domingo, 20 de janeiro de 2013

Ana

Eu estava voltando pra casa, de Ipanema.
Saltando do ônibus, resolvi entrar em uma rua diferente. Tentar novos caminhos, novos olhares, novas pessoas.
Gosto de olhar no olho das pessoas. Mesmo dos estranhos.
Velhinhos - e uma velhinha - jogavam baralho num boteco, na mesa suja da calçada.
Alguns senhores - mais novos - sorriam, olhando a jogatina, de pé. 

Mas foi quando passei por um prédio, destes grandes, antigos, velhos, das ruas transversais de Copacabana, que vi Ana.
Magra, alta, sentada na escada do prédio, com os joelhos próximos ao peito, abraçada-angustiada sobre eles.
Usava um vestido roxo, longo e largo, de alcinha. Chinelo rosa. Cabelo preto, liso, sujo e desgrenhado, preso em um rabo de cavalo mal feito.

Ana, coitada, havia terminado o namoro ha 1 semana. Ele terminou com ela, aliás. 
Já moravam juntos, naquele apartamento, que ficou para ela de herança do seu falecido pai.
Perdeu seus pais cedo. Sua mãe se foi, ela tinha 8 anos.
E seu pai, há dois anos atrás, quando ela tinha 24. Infarto fulminante.

Ficou ela com aquele apartamento grande, 3 quartos, e, nele, vivia com Cristiano há 8 meses. 
Foram apresentados pela Fernanda, amiga de Ana, numa festa. Cristiano é colega de trabalho dela. Com 5 meses de namoro, já estavam morando juntos.
Namoro pacato, prático, feliz. Nada estonteante. Tampouco apaixonados. Amavam-se. Annie (como ele a chamava), e Tiano (como ela o chamava).

A convivência era boa. Brigas, desentendimentos, conversas, jantares juntos, receber os amigos em casa, ir pra Teresópolis final de semana, sexo 3 a 4 vezes por semana.
O sexo, era sempre muito bom. Foi o melhor da vida dela. Era sexo olho-no-olho. Sexo profundo. Toda a profundidade que faltava na relação, existia no sexo, que podia durar quase um dia todo. Tiano era um galanteador. Annie amava isso em Tiano. Amava mais o galanteio do que o próprio Tiano. 

Ela, também, sempre fora muito amorosa com ele. Fazia as comidas que ele desejava. Ouvia as histórias de família, de brigas, de pai-e-mãe-e-irmãos problemáticos. Era silenciosa quando precisasse. Divertida, idem. E, boa conselheira, também. 

Tiano a chamava de psi, mas ela era, na verdade, arquiteta. Gostava, mesmo, de trabalhar com design de interiores. E Tiano foi seu grande projeto de design de interiores. Nestes 8 meses, como ele se transformou. Ela também. 

Ele permitiu que ela não fosse mais rigorosa. Com a casa, com o trabalho, com ela mesma. Permitiu que não fosse uma mulher tristonha, cabisbaixa, descuidada. Permitiu que ela se cuidasse, se amasse, se desse prazer, e gozasse. Com ele ou sem ele. Com ele, claro, era sempre melhor. Mas, mesmo sozinha, o prazer era intenso.

Fim de semana passado, segunda semana de janeiro de 2013, Tiano fala, logo de manhã:
- Vou embora.
- Pra onde? Por que?
- Não sei. Vou pra minha mãe, pro meu irmão. Mas vou embora.
- Por que?
Tiano silenciou. 
- Qual o nome dela?
- Não tem "ela".
- E por que você está indo? A nossa vida não é feliz? A gente não se dá bem?
- Pois é, Ana, é só isso. A gente é feliz, e se dá bem.
- Eu te amo, Tiano. Eu sou sua Annie. 
Tiano silenciou. 
Annie ficou atônita, cabisbaixa. Lágrimas rolavam, sem nenhum som. 
Tiano, ao seu lado, na mesa da cozinha, passava os dedos pelo seu rosto. Ela olhava para os dedos dele, para o olhar dele, e tentava desvendar. Nada. O olhar, os dedos, eram os mesmos. O carinho, no entanto, era outro. 
- Quando?
- O que?
- Que você vai?
- Não sei.
Annie teve, então, uma explosão de choro e foi ao banheiro, lavar o rosto. Quando voltou, Tiano não estava mais. Nenhum bilhete. Nenhum adeus. Nenhum nada. Só a ausência.

Hoje, uma semana depois, Tiano ligou, numa manhã de domingo chuvosa:
- Quero te ver...
- Tiano! Onde você está???
- Posso ir te ver?
- Pode, meu amor. Quando, que horas?
- Daqui a pouco...
- Você ainda tem a chave?
- Você não trocou a fechadura?
- Tiano, entra com a sua chave.
- Não... não quero subir... me espera lá embaixo. 
- Em quanto tempo desço?
- Já estou chegando, tou de moto. 
- Descendo. Um beijo!

Ana colocou um chinelo, penteou o cabelo desgrenhado, e desceu.
Mas Tiano não apareceu. Nunca mais.

2 comentários:

  1. Nossa, Lu... pequeno, mas concentrado em muita tristeza... abandono... frustração... bem forte. Muito bem escrito. Beijo!

    ResponderExcluir
  2. Aiiii que dor.
    Lindo, intenso, mas, tão doído.
    Tão... :'(

    ResponderExcluir