domingo, 28 de abril de 2013

Era uma velhinha...

Eu não sei seu nome. Nem perguntei. Não importa pra este conto. Nem pro nosso encontro.

Fui à praia sozinha. Encontrei uma amiga por lá, depois; mas, na ida, no caminho, no encontro com meu lugar sagrado, eu estava só. 

Eu moro no início de Copacabana, e vou a praia no Leme. Então, é uma pequena caminhada, pelo calçadão, olhando as pessoas, o mar, as crianças, os cachorros... Olho tudo, menos os carros. (rs)

Nossa personagem era magra, bem magra. Devia beirar os 70 anos. Vestia um shortinho de pano, deixando suas pernas brancas bezuntadas de protetor solar de fora, e uma camisetinha, combinando. Uma sapatilha branca, de pano, velhinha, compunha o conjunto. 

Tinha um olhar sorridente (embora não sorrisse), contemplativo. Parecia sozinha, sentada numa cadeira de rodas, na beirada do calçadão (a beirada mais próxima da areia). Percebi, a alguns metros, alguém semelhante a uma enfermeira. Uma moça mulata, baixinha, magrinha, pouco sorridente, comprando um coco. 

Não pude deixar de perceber a velhinha - gosto de chamá-la assim - com o olhar longo e contemplativo.

- Oi.
Ela apenas sorriu.
- Bonito o dia, não?
Ela fez que sim com a cabeça e, agora, me olhou sorridente.
- A senhora não anda?
- Ando, mas não tenho mais forças. - Levantou-se da cadeira, sozinha, e deu dois passos, e sentou-se novamente. - Nada muito mais do que isso.
- E a senhora hoje está passeando, tomando um coco...
- É, minha menina, ali, a Márcia, foi comprar pra gente.
- Mas me parece que a senhora gostaria de mais além de um coco, não?

Ela emocionou-se, sorrindo, sem cair sequer uma lágrima. Apontou para o mar, com seu dedo magro e enrugado. E, em seguida, para as suas pernas.

No silêncio, ela me dizia: "não consigo chegar lá".

- Eu adoro o mar também. A senhora me dá um minutinho? 

Desci as areias do mar, até a beirada dele, e encontrei Norberto, um amigo. 

- Berto, tudo bem, amigo? Então, conheci uma velhinha. Olha discretamente, lá pra cima. Ok, não sei se ela enxerga de longe. Aquela velhinha precisa vir ao mar, amigo. Mas eu não consigo carregar cadeira de rodas, ela, e mais a enfermeira dela junto. É, a enfermeira aguarda com as coisinhas dela. Não, não sei se ela está de bikini. Mas você pretende afogar a velha, Berto? Uma molhadinha nos pés. Sacanagem a enfermeira trazer a velha pra tomar um coco e ficar olhando o mar só? Você me ajuda? Bora.

E vim subindo a areia, de novo, em direção a, agora, nossa velhinha - minha e do Norberto. 

- Oi, bom dia. Eu sou Norberto, seu criado - e beijou a mão da velhinha - [ele era um palhaço]. Pronta?

- Pronta pra que, Norberto?

Seus olhos já eram outros...

Norberto já tirava os sapatos dela, entregando-os para a enfermeira. 

- Você me espera, Márcia? Acho que eu vou ali com esse casal...
- Você os conhece? Sabe onde vai?
- Conheço, claro! Meus amigos, oras. Você quer ir com a gente?
- Não. Eu não gosto de areia. Suja meus pés.
- Eu gosto, já volto, tá? Não se pré-ocupe.

A nossa velhinha ficou de pé, sozinha, descalça, no calçadão ainda. 

Norberto, num átimo, pegou-a no colo - tal como um noivo pega a noiva, ao entrar em casa. A velhinha sorriu, e estalou um beijo na bochecha do nosso amigo, que fechou os olhos e suspirou. 

Só Norberto era nomeado. Nem eu nem a velhinha nos apresentamos. Não precisava. 

Passamos, pela areia quente, vagarosa e silenciosamente. O mar, cada vez mais próximo aos olhos da nossa velhinha. A água estava calma e muito gelada. 

Norberto estava só de sunga e, pelo caminho, eu fui me despindo, e guardando meu vestido e chinelo na minha bolsa. Avistei onde estava a cadeira do Berto, próximo ao mar, e deixei minhas coisas próximas às suas. 

Na beiradinha do mar, Berto pousou a velhinha, com cuidado, na areia. Continuou, no entanto, segurando as mãos dela. 

Fiz sinal para ele, e ele soltou as mãos dela, passando para trás dela (junto comigo), segurando-a pela cintura - a gente não sabia se ela podia perder o equilíbrio. A personagem principal da cena era a velhinha contemplativa com o mar. Não podíamos ficar na sua frente.

Ela olhou para trás, nos sorriu - um sorriso desses sapecas, maliciosos, que só boas velhinhas são capazes de dar. No silêncio, entendemos tudo: eu, do lado direito; Norberto, do lado esquerdo. Mãos dadas. 

Entramos, os três, andando, sentindo o solo arenoso nos pés, mar adentro. Até enfiarmos, os três, a cabeça nas ondas, sem medo. 

No silêncio, podíamos ouvir a velhinha sorrir e agradecer, emocionada, pelo melhor presente de aniversário que poderíamos dar a ela.

Ela - nem nós - nem sabia, mas aquele era seu aniversário de um ano. E era ali, no mar, que ela podia renascer. 

sábado, 27 de abril de 2013

Um ano se passou


Meu tio – sábia pessoa – me diz que quando a gente fala do outro – para o outro – a gente fala da gente mesmo. 

Há quem ache que esta carta é para AnaZ. Desculpa te decepcionar: ela não vai ler. Eu vou ler. Nós vamos. Então, apesar de endereçada a ela, é uma carta pra gente mesmo. Pra mim, pra você, pra quem quiser ler (ou não).

Nada ficou a ser dito, AnaZ. Embora eu ache que sim; eu também acho que não. Muitos perdões. Muitos obrigadas. Muitos te perdôo. Muitos te amo. Ou minutos mais cedo – ah, se eu tivesse sido mais rápida naquela manhã de sábado – eu teria pego você, ainda, com um ultimo sopro de vida. Mas eu cheguei, e você já tinha ido. 

Enfim, depois de quase 2 anos lutando com uma doença ingrata, você se permitiu perder o controle mesmo.

Não, a gente não sabe como é ficar 2 anos quase ininterruptos sem respirar, entubada, vivendo e dependendo de um oxigênio artificial para (SOBRE)viver.
Não, a gente não sabe como é ficar numa cama de hospital, consciente ou não, esperando uma horinha de visita.
Não, a gente não sabe o que é viver uma vida paralela, de delírios.
Isso tudo você soube. Na pele. Nos pulmões. Nos olhos. Nas mãos amarradas, para não arrancar os tubos. No auge da sua inconsciência. E da sua consciência.

Eu e Nilson estávamos lá, diariamente. E isso não é egóico. A gente não é maravilhoso.
A gente te amava. E a gente só podia estar por perto. Só isso. Era o que podíamos fazer por você: estar por perto.
De vez em quando, uma massagem nos pés (nem sempre você gostava). Ou um chamego no cabelo. Ou desamarrar as mãos e fazer massagem nos dedos.

Eu queria poder soprar ar dentro de você. Queria poder dizer: NÃO MORRA!
Mas cada um tem o ar que merece. E o último suspiro que merece.
E você mereceu cada sopro de ar. Cada último suspiro.

É isso.
Hoje faz um ano que você não está mais aqui. Um ano. Trezentos e sessenta e cinco dias. É dia para caralho, né? Os primeiros foram piores do que os últimos. Cada vez vai ser sempre mais fácil. Eu assim espero.

A saudade e o amor, estes serão para sempre.

Eu queria te contar tantas coisas que aconteceram depois que você foi. Mas foda-se, né? Eu não vou contar nada não. Não importa mais.
Importa o silêncio.
E eu lembro de um texto que eu escrevi (dia 02 de março de 2012), e copio abaixo, que, na época, você comentou:

Às vezes, a gente tem a palavra.
Às vezes, o verbo.
Às vezes, o afeto.
Às vezes, apenas o instrumento.
Às vezes, o cheiro.
Às vezes, o som.
Muitas vezes, o silêncio.
E aí a gente percebe que não tinha nada.
Só a porta. 
E quando a gente acha que o silêncio é bom.
Vem um maior.
Sim, silêncio maior.
Daquele até sem o barulho da respiração.
Este não é especialmente ruim.
É diferente.
Quase sufocante.
Sem som.
Sem gente.
Só eu.

É isso. Só o silêncio importa.

Então, durante todas as internações, eu te dei meu silêncio.
E, agora, te dou de novo.
Para todo o sempre.
O meu melhor – e mais sincero – silêncio para você, minha mãe. 
Com todo o meu amor e a minha gratidão por ter sido a minha nave-espacial. 

sábado, 20 de abril de 2013

Beto

Eu conheci Beto no ônibus do metrô, no trajeto Botafogo - PUC. 

Acho que era a primeira vez que fazia este trajeto, neste horário. O ônibus estava cheio, a fila estava grande, mas eu encarei (o trânsito) ir em pé. Por acaso, parei na sua frente. Na frente de Beto, digo. 

Vou contar a sua história antes do (curto) trajeto da viagem, que nos conhecemos.

Beto tinha 33 anos, e morava no Humaitá, com os pais. 

Seus pais sempre foram bem-sucedidos. Sua mãe, professora de Filosofia de duas universidades. E seu pai, arquiteto e engenheiro civil (sim, ele tinha as duas formações). Ambos sempre educaram os três filhos homens - Humberto (o Beto), Rubens e Carlos - com muita educação e civilidade. Buscavam passar valores humanitários, de igualdade, e viviam à base do zero preconceito. Eram pais amorosos, que buscavam e propiciavam, aos filhos e às pessoas em geral, o máximo de liberdade e amor ao próximo. Nunca foram religiosos, mas sempre tiveram um viés espiritualista, guiado pelo respeito, liberdade e amor.

Beto nunca foi o filho mais fácil, dos três. A diferença de idade deles é de 3 anos. Beto tem, hoje, 33; Rubens, 36; e Carlos, 39. Os dois últimos já são casados. Beto já teve algumas namoradas - os pais só conheceram duas - mas nunca casou. Os pais não sabem bem porquê. "Mas é a vida que ele escolheu", e sorriam silenciosamente.

Quando criança, Beto era pacato, silencioso, poucos amigos. Parecia um menino sem paciência, embora ele dissesse que não. Lia mais do que jogava bola. Desenhava mais do que jogava video-game. E, com a internet, passa mais tempo nela do que namorando. 

Por ser de uma família classe média-alta, sempre viajaram os cinco. Seja pra Região dos Lagos, seja pra Disney, seja pra Europa. Os pais sempre tiveram a sensação de que Beto era o que menos curtia. Exceto a Disney, com aqueles brinquedos violentos, que ele queria ir repetidas vezes. 

Os pais o colocaram numa psicóloga aos 16 anos e, aos 17, ela sugeriu que Beto fizesse um teste vocacional, que deu engenharia de produção. Beto fez no IBMEC. Passou, sempre, com excelentes notas. Já é formado e trabalha em uma multinacional, no Centro, onde ganha muito bem e leva uma vida confortável: tem seu carro, junta dinheiro pra comprar seu apartamento próprio, sai todo final de semana, uma vez por ano faz uma viagem internacional.

Nunca deu trabalho para seus pais. Pelo contrário. Era o filho mais "imperceptível".

- É estranho esse menino, Dora. O que a psicóloga dele diz?
- Verinha, ele tem 16 anos. Não vou ficar conversando com a psicóloga dele sobre ele. 
- Será que ele é gay?
- Acho que não. Mas e se for?
- Ah, estranho, né? Um filho desse, lindo, e gay?
- Vai tomar no cú, Verinha. Ligou só pra isso?

Dora batia sempre o telefone com a sua irmã mais velha - madrinha do Beto -, com quem nenhum dos dois nunca se deu. Era mais velha que ela - Dora tinha 40 e Verinha tinha 50 - e com um pensamento retrógrado, preconceituoso, e, acima de tudo, era fofoqueira. Dora detestava fofoca. E preconceito, mais ainda.

Mas, voltemos a falar de Beto. 

Beto acabou fazendo engenharia de produção, por influência da dona Marisa - a psicóloga - , de quem muito gostava; e de seu pai. Somente os dois sabiam (parte) do seu mundo interno. 

O desejo de Beto era ser policial. Não qualquer policial, mas destes que matam. Beto achava que "bandido bom é bandido morto" e dizia que não ia morrer antes de matar um. 

Nunca andara armado, pois tinha medo - de verdade - de matar um bandidinho desses de meia-tijela e acabar se fodendo por conta disso. Sendo policial, ele não teria esse problema. Podia matar mesmo, e pronto. 

Seria coerente se Beto gostasse de vídeo-games violentos na infância, ou de filmes de guerra, massacre, ou policiais, na juventude. Mas, seus pais nunca ouviram-viram ele vendo nada disso. 

Sempre que podia, Beto estava lendo. Lia não só livros de suspense e policiais, mas livros de estratégia policiais, estratégia de matadores profissionais. Ele gostava de ser o próprio personagem e excitava-se imaginando-se naquele lugar de matador. Gostava de ver, na sua mente, o sangue escorrendo, o morto caindo, em câmera lenta. 

Beto nunca fora assaltado. Ele dizia pra psicóloga, dona Marisa:

- Eu dou azar. Nunca fui assaltado. Eu bem que queria. Acho que, sendo assaltado, ia ter motivo pra comer o filho de uma puta na porrada, até ver sangue. Não precisava matar, né? Morto, ele ia me foder. Mas uns socos, uns tapas fortes na cara, pra ver um sangue, é legal. 

A psicóloga conversava - e interpretava - essa questão de violência, morte e sangue tão presentes na vida de Beto. Antes que ela pudesse desvendar - para ele mesmo - ele saiu da terapia, para se dedicar aos estudos. Era um homem inteligente. Não queria ser desvendado. Dona Marisa ouvia, como ninguém antes, atenta, a história de Beto. Ainda que histórias do seu mundo interno. Beto podia - dona Marisa permitia - viver o personagem policial na terapia. Isso o excitava profundamente. Não excitava de pau-duro, caro leitor, mas excitava enquanto energia, enquanto pulsão, enquanto entusiasmo. 

Na terapia, Beto era a sua essência: o mundo interno (e oculto) vinha pro mundo real. Dona Marisa sabia, e ele era grato a ela por isso. 

Apesar de abarcar um personagem violento, Beto era um homem bom. Bom? Ele não se considerava bom. Talvez eu desejasse que ele fosse bom. Ele era justo. No seu conceito de justiça torpe. 

"Bandido deve morrer". "Os presídios estão lotados. Vai prender o merda lá dentro, pra daqui a 5 anos, ressocializar? Mata logo o cara, porra!". "Um estuprador merece viver? Não, não merece". "Direitos humanos? Bandido merece é bala". "Claro que existe gente do bem. Mas existe gente do mal. Bandido, estuprador, assassino, não é gente do bem. E gente do mal merece morrer". "Todos nós vamos morrer. Mas os bandidos, mais rapidamente". 

Essas eram os conceitos - insanos? - de Beto. 

No ônibus do metrô, Beto lia "Um dia sangrento". Eu tentei ler a contra-capa, ou ler parte do livro com Beto. De alguma forma, ele percebeu, e ficou lendo-o de forma que eu não pudesse ler mais coisa alguma. 

Gostaria que Beto me olhasse. Olhei, fixamente, dentro de seus olhos, parte da viagem. Ele notou que estava sendo observado, mas não desgrudou de seu livro-mundo interno.

Semana passada ele desejou retornar à terapia. Ligou para o consultório de dona Marisa, e falou com a Fernanda, sobrinha e secretária da sua psi. 

Fazia 9 dias que dona Marisa tinha sido assassinada, indo para casa, ao sair do consultório, numa 6a feira à noite. Seu carro era grande, preto, com vidros escuros, e dona Marisa gostava de dirigir devagar, olhando a orla, até São Conrado, onde morava. Foi abordada no final da Avenida Niemeyer e, ao tentar tirar o cinto, para sair do carro, levou um tiro na cabeça, morrendo na hora.

Agora, Beto podia realizar seu sonho. Ia, enfim, se tornar ele mesmo - aquele, de anos atrás, da terapia - e vingar a morte da sua psicóloga.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Zulmira e a sua história

Essa história, embora não pareça, tem muito mais realidade do que pensamos. Eu conheci Zulmira, pessoalmente. Ela não sabe que eu sou psicóloga e nem que entrevisto pessoas. Mas ela me contou (pôde me contar) a sua história. 

E eu senti que, por respeito à Zulmira, e à sua história, precisarei fotografá-la. Portanto, eis, a seguir, a sua história.


Estive, hoje, no Shopping Leblon e fui almoçar com uma amiga, a Fernanda. Fernanda ia encontrar a Zulmira, uma conhecida de sua mãe, pra entregar algumas coisas à ela.


Eu e Fernanda escolhemos nosso restaurante, fizemos o nosso prato, e sentamos em uma mesa, para 4 lugares. Fernanda já acabava a sua refeição (e ainda precisava passar no banco), quando a Zulmira chegou. Eu, que comia mais lentamente, ainda demorei um pouco mais.

- Oi tia Zulmira! Tá boa?
- Tudo bem, querida, e você?
- Tudo ótimo. Essa aqui é a Lu, minha amiga.
- Oi Lu, prazer.
- Oi Zulmira, prazer é meu, obrigada.
- Você não vai almoçar, tia?
- Não, obrigada. Já almocei antes de sair.

E Zulmira sentou na nossa mesa, observando a gente comer.

Fernanda terminou mais rapidamente, e pediu muitas desculpas a Zulmira, tendo que sair correndo, pois ainda precisaria pagar umas contas, resolver umas coisas. Entregou o que precisava à Zulmira, e nos deixou a sós.

Pude perceber Zulmira neste meio tempo. Era uma senhora, por volta de seus 50 / 55 anos. Usava um vestido estampado, justo, acima do joelho, muito bonito. O vermelho predominava. Tinha um cabelo loiro, pintado, liso, acima do ombro. Olhos castanhos. A pele um pouco rosada. E o olhar triste. 

Zulmira sorria pouco. Quase nada. Falava baixo e pausadamente. Estranhamente gostei da sua companhia e puxei um assunto.

- Tá passeando no shopping, Zulmira?
- Não. Vim a uma entrevista. Vou ainda.
- Ah, que legal. Em alguma loja?
- Não. Em uma empresa de engenharia, aqui no Leblon. Mas vim mais cedo. Passei aqui pra ver a Fernanda e pegar as coisas com ela.
- Que horas é a entrevista?
- 15 horas.
- Ah, legal. Não quer comer nada?
- Não, não. Sem fome. Hoje não seria um bom dia pra ir à entrevista. Mas marcaram, e eu tou precisando.
- Vaga de que?
- Supervisora administrativa de uma obra, na Barra.
- Olha, que legal! Sorte pra você!
- Estou precisando mesmo.

Zulmira suspirou e suas bochechas, rosadas, ficaram ainda mais vibrantes. 

- Me conta, Zulmira. Estou com tempo. Tenho uma reunião só às 15h também. Temos, ainda, uns 30 minutos.

E ela começou:

- Eu vim de São Pedro d'Aldeia. Morava lá, com marido e dois filhos, um casal. A Cecília, a mais velha, hoje tem 32 anos. Adotei ela quando ela tinha 10. É até uma história assim, como é que eu posso dizer...?
- Diferente?
- Não, não.
- Inusitada?
- Não. Não sei te explicar. Eu trabalhava num escritório lá perto, e eu andava sempre cedo, na praia. Tipo 6h da manhã. E aí, vi a menina, muito loirinha, sentada na areia, num canto, sozinha. Ela parecia menos idade. Fui até lá e perguntei: você tá sozinha? Ela disse: tô. Cadê sua mãe? Sei não senhora. Qual seu nome? Cecília. De onde você é? De Cabo Frio. E que você tá fazendo aqui? Esperando minha mãe, ou meus irmãos. Onde eles foram? Sei não. Eles deixaram você aqui? Aí, ela só fazia que sim com a cabeça. E aí, eu entendi tudo. Você tem o telefone de algum deles, pra gente ligar? Tenho não. A gente se mudou recente, minha mãe não tem celular, e não tem telefone na casa. E você sabe onde é a casa nova? Eu tou sozinha, moça. Acho que tou sozinha. E ela repetia, sabe? Sozinha, sozinha, sozinha. Parecia um disco quebrado. Eu já tinha 38 anos, casada ha 6 anos, sem filhos, e aquela menina sozinha ali? Você tá com fome, Cecília? Ela fazia que sim com a cabeça. Se eu pensasse, sabe? Luciana, né?
- Luana.
- Isso, Luana, desculpe. Se eu pensasse, eu ficaria ali, sozinha com a Cecília. Mas eu não podia deixar aquela criança ali. Levei ela comigo. Meu marido - o Rubens - ficou doido. No início, ele não gostou, mas depois ficou... apaixonado... assim, gostando da menina. Demorou a Cecília chamar a gente de pai e mãe. Ela chamava de moça, de moço, de dona, de senhor. A nossa casa era grande, com piscina. E aí, um dia, ela caiu no quintal, abriu o joelho, uma sanguera danada. Eu na cozinha. Era um domingo de tarde. Aí ela me gritou: "manhê!". Nossa, eu não sabia se chorava de preocupação, com aquele joelho aberto, ou de alegria, de ter, agora, uma filha, me chamando de mãe. Aí foi assim. Criei, eduquei, dei de comer. Fiz tudo por Cecília. Minha filha, né? Ela não tava mais sozinha. Éramos uma família, né? Aí, pouco depois, veio o Caio. Aí engravidei. Hoje Cecília tem 32 e Caio tem 15. Menina, mas que xodó era aquele irmão. Era irmão pra cá, irmão pra lá. Caio era bonzinho, não me dava trabalho nenhum. E quem escolheu o nome dele foi Cecília, em homenagem ao tombo dela. Sempre foram muito amigos aqueles dois. Uma coisa. Aí Caio com 3 anos, Cecília com 20, eu voltei a trabalhar. Consegui um emprego na empresa de uma amiga, e Rubens cuidava dos dois, pra mim. Ele era advogado, tinha um pequeno escritório em casa mesmo. Casa ampla, né? Bom, eu vou resumir, que a gente tá sem tempo, né?
- São nem 14h ainda, Zulmira. Pode contar à vontade.
- Engraçado, a gente nem se conhece, né?
- Verdade. Mas aí, você voltou a trabalhar...
- É. Voltei. Aí, um belo dia, uns 3 anos atrás, eu cheguei em casa mais cedo. Caio na escola (ele estudava à tarde), eu vejo Rubens e Cecília...

Zulmira parece que vai ter um negócio. Prende a lágrima, aquela primeira, com uma força tão grande, que basta que eu pegue na sua mão, sobre a mesa, pra que saiam todas.

- Tavam os dois. Meu marido e milha filha. Eu até achei que tinha entrado na casa errada. Mas aquele rabo de cavalo loiro era minha filha. Ela, eu reconheceria em qualquer canto. 
- Mas seu marido e sua filha...?
- Juntos, menina. Juntos. Ai, não gosto nem de lembrar. No sofá da sala, sabe como? Nossa... Mas aí eles não viram que eu vi. Eu voltei praquele lugar lá, onde peguei Cecília. Lembrei do "sozinha, sozinha", lembra? E fui ficar sozinha. Botei a cabeça no lugar. Aí voltei pra casa. Eu não ia guentar. Não ia. Esperei Caio dormir. Ele sempre foi um menino bom, me ajudou. Dormia cedo, que tava estudando, né? Ai esperei ele dormir e falei tudo: vi vocês dois aqui, no sofá da sala, assim, assim, assim, assim. Vocês não me viram. Eu fui pra praia, que lá é que é lugar de esfriar a cabeça. Eu não posso sair ainda. Não posso ir morar em outro canto ainda, que tem também o Caio, que é menor. Mas você, Cecília? Sou sua mãe. Ele é seu pai. Ele nunca foi meu pai, ela me disse. O rosto deles, assim, sabe? Sem emoção. Aí o Rubens: eu te amo, Zul. Ele me chamava de Zul. E aí, você não acredita: o Rubens propôs, da gente ficar, nós três. Nós três, Luana? Eu e minha filha? Casadas com o mesmo homem? Tem gente que é moderna, né? Eu não sou não. Ai, dia seguinte cedo, Caio acordou cedinho. Ele corria na praia, de manhã, e falei com ele: mamãe tá indo embora. Vou pro Rio de Janeiro, hoje ainda. Ele ficou lá, né? Com a irmã e o pai. Graças a Deus, eles nunca deixaram o menino perceber o negócio deles. Romance? Caso? Casamento? Não sei o que era. Mas, graças a Deus, eles foram discretos. Aí vim embora pro Rio, de manhã cedo. Passei no meu quarto, fiz uma mala. Rubens tava gordinho - agora não sei, né? - e tinha o sono pesado. Cecília no quarto dela. Peguei tudo, minhas roupas, pouca coisa, e vim embora. 
- Difícil, né, Zulmira?

Ela fazia que sim, agora, enxugando as lágrimas. Eu ouvia tudo, atenta, contendo as minhas lágrimas.

O almoço já tinha acabado. Agora, eu tomava um suco. Zulmira não bebia nada, apesar de eu oferecer, sucessivas vezes, água, suco, ou qualquer coisa que ela desejasse.

Zulmira só fazia que não com a cabeça e continuou:

- Aí você veio pro Rio de Janeiro.
- Vim. 18 de agosto de 2011. Aí fiquei na casa da Rute, mãe da Fernanda. Eu ajudava elas em casa. Tipo uma doméstica, secretária. Pra ter onde dormir, né? Aí ajudava. Aí, em fevereiro eu conheci o Ricardo. Ah, ele era primo do amigo do pai da Fernanda. Primo do seu Jorge, amigo do Fernando, pai da Fernanda.
- Entendi.
- Confuso, né? É, então. Aí conheci Ricardo, e começamos a sair, e a namorar. Isso em fevereiro, é. Aí, final de março, ele me chamou pra morar com ele, lá no Recreio. Ele tinha uma empresa, de material de construção, na Tijuca. Aí fui. Apaixonada, né? Carente? Quantos anos você tem, Luana?
- 34.
- 34. Olha, cuidado. Se apaixonada, mas cuidado. Aí, apaixonada por Ricardo, quis ser sócia da loja dele. RC Construções. Ricardo Costa, né? Aí ele preferiu assinar a minha carteira. Ele dizia que era mais seguro, né? Aí foi. Fui, quer dizer, né? Eu tinha um dinheiro guardado. R$ 50 mil. Investi na empresa dele. Tava falindo, né?. Aos poucos, né? Comprava material. Maquinário. Pagava salário atrasado dos funcionários. Recebia R$ 1.500 por mês. Isso, eu recebia. Só que eu botava mais, né? Isso começou em abril. Dia 12 de abril de 2012, acho. Aí, de abril a março, agora, 1 ano, né? Eu investi o dinheiro todo, R$ 50 mil na RC. A gente casados e sócios. Eu de carteira, quer dizer, né? Mas tipo sócia. Aí, agora, sábado passado, dia 6 de abril, né? Ele disse: não quero mais. Tou cansado. Você me cobra muito. Ai, falou um monte. Nossa, eu fiquei sem chão. E o trabalho? Perguntei, né? A RC, e tal? Aí ele perguntou: você acha mesmo, Zul, que vai continuar sendo minha funcionária, sem ser minha mulher? Mas eu era sócia, eu disse. De carteira assinada?, ele. Aí eu entendi tudo. Tive vontade de morrer. Aí ele me deu 3 dias pra sair de lá. Aí eu tou dividindo apartamento com uma prima. Ah, já ia me esquecendo. Perguntei pra ele: e os meus R$ 50 mil? Como que a gente faz? Ai ele disse: ué? Você botou R$ 50 mil porque quis. Agora já foi. Vou até fechar a RC. Viver da minha aposentadoria mesmo. Aí, ele me deu três dias pra sair. Eu fui no mesmo dia. No sábado. Pra casa da Isaura, a prima, na Glória. Um kitnet. Vamos dividir as despesas, né?
- E agora, Zulmira, como vai ser?
- Então. Ela, a Isaura, me indicou a empresa de hoje. Eu liguei na 2a feira pra menina do RH, esqueci o nome dela. Tá no papelzinho aqui. E aí ela pediu pra eu vir a entrevista hoje, 4a feira. 

E aí, Zulmira, que não parava de chorar ao me contar a sua história, desabou:

- E hoje, vindo pra cá, meu dente caiu, olha! Está só no pino! Estou horrivel! Logo no dia da entrevista!
- Tá não, Zulmira. Nem percebi. Tá bonita. Com um vestido bonito, elegante. O cabelo bonito. Faz assim: é só você não sorrir.

E pude me ouvir, depois de mais de 30 minutos dizendo isso: "é só você não sorrir".

- Desculpe, Zulmira. Desculpe.

Ela me olhou, séria, e foi começando a sorrir aos poucos, até explodir numa pequena gargalhada, com a ausência do dente à mostra.

- Pelo menos deu certo, né? Tinha a Isaura, me abrigou. E a vaga, hoje. Se for boa, dá pra alugar um kitnet pra mim mesma, pra sair de lá, que é apertadinho. Ali no prédio da Isaura tem. E eu já fiz as contas. Dá até pra ir ver o Caio uma vez por mês. Ver o garoto, né? Tenho saudades dele. 

Quando vimos, já eram 14h40.

- Tenho que ir, estou atrasada. Obrigada pela conversa!

Eu ia me levantando, pra sair com Zulmira, e poder abraçá-la, quando pude dizer:

- Sorte na entrevista, Zulmira! E pode sorrir! Ou não! Faz o que você achar que deve ser feito! Você é uma mulher forte!

Ela sorriu e saiu andando, sem um abraço. 

Antes de descer a escada rolante, jogou um beijo, de longe. Desses estalados, no ar. 

sábado, 6 de abril de 2013

Miguel e Renata, na Lapa


Eles se conheceram, ali, na nossa frente, num show de uma banda numa praça eclética da Lapa. 

Ele, 30 anos, separado, era um homem bonito, apesar dos dreads. Tinha os olhos expressivos e grandes, uma sobrancelha bem delineada. Bem magro e não muito alto. Um olhar e uma voz o tornavam especialmente sedutor. Tinha recém chegado de Barcelona, e estava a três semanas no Rio de Janeiro, pela primeira vez. Trabalhava como fotógrafo pela Europa, já há alguns anos, mas sempre ganhando pouco para viver a vida que desejaria. 

Juntou 20% do que recebia, todos os meses, e conseguiu acumular o equivalente a R$ 2 mil, para poder colocar uma mochila nas costas e vir para o Rio de Janeiro, conhecer a cidade. Se arranjar algum trabalho por aqui, vai ficando. Nessas três semanas, só tinha rolado um trabalho, onde ele ganhou R$ 150, que deu para passar a semana.

Miguel estava hospedado num sobrado, na Lapa. Tipo aluguel de quarto, mas ele dividia o quarto com duas outras pessoas. Um rapaz, que fazia Produção Cultural na UFRJ (a família mora em São Gonçalo e ele volta aos finais de semana para casa); e uma menina, francesa, de passagem pelo Brasil. Raramente, ele ficava "em casa" (nome que dava à sua cama na hospedaria).

Renata, por sua vez, uma menina, 22 anos, linda. Baixinha, magrinha, cabelos lisos e cheios, olhos castanhos, num óculos quadrado que escondia a sua expressividade. O seu sorriso, meio de lado, infantil, conquistava os homens. 

Mora com os pais. Sua mãe é dona de casa e Renata nem sabe o que ela fazia antes de casar. Acha que a mãe, na verdade, numa trabalhou. Seu pai é um contador falido e, atualmente, um corretor de imóveis quase falido. Ambos, com 45 anos, com a diferença de que seu pai é um boçal e a sua mãe é uma pobre-coitada. 

O casamento dos dois já não ia bem há muitos anos. Desde que seu pai foi demitido do grande escritório de Contabilidade, na Cinelândia, em 2007, resolveu ingressar no mercado imobiliário. Nunca teve muito sucesso na nova profissão, vendendo menos de um imóvel por mês e recebendo, em média, R$ 4.000 de comissão, pra sustentar o pequeno apartamento na Glória. 

A vida de privações financeiras fez seu Jorge começar a beber desenfreadamente. Iniciou com uísque, indo pra cerveja, parando na Caninha 51, "que era mais barata". A bebedeira o tornou um homem envelhecido, agressivo - com Renata e com dona Isaura, a mãe - e deprimido. Quando ele não estava chorando, estava gritando; quando não estava gritando, estava fedendo a álcool. E, quando nenhuma destas coisas, estava batendo na mãe, sempre em locais onde a roupa podia cobrir. 

Renata tinha muita vontade de sair de casa, mas ainda não podia, foi fazia estágio em uma agência de Publicidade, e ganhava apenas R$ 800, o que não dava pra "brincar de casinha" ainda. Estudava Comunicação Social na UFF, e parte do seu salário ia de passagem e alimentação. E as xerox, livros, e mais essas tralhas todas de faculdade. No entanto, Renata sempre guardava R$ 200 por mês pra sua diversão, na Lapa.

O pai ficava louco, pois Renata, apesar dos 22 anos, saía na 6a feira e só voltava sábado na hora do almoço. Nunca aparecia com um namorado, mas, às vezes, chegavam uns "tipos estranhos" na sua casa. Ele achava que a sua menina ainda era virgem. "Eu tenho vinte-e-dois-anos, ô pai? Se liga!".

Renata conheceu Miguel, ali, naquele show da banda argentina, numa praça qualquer na Lapa. A banda tocava uma música dançante e as suas amigas tinham ido comprar uma cachaça, deixando Renata ali, esperando-as. Ela era o tipo de menina-alternativa, e estava dançando, sozinha, olhos fechados, quando Miguel chegou e ficou, dançando, muito próximo a ela, com os olhos bem abertos.

Quando Renata se deu conta de que as amigas estavam demorando, viu Miguel na sua frente, sorrindo. Ele fazia o tipo dela, e percebeu, pelo sorriso de lado, dela, sem mostrar os dentes. Antes que ela pudesse dizer "oi", Miguel já chegou-chegando, tascando um beijo na moça. 

Ela, claro, correspondeu, e passava os dedos pelo cabelo cheio de dread de Miguel. Ele, pouco tocava nela. Um abraço forte, presente, mas sem grandes mãos-braços. Só beijos. Fortes, quentes e excitantes.

Depois do beijo, eles foram conversar, ainda que pouco. "Qual teu nome? De onde você é? Que tá fazendo no Rio? E você? Mora com quem? Que você estuda? Vem sempre aqui?"

Entre as perguntas-retóricas, mais beijos. Saber dela, não era tão importante. Ela gostaria de conversar mais, mas ele beijava tão bem, que dane-se.

As amigas, claro, não voltaram. 
- Você veio com quem? 
- Com a Ju e a Flá, mas elas vazaram. 
- Você quer procurá-las? 
- Não, não. Depois eu ligo. Quero conversar com...

E antes que ela pudesse terminar a pergunta, já vinha-lhe beijo de novo, calando a sua boca, e dizendo a que vinha. 

Renata era, igualmente, uma mulher fogosa e sexual. Quando se deu conta, o papo já era outro. 

- Você tem dinheiro?
- Oi?
- Dinheiro, você tem?
- Você tá me assaltando? - entre risos nervosos.
- Claro que não, minha gatinha. Só me responde. Você tem dinheiro?
Ela abriu a bolsa.
- Tenho. R$ 38.
- Eu tenho R$ 50. Tem um motelzinho gostoso aqui na Lavradio. Acho que é R$ 60. Vamos lá? Eu dou R$ 40, você dá R$ 20. Ficar mais à vontade, e tal. 
E, antes que Renata pudesse dizer sim ou não, ele já tascara-lhe outro beijo, arrastando ela pelos seus braços.
"Que delícia... Mas que bizarro o cara querer dividir o motel? Pelo menos, me sobra R$ 18 pra amanhã".

Pude ver a hora que eles estavam saindo, de mãos dadas, sorridentes, e conversando. O olhar dela era de mais curiosidade; o dele, de apreensão.

Entraram no motel, e pegaram a chave do quarto 207. Era um lugar não muito bonito, mas a cama, pelo menos, parecia limpa. O lençol, um pouco rasgado, mas o ar condicionado estava funcionando bem. 

Logo que chegaram, Miguel tratou de tirar a sua camisa, e beijar Renata, colando seu corpo suado no dela, contra a parede. Resolveram tomar um banho juntos e foram logo para a cama, onde iniciaram o sexo. Ele tinha camisinha e eles transaram em diversas posições. Miguel era um homem experiente e Renata gostava muito de sexo com homens estrangeiros. Essa coisa inter-cultural excitava ela. E fazer sexo ouvindo o homem sussurrar em outro idioma era delicioso.

Ele demorava a gozar, e ela já estava exausta de tanto gozar. Ele sorria, ria, brincava. Era galanteador. "Não posso me apaixonar. Não posso me apaixonar. Não posso me apaixonar", era o mantra interno e mental que Renata se ouvia, enquanto ele passava a mão pelo seu rosto e transava com ela, com sofreguidão, olhando-a fundo, com seus olhos penetrantes. 

1h30 depois de sexo ininterrupto, Miguel gozou de uma forma que Renata nunca tinha visto antes. E o "não posso me apaixonar" e "Que sexo dos deuses" não saíam da sua cabeça.

Ficaram conversando, deitados na cama, olhando pro espelho no teto, e rindo. Renata, que não estava habituada a sexo-tântrico, como é comum com os espanhóis, caiu no sono. Miguel observou-a dormir por cerca de 10 minutos, se vestiu cuidadosamente, sem tirar os olhos dela, e bateu a porta do quarto, com muito cuidado.

Chegando na recepção do motelzinho, já tinha o discurso pronto:

- Oi. Ela tá dormindo. Eu a acordei, pois pego um vôo daqui a pouco. Eu deixei o dinheiro com ela. Você pode acordá-la daqui a 1h30, quando acabar o período? Tchau, boa noite. Meu nome? Juan. Juan Pablo. 

Por volta de 2h da manhã, encontrei Miguel nas ruas da Lapa, com outra menina. 

E a Renata, esta ainda dormia a sono solto, com R$ 38 na bolsa a tira-colo.

(Escrito a quatro mãos. Por Luana Zanelli e André Barbosa)