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Em observação, no Uber - 224

- Oi, boa tarde. Você é o Darly? Darly, meu código é 8962. Isso, por favor. Tá ótimo.  O celular bipa. Notificação do Uber.  Hoje é terça-feira. São 15h28. Estou no Uber, sentada.  Ao meu lado direito, porta e janela fechadas. Ao meu lado esquerdo, um banco vazio. Na minha frente, um banco vazio.  O celular bipa. Notificação da agenda. Bipa novamente. Notificação do Beber Água. Bipa novamente. Notificação da agenda. 

O abraço

Se tem uma coisa que eu acho lindo é a manifestação de afeto, assim, publicamente. Pude ver eles se encontrando, na calçada. Quase em frente à loja. A loja fica na minha rua, e é uma dessas lojas grandes, de construção, com um galpão atrás. Eram colegas de trabalho. Um chegando, e o outro saindo.  Cruzaram um com o outro na calçada. Deram um sorrisão, se abraçaram e, ainda no abraço, tascaram um beijo estalado um na bochecha do outro, ainda enquanto sorriam. Eram dois homens cis. Não era um casal gay. Pude presenciar cada um falando da sua esposa, ainda. E das crianças, em casa.  Em tempos de tanta violência, misoginia e redpills , ver dois homens cis manifestando afeto um pelo outro, sem "não me toques" me faz tem algum nível de esperança nos homens.  Ainda existem alguns que são capazes de manifestar afetos. 

Em observação, na Smart Fit - 321

Hoje é domingo. São 09h13.  Um homem passa na minha frente. Uma mulher passa na minha frente carregando uma mochila rosa e um celular.  Um homem passa na minha frente. Ele é branco, magro e alto. Tem o cabelo branco e curto.  Um homem passa na minha frente carregando um celular. Um homem passa na minha frente carregando uma mochila preta e um celular. Estou na Smart Fit, sentada na bicicleta. Ao meu lado direito, uma bicicleta vazia. Ao meu lado esquerdo, uma bicicleta vazia. Na minha frente, um corredor por onde as pessoas passam. Um homem passa na minha frente carregando um copo amarelo. Ele é branco, magro e alto.  Um homem passa na minha frente carregando uma mochila preta e um capacete preto. Ele é branco, magro e alto. Tem o cabelo preto. O celular bipa. WhatsApp da Zezé. Uma mulher passa na minha frente carregando uma garrafa branca. Ela é branca, magra e alta. Tem o cabelo castanho, liso e curto. Um homem passa na minha frente. Ele é branco, magro e alto. Tem...

Em observação, no Uber - 223

Hoje é sábado. São 14h12. Estou no Uber, sentada.  Ao meu lado direito, porta e janela fechadas. Ao meu lado esquerdo, um banco vazio. Na minha frente, um banco vazio.  O celular bipa. Notificação do Uber. Bipa novamente. WhatsApp da Fernanda. 

Em observação, no ônibus - 516

Hoje é sexta-feira. São 17h27. Estou no ônibus 410, sentada. Ao meu lado direito, uma janela fechada. Ao meu lado esquerdo, o corredor do ônibus por onde as pessoas passam. Na minha frente, a roleta do ônibus desativada. O celular bipa. WhatsApp da Deborah. Bipa novamente. Google Chat do Diego.  Uma mulher passa ao meu lado esquerdo carregando uma bolsa. Uma mulher passa ao meu lado esquerdo carregando uma bolsa. O celular bipa. WhatsApp da Deborah. Bipa novamente. Notificação da agenda. 

Em observação, no Uber - 222

- Bom dia, você é o Carlos? Carlos, meu código é 8022.  O celular bipa. Notificação do Uber. Hoje é quinta-feira. São 07h58. Estou no Uber, sentada. Ao meu lado direito, porta e janela fechadas. Ao meu lado esquerdo, minha roupa branca em cima do banco. Na minha frente, um banco vazio.  O celular bipa. Despertador que toca. Bipa novamente. Notificação do Uber. Bipa novamente. WhatsApp da Luciana.

Em observação, na Smart Fit - 320

Hoje é quarta-feira. São 06h54. Estou na Smart Fit. Um homem passa na minha frente. Um homem passa na minha frente. Uma mulher passa na minha frente. Estou sentada na bicicleta. Ao meu lado direito, uma bicicleta vazia.  Uma mulher passa na minha frente. Um homem passa na minha frente. Ao meu lado esquerdo, uma bicicleta vazia. Na minha frente, um corredor por onde as pessoas passam. Uma mulher passa na minha frente. Uma mulher passa na minha frente. Ela é branca, magra e baixa.  Um homem passa na minha frente. Ele é branco. Um homem passa na minha frente. Ele é branco. Uma mulher passa na minha frente. Um homem passa na minha frente. Uma mulher passa na minha frente. Um homem passa na minha frente. Um homem passa na minha frente carregando uma garrafa preta. Ele é negro, magro e alto. Tem o cabelo preto, estilo black. Usa uma blusa amarela. Um homem passa na minha frente. Uma mulher passa na minha frente. Ela é branca, magra e alta. Tem o cabelo castanho. Uma mulher passa na ...

Em observação, no CREB

Hoje é terça-feira. São 14h50. Estou no CREB Botafogo, sentada na sala 09. Ao meu lado direito, uma porta de madeira aberta. Ao meu lado esquerdo, uma pia.   Uma mulher passa ao meu lado direito pela porta e entra na sala. Está carregando uma bolsa bege e um copo. Ela é branca, magra e alta. Tem o cabelo preto, comprido e liso, preso em um rabo de cavalo baixo. Usa óculos de grau. Veste um vestido longo e bege.  Um homem passa na minha frente. Uma mulher passa ao meu lado direito. - Boa tarde.  Uma mulher para ao meu lado direito, em pé. Carrega uma mochila colorida e um copo.  Um homem para na minha frente carregando um celular e um carregador portátil branco. Ele é branco. A mulher sai do meu lado direito.  Agora, ao meu lado direito, um vão e a porta aberta. Um homem para na minha frente. Lê algo. Olha para o celular. Carrega um celular e um carregador portátil. Uma mulher passa ao meu lado direito e coloca uma cadeira na sala. Um homem passa na minha fr...

A senhorinha e o Luiz

Estava chovendo e quase não vi seu rosto. O cabelo era cheio, apesar de liso. E usava um casaco de capuz, com o capuz cobrindo a cabeça.  Cruzei com ela dentro do ônibus. O 409, aquele que eu pegava na infância. Mas peguei pra voltar pra casa. Trajeto curto e rápido.  Só a percebi quando me levantei para saltar do ônibus. Eu gosto de sentar lá na frente. Ela estava lá atrás. E foi enquanto eu esperava para descer que pude notá-la. Ela falava. E gesticulava. Sozinha. Fazia as pausas para o interlocutor. Reclamava da saúde. Dele, talvez.  Apesar de não falar alto, era notório que falava. As pessoas, em volta, percebiam, prendiam o riso. Cochichavam umas com as outras. Deviam dizer: "esquizofrênica, coitadinha". "Louca". "Como deixam uma senhora andar assim sozinha?" E ela nem era tão senhora assim. Uns 70, no máximo? E falava. Gesticulava. Até que chamou um nome. O interlocutor que devia cuidar da própria saúde tinha nome? Luiz.  O negócio ficava sério. Além...

Em observação, no ônibus - 515

Hoje é sábado. São 12h51. Estou no ônibus 220, sentada.  Ao meu lado direito, um banco vazio. Ao meu lado esquerdo, uma janela fechada. Na minha frente, uma mulher sentada. Ela tem o cabelo preto e cacheado. Olha para fora da janela. Um homem senta ao meu lado direito. Levanta e sai. Agora, ao meu lado direito, um banco vazio. A mulher sentada na minha frente olha pra dentro do ônibus. Olha para fora da janela. Olha para dentro do ônibus. Olha para fora da janela. O seu cabelo é comprido. Ela é negra. Olha para dentro do ônibus. Olha para fora da janela. Olha para dentro do ônibus. Olha para fora da janela. Tem olhos pretos e pequenos. Olha para trás. Se ajeita no banco. Olha para fora da janela. Se ajeita no banco. Usa uma calça jeans e uma blusa verde. Levanta e sai.  Agora, na minha frente, um banco vazio.