não sou obrigado. Posso ficar aqui, se eu quiser. Mas estou em uma fila só. A senhora não está em fila nenhuma.
- Deus esteja com o senhor.
- Ai, minha senhora. Obrigado. Mas na minha frente a senhora não entra.
- Deus está no comando! O senhor precisa ter Deus no coração!

Chegou a vez do senhor. Ele foi atendido, e foi embora.
Eu fui atendida. E fui embora.

E a senhora-não-tão-idosa-assim continuou ali, perambulando. 

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O casal e o mendigo

(Escrito em 08 de Agosto de 2014)

Eu os vi num bar, na zona sul. Era um casal, por volta dos seus trinta-e-alguns. Eles comiam, conversavam, se beijavam, fuçavam o celular. Cada um o seu.

Já estavam saindo, quando eu os percebi. Eu tinha comprado um açaí, do outro lado da rua, e estava encostado no carro, ali de frente ao bar, vendo o movimento. 

Era tarde e eu estava voltando pra casa, onde, sozinho, ia ver TV. Então, que, pelo menos, enquanto durasse o açaí, eu visse gente. 

O garçom trouxe uma sacola com a quentinha.

"É o jantar deles, de amanhã; ou o almoço". 

Ele pagou. Ela foi lá dentro. Voltou. Beijaram-se antes de sair. 

Por acaso, eles tomaram o caminho na direção da minha casa. 

"Vou segui-los. Gostei destes dois".

Ah, sim. Eu não sou gay, nem estava paquerando a moça, e nem sexo-com-casais. Apenas fui com a cara deles dois. Meu açaí já estava no fim, e eu resolvi ver onde o casal ia. 

Me distraí por um momento e os vi parados. Ela carregava umas sacolas, além da sacola da quentinha. Entregou as grandes para o marido. Acho que era marido.

Um mendigo estava embaixo de uma marquise, sozinho. Estava sentado, de pernas juntas e dobradas, cabeça entre os joelhos. Tremia o corpo um pouco. Não estava um frio que justificasse a tremedeira do cara. 

- Ele está acordado.

A moça cutucou ele: "moço, moço".

Ele custou a levantar a cabeça, quase em câmera lenta. Eu estava atrás do casal, já parado. 

O mendigo olhou para ela. Daria uma cena de filme. Ah, eu sou cineasta. 

- Uma quentinha pro senhor. É carne, o senhor quer?

O mendigo não fez que sim. Nem fez que não. Nem olhou a quentinha. Só olhou pra moça. Levou - também em câmera lenta - as mãos em direção à sacola, com a quentinha. Colocou-as entre as pernas, esboçou um quase-sorriso e deitou a cabeça novamente. Ele não deu uma palavra, sequer.

Os dois seguiram seu caminho.

Eu ainda consegui dar o resto do meu açaí pro "moço":

- Pro senhor acompanhar o jantar que a moça te deu. Ou de sobremesa. É açaí. Açaí.

Fui atrás do casal, pra dizer qualquer-coisa, pra agradecer pelo mendigo, pra agradecer pela cena bonita, mas eles já estavam dentro do táxi. 

sábado, 1 de agosto de 2015

Zeca e Kelly Cristina

(Escrito em 10 de abril de 2014)

O ônibus estava cheio. 132. Central - Leblon. 

Estava na Rio Branco, às 18h30, voltando pra casa. Entrei nele, mesmo cheio.

Encontrei um lugar, lá no fundo, no último banco.

Zeca estava na janela. Sobrou meio-banco para mim. Ele era um rapaz grande. Parecia alto e, era gordo. Não gordinho/fofo/acima do peso. Gordo. 

Zeca, no entanto, não se preocupava com a sua gordura. Sentei ao seu lado.

- Com licença.

Ele me olhou. Não me respondeu. Não se ajeitou. Apenas me olhou.

Ficou apertado para mim. Apertado para ele. Ele estava habituado a isso. Ficou feliz com o aperto. Poucos eram os que sentavam ao seu lado no ônibus. Ele era grande, as pessoas viam. E, além de gordo, negro. Zeca ficava meio puto com o preconceito com a sua cor e o seu peso, mas nem pensava muito nisso. 

Zeca tinha 33 anos e morava no bairro da Saúde, próximo à Central do Brasil. Já teve vários empregos ao longo da sua vida: garçom, porteiro, ascensorista, segurança, vendedor. Agora, estava indo fazer um bico de segurança numa danceteria, em Ipanema. Um colega o indicou. Era o porteiro. 

Mora com a mãe, uma senhora já bem idosa. Tem quatro irmãos, todos mais velhos. É solteiro e não tem filhos. Até gostaria de ter filhos. Com a Kelly Cristina, a Kellyzinha.

Quando o ônibus pegou o Aterro, ele tirou o celular do bolso da blusa. Um Nokia bem velhinho...

- Alô. Oi. Tudo bom? Não tá querendo falar comigo? Quê? Tu não me atende, pô... É, te liguei. Três vezes. Tá fugindo? Oi? Alô? Alô?

Olha para o celular, enquanto resmunga... "É, caiu essa bosta. Esse celular velho é uma merda... Meu Galaxy vai voltar do conserto e vou devolver esse pra mãe... Mas eu ligo de novo".

- Oi! [Sorrindo]. É, caiu. E aí? Não tá me atendendo? É, agora atendeu. E aí, tá tudo bem? Tá. Tudo bem. Fim de semana? Eu tou no ônibus. É, no ônibus. Não. Não posso dizer. Tá cheio. Não posso dizer o que eu vou fazer. O que eu vou não, né? O que eu quero. Porque já tem o que, né, Kellyzinha? Duas semanas. Tá me dispensando, né, gatinha? É, dispensando. As amigas, sei. Prefere elas, né? Mas elas não dão o carinho daqui do negão. Então, sexta-feira? Alô? Alô?

Zeca olha o celular novamente. "Merda. Porra, na hora, mermão?"

- Kellyzinha? Oi, sou eu. Toda hora que passa no túnel esse negócio cai. Olha só, vou te mandar a real. Quero tu, minha preta. Sexta-feira. De novo. Duas semanas é muito tempo, né? Então. As amigas? Vai sair com as amigas? E no sábado? Sábado você trabalha? Não, né? Então, bora sábado? Vai ver? Mas tu não tá com saudades? Eu tou, pretinha. Cheio de saudades. Ai..., tou no ônibus... Te ligo de noite, tá? A gente combina. Sábado. Te pego. Alô? Alô?

"Bosta de celular. Amanhã eu pego o meu na autorizada e a Kellyzinha vai ver só o que é uma ligação que não é interrompida..."

Eu precisei saltar do ônibus, mas deixei Zeca sorrindo, sozinho, olhando pro lado de fora da janela.