A senhorinha e o Luiz
Estava chovendo e quase não vi seu rosto. O cabelo era cheio, apesar de liso. E usava um casaco de capuz, com o capuz cobrindo a cabeça.
Cruzei com ela dentro do ônibus. O 409, aquele que eu pegava na infância. Mas peguei pra voltar pra casa. Trajeto curto e rápido.
Só a percebi quando me levantei para saltar do ônibus. Eu gosto de sentar lá na frente. Ela estava lá atrás. E foi enquanto eu esperava para descer que pude notá-la.
Ela falava. E gesticulava. Sozinha. Fazia as pausas para o interlocutor. Reclamava da saúde. Dele, talvez.
Apesar de não falar alto, era notório que falava. As pessoas, em volta, percebiam, prendiam o riso. Cochichavam umas com as outras. Deviam dizer: "esquizofrênica, coitadinha". "Louca". "Como deixam uma senhora andar assim sozinha?"
E ela nem era tão senhora assim. Uns 70, no máximo?
E falava. Gesticulava. Até que chamou um nome. O interlocutor que devia cuidar da própria saúde tinha nome? Luiz.
O negócio ficava sério. Além dela falar ali, "sozinha", ela falava com um ser imaginário? Estava vendo alguém que não estava ali? E ele tinha nome e tudo?
Os murmúrios continuavam. "Valha-me-nossa-Senhora". E até "Tá repreendido em nome do Senhor".
A senhorinha conversadeira nem olhava para os lados, e nem para quem falava dela. Ela estava dando uma bronca. No Luiz.
Até que ajeita algo por dentro do capuz. Era o fone de ouvido, que caiu.
- Só um momentinho, Luiz, tem umas pessoas falando alguma coisa aqui no ônibus, não sei o que foi que aconteceu. Tá tendo algum problema na rua, gente?
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