segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Isabela

Isabela entrou no ônibus junto comigo, na minha frente. Calça jeans, sapatos baixos, blusa larguinha, mochila preta.

O ônibus já estava cheio quando entramos (Jacaré - Ipanema), ali na Presidente Vargas. Isabela ficou de pé, tal como eu, segurando a mochila de lado. 

Por sorte, na frente dela, as duas moças sentadas saltaram, e Isabela logo se posicionou na janela. Ao seu lado, um rapaz por volta dos seus 45 anos. Ela deveria ter uns 32. 

Assim que sentou e recostou, suspirou. Abriu a mochila vagarosamente, e tirou um livro e começou a lê-lo. Não consegui ver o título, nem se era técnico e/ou romance. Ela marcava o livro com uma lapiseira, em alguns momentos.

Eu vim a observando, ao longo do trajeto, sem tirar o olho de Isabela. E ela, não tirava os olhos do livro.

Ela era sozinha. Morava sozinha, no seu apartamento, recém comprado, no Bairro Peixoto, em Copacabana. Não era triste. Mas também não era feliz. Era, como dizia, "normal". 

Sua mãe morrera cedo (quando tinha 20 anos); e seu pai vivia numa cidade do interior, curtindo a aposentadoria, com a esposa. Já eram velhos, e compraram uma casinha em Friburgo, pra descansar. Gostavam mais do frio. 

Eventualmente, Isabela ia visitá-los. Nem sempre. Uma vez por mês. Não sentia saudades deles. Sentia saudade dos seus livros, dos seus personagens, da praia, das nuvens... ah... as nuvens.

Quando o ônibus passou pelo Aterro, o céu estava um pouco roseado, com poucas e esparsas nuvens. 18h30 e bem quente, já sem horário de verão. 

Isabela fechou o livro, e foi sentindo o vento no rosto, no seu cabelo cacheado, e abria os olhos, e contemplava as nuvens, aquelas que parecem algodão, num céu rosa. Quase pude vê-la sorrir, assim, meio melancolicamente.

Onde estaria Isabela? Que pensamentos povoavam-na? Que sentimentos? Qual seria seu cheiro?

As pessoas me acham estranha, mas tenho curiosidade sobre o cheiro das pessoas. Não de perfume-sabonete-shampoo, mas cheiro da pele, cheiro do cabelo, cheiro da roupa. 

Isabela parecia ter cheiro de suor, de cansaço, de silêncio. Ou de nuvem. 

Isabela sequer me viu, olhando para ela. Olhou, com timidez, para a minha bolsa, com bombons marroquinhos. E sorriu. Mas não viu meus olhos de admiração para seus olhos admirados.

Voltou a olhar para fora, e sentir o vento. Era isso: Isabela teria cheiro de nuvens brancas, num céu rosa, de uma segunda-feira qualquer.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Ralph e Lucas


Ralph foi criado por seu pai, um senhor de nacionalidade indefinida, muito machista. Sua mãe morreu no parto, de pré-eclâmpsia. Ele não sabia bem o que era isso, mas sabia que a "sua velha Isa" tinha morrido pouco após dar a luz a ele.

Desde cedo, Ralph gostou de mar, praia, sol e independeu-se muito novo. Aos 12 anos, já matava aula para surfar.


- Que se foda essa porra toda. - dizia isso sempre, mesmo na tenra idade.


Surfava sozinho, pelo menos 3 vezes por semana. A prancha era emprestada dos surfistas que ficavam por ali, em Ipanema, onde morava com o pai. 


Aprendeu a nadar no mar. Conheceu seus amigos no mar. Aprendeu a sentir o sol, o vento, a temperatura, a velocidade no mar. 


Como era esperto e bom aluno, acabava sempre passando de ano, pois estudava na véspera e acabava tirando a nota necessária para passar.


Seu pai, um tanto quanto ausente, não educava nem ensinava sobre a vida para o pequeno Ralph.


Desde novo, sempre fora machista. Tivera poucas amigas e namoradas.


"Amizade entre homem e mulher não existe. Homem é pra comer mulher".

"Amigo de mulher é cabeleireiro. Eu sou surfista macho".
"Mulher é que nem onda grande. A gente tem que meter a cabeça e nem olhar".

Ralph tinha essas pérolas e, os seus amigos, todos mais velhos, riam da inocência e do machismo do pré-adolescente.

Terminou o colégio, fez faculdade de Turismo - também, aos trancos e barrancos -, e a praia era, sempre, a sua melhor amiga.

Já tinha trabalhado em loja - na Sandpiper, na Taco, na Mr. Cat -, e deu pra juntar um dinheiro e, aos 23, comprou a sua própria prancha, que chamava, carinhosamente, de "minha velha Isa", em homenagem à sua mãe.

Os amigos não sabiam do apelido da prancha, pois isso era coisa de "baitola".

Até que, um dia, Ralph conheceu Carolina. Não Carol. Ela gostava de ser chamada pelo "nome completo", como ela dizia, com todas as letras: CAROLINA.

Ela passou a ir à praia ali, naquele local, e observava os surfistas, sentada, sozinha, com um sorriso contemplativo. 

Ficaram amigos. Ralph mostrava, para ela, a ondulação, a curvatura e como a onda fechava. Mostrava de onde vinha o vento, e como, e de que forma, a maré subia. E Carolina gostava de ver Ralph surfando. Parecia, até, um balé. 

Um dia, ela disse isso a ele, que fez uma cara torta engraçada: "isso é coisa de baitola".

- Baitola? O que é isso?
- Baitola, oras. Baitola é baitola.
- Bicha?
- É, viadinho. Baitola é mais do que bicha. É viadinho.
- Você é ridículo, Ralph. Ridículo, preconceituoso, infantil, babaca. 

Carolina e Ralph ficaram amigos. Um belo dia, final de tarde, transaram, ali na areia mesmo. E aí, claro, sem camisinha. Aquelas rapidinhas, próximo a Pedra do Arpoador, com medo de algum policial ver. 

Depois desse dia, Carolina sumiu da praia. Ralph perguntou pros amigos, procurou-a por ali, e nada de Carolina. Quase um mês depois ela apareceu. Ele, vindo do mar, a viu sentada, no mesmo lugar. Vestidinho verão, mas sem bikini.

- Oi gata. Tava sumida, andei te procurando - e estalou um beijo na bochecha dela.
- Oi.
- Como você tá? Tá triste?
- Não sei.
- Tá de bikini? Vamos no bar?
- Não, não. Vim só te ver. 
- Vou pegar mais uma onda e a gente vai ali no Nogueira comer?
- Não, não. Fica aqui. Preciso te falar.
- Fala, princesa.
- Tou grávida.
- Porra, Carolina? Grávida? Tu não toma pílula, merda? Tenho 26 anos, porra. Um empreguinho de merda. Moro com meu pai. Tu com tua mãe. E agora?
- Eu sabia... tu é um babaca. Gato, transa bem, mas um babaca.
- Não, peraí. Onde você vai?
- Embora, tchau.

Ralph não sabia onde Carolina morava, mas o Rezende, guarda-vidas que estava sempre por ali, sim.

- Tu é um babaca, Ralph.
- Porra, mina grávida de mim, Rezende?
- E tu já tem 26 anos, né, pré? Vai assumir o filho não? Deixar a menina da sua vida ir embora?

(A galera chamava ele de "pré", de "pré-adolescente").

- Que mané menina da minha vida...
- Ah, pré... Você é que pensa. Todo mundo já viu, já sacou. O jeito que vocês se olham. O jeito que você beija ela na bochecha. Assume logo isso, cara. Aproveita esse filho e cresce, mané. Tu ainda é pré? Com 26 anos, porra? Um filho, caralho. Um filho. Filho muda tudo, Ralph.

Ralph, ainda pré, foi pra casa e não conseguiu dormir. 23h ligou pra Rezende.

- Rezende, é o pré. Tá podendo falar, cara? Te acordei? Tu sabe onde Carolina mora? É, pois é. Estranhão, né? Não, quero o telefone não. Quero ir direto lá. Ah, sei sim. Aqui perto, né? Tá legal. Vou lá amanhã. Hoje? Você acha? Mas tá tarde, cara. Sei lá, vou pensar. Tá bom. Valeu, meu irmão. Um abraço. 

Ralph tomou banho, vestiu a primeira roupa que viu, deu um beijo na "sua velha Isa", pediu sorte, e foi na casa de Carolina.

Tocou o interfone e a dona Aparecida, mãe dela, atendeu:

- Oi, a Carolina está? É o pr... é o Ralph, da praia. A senhora pede pra ela descer? É, é rapidinho.

Ralph nunca estivera tão nervoso antes. Não sabia o que dizer, como dizer, nem como olhar pra Carolina.

Ela desceu. Não tinha cara de choro, nem de emburrada. Ele, do outro lado da calçada, olhou pra ela com cuidado: a barriga ainda não aparecia. 

Ela atravessou a rua, ao encontro dele, encostado num carro. Ralph chegou junto, a abraçou com força, fungou o seu cabelo loiro, comprido, desgrenhado.

- Eu já tava dormindo, Ralph, que você quer?
- Eu vou ser um pai maneiro.
- Quê? - Carolina não sabia se tinha ouvido mal, ou se ainda estava dormindo.
- Eu vou ser um pai maneiro. Eu QUERO ser um pai maneiro. É isso. 
- Tá, mas como?
- Não sei ainda como, Carolina. Mas esse moleque é meu filho, e eu vou ser um pai maneiro, não como o merda do meu pai. Eu quero ser um pai maneiro pra ele. 

Carolina abraçou Ralph com força, sem saber muito o que dizer, o que sentir, e, na ausência e na confusão interna, Ralph veio com a pérola:

- Cabou a hora de ser pré, gata. Eu te amo, Carolina. E eu quero esse filho pra mim. Quer dizer, pra gente. Tou nervosão, porra.

Os dois explodiram numa gargalhada, e foram comemorar com o açaí do Nogueira, ali perto. 

Ficaram, ainda, uma época, morando na casa da dona Aparecida, até conseguirem alugar seu quarto-e-sala no Leme, onde podiam pagar.

Hoje, encontrei Ralph e Carolina na praia do Leme. Lucas, já com 5 anos. 

Ralph indo ao mar, a cada 3 minutos, com um saco (desses de gelo) pegar água para a piscina do pequeno. Fez essa viagem 6 vezes (eu contei).

Dona Aparecida ("minha melhor amiga", dizia Ralph) e Carolina, grávida da Maria, a segunda filha do casal, sentadas, na sombra da barraca.

Lucas já entretido com os brinquedos da água da piscina. 

Cada vez que Ralph chegava com mais um saco de água, pegava um pequeno balde, e molhava a barriga de Carolina, com um sorriso babaca.

- Sim, ele ainda é um babaca - dizia Carolina -; só que, agora, pelos filhos.


Ralph ainda gostava de surfar. Mas, agora, seu amor era sentar na areia, com o filho, e fazer castelos para ele. Fez 5 castelos, de formatos diferentes, com uma técnica que ele aprendeu intuitivamente: colocava areia no balde, misturava com um pouco de água "pra fazer a liga", batia bem com a mão, emborcava na areia e... voilá! Lá estava o castelo, vários castelos.

Lucas destruía todos. Não era uma criança agressiva, nem arteira. Destruía, mesmo, sem querer. Queria ajeitar o frágil castelo do pai e, com a mão de menino, acabava errando na dose, e o castelo desmoronava.

O pai fazia outro, e outro, e outro. 

Colocava fósforo em cima. Cantava parabéns. A família toda fazia coro, cantando junto. 

E eu, ali, tão perto (com as duas amigas na praia), e tão distante da família. Logo eu, que amo tanto as crianças, tive vontade, hoje, de abraçar e dar um beijo estalado na bochecha do pré.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Alessandra e Francisca

Estava eu, no metrô, indo pra algum lugar que não lembro mais.
Vi Alessandra, 17 anos; e Francisca, 40, sua mãe.
Moravam na Pavuna, e estavam na linha 2, de tarde, voltando pra casa, em pleno sábado.
Francisca é empregada doméstica. Trabalha na casa da dona Marisa, em Ipanema, há mais de 10 anos.
Alessandra termina o ensino médio e quer trabalhar como recepcionista, mas nunca trabalhou ainda. "Preciso apenas de uma oportunidade pra mostrar o meu potencial". E tinha. Era uma boa menina, apesar de namoradeira, segundo a mãe.

Ambas eram negras, magras. Alessandra, mais alta que a mãe. Francisca, no entanto, era mais forte que a filha. O mesmo olhar de jabuticaba aparecia nas duas. 

O olhar das duas, triste, silencioso. Não se olhavam. Sequer conversavam. Havia, no entanto, cumplicidade. Uma silenciosa cumplicidade e amor. Muito amor.

Alessandra conhecera João na festa da comunidade, e namoraram escondidos. Ele é mais velho. Ela, com 17, hoje, ele tem... 23. Gostavam de conversar, de passear, de fazer cócegas um no outro, de dançar no baile... O beijo dele era bom, quente, forte.

Francisca não sabia. Apesar de mãe forte, era ingênua.

Alessandra era virgem. João, não mais. A mãe dele foi trabalhar no fim de semana (era técnica de enfermagem), e eles foram pra casa de João ver um filme. Só tinham 2 meses de relacionamento, é cedo pra alguma coisa, pensava Alessandra, mas João era boa gente. 

O carinho foi aumentando, o calor também, tudo tava bom, ele foi carinhoso, mas firme, e acabou rolando. Não doeu, nada. Alessandra não tinha medo. Ele foi cuidadoso.

- O que é isso quente saindo de mim?
- Meu gozo, princesa.
- João, e a camisinha?
- Tem medo não, linda. 
- Eu tenho, João.
- Tem não... olha, já a mãe tá chegando, vou te deixar em casa.
- Precisa não, eu vou só.
- Tem certeza?
- Tenho.

Alessandra foi ao banheiro se lavar e, de lá mesmo, foi pra casa. Quando João viu, já não tinha mais Alessandra.
Chegou em casa, a mãe estava esperando por ela, pra jantar.

- Onde tava, filha?
- Na Lurdinha.
- Ela tá bem?
- Tá sim.
- Você tá triste, filha?
- Não, mãe, tou não. Vamos jantar?

E jantaram, em silêncio.
A menstruação atrasou, Alessandra contou pra João, que comprou um exame, desses de farmácia, e deu pra ela, correndo, pois precisava ir pro trabalho. 
- A gente se fala, princesa. Me liga, se precisar.

Alessandra ficou sozinha em casa, e fez o exame de gravidez. 
40 dias de menstruação atrasada e... POSITIVO.
17 anos, grávida. Sem emprego. Grávida do João.

Alessandra passou o dia, silenciosa, em casa, sozinha, andando de um lado pro outro. Escreveu umas 4 cartas, e rasgou tudo. 

Era uma 6a feira. De tardinha, Alessandra ligou.

- João, sou eu... Você pode falar?
- Vai ser rápido? Tou no trabalho.
- Então... eu fiz o exame...
- Hummm.
- E deu positivo.
- Positivo o que?
- O exame. Tou grávida, João.
- Alessandra, vou tentar arrumar dinheiro. A gente não pode ter esse filho.
- Tá bom.
- Sua mãe já sabe? 
- Não chegou ainda.
- Você vai falar com ela?
- Não sei ainda.
- Amanhã eu vou trabalhar. Me encontra no Centro às 15h? 
- Não posso te ver hoje?
- Hoje eu vou sair com os colegas aqui do trabalho.
- Tá, amanhã 15h onde?
- Na Carioca. Eu te ligo antes.
- Você vai conseguir o dinheiro?
- Vou. Vou pedir aqui. 1.000 dá?

Alessandra tinha vontade de chorar.

- Não sei, João. 
- Me dá até amanhã, a gente conversa amanhã. Não fala pra tua mãe. A gente fez a merda, a gente resolve a merda.
- Tá, tchau.

Francisca chegou e Alessandra estava deitada, acordada, olhando pro teto.

- Alessandra, tá tudo bem, filha? Ta doente?
- Não, mãe.
- Que você tem?
Alessandra não respondeu.
- Alessandra, não preocupa sua mãe. Que você tem?
- Mãe, eu conheci um menino.
- Alessandra, você tem 17 anos, tem que acabar os estudo.
- O nome dele é João.
- O que tem esse tal de João?
- Eu tou grávida do João. 

Francisca sentou na cama, ao lado da filha, e olhou-a silenciosa. O olhar indecifrável da mãe. 

- Ele já sabe que você tá grávida dele?
- Sabe. Vou encontrar com ele amanhã, no trabalho dele. Ele vai conseguir dinheiro.
- Dinheiro pra que, mulher de Deus?
- Pra, pra... A senhora sabe pra quê, mãe.
- Não, não sei. Pra que precisa de dinheiro se a criança não nasceu, Alessandra?
- Dinheiro pra não nascer, mãe.

A mãe pôs a mão no coração e saiu de perto da filha. Nesse dia, elas não jantaram, não se encontraram mais pela casa. Não se falaram. Nada. 

12h almoçaram juntas e Alessandra foi se arrumar.
- Que horas você vai encontrar com ele?
- 15h, na Carioca.
- Vou com você.
- Vai não, mãe... É pior. 
- Você é minha filha, é de menor, e eu vou com você onde eu quiser. - Francisca era forte. Decidida. 

Alessandra pensou em mandar um SMS pra João avisando, mas seria pior. Ele podia não aparecer.
O frio na barriga aumentava.

Na hora marcada, estava Alessandra e Francisca, na porta do Bob's, na Carioca. João chegou 15h20, suado, correndo.

- Oi.
- Você é o João?
- Sou sim senhora. - Ele estendia a mão, pra apertar a mão da possível-futura-sogra.
- Eu sou Francisca, mãe da Alessandra. - e apontou para a filha, com a cabeça, sem retribuir o quase aperto de mão do rapaz.
- Prazer dona.
- Você conseguiu o dinheiro, menino?
- Consegui sim. R$ 1200. Meu chefe me deu adiantado. Vai descontar do meu salário, R$ 300 por mês.

Alessandra permanecia em silêncio. Olhava para um e para outro, enquanto conversavam, em pé, no meio das pessoas, do Largo da Carioca.

- Guarde seu dinheiro, meu filho. Use pro que você quiser. Mas filho de Alessandra é meu neto. E eu vou criar essa criança. Eu e Alessandra. Não precisamos do seu dinheiro. Vocês foram irresponsáveis. Muito irresponsáveis. Minha filha é uma menina ajuizada, do bem. O filho dela também vai ser. A gente vai criar ele. Se você quiser, você vai ser o pai. Se não, ele não vai ter pai. Alessandra também não teve pai, e tá aí, digna. Você não precisa casar com Alessandra se vocês não quiserem, mas meu neto você não tira não.

Alessandra chorava, em silêncio. 
Agora, Francisca apertou a mão do rapaz.
- Felicidades pra você, rapaz. 

Alessandra saiu, com Francisca, sem dar uma palavra. 
Nem ela sabia se queria aquele homem pra ela.
A força da sua mãe, no entanto, te deu força para reconhecer-se, também, como mãe.

E estavam, as duas, sentadas no metrô, em direção a Pavuna.

O olhar era de amor. Apenas amor.

Janete

O ônibus era o 455. Copacabana - Central.
Sento lá atrás, sempre. 
Só tinha lugar para sentar no corredor, do lado esquerdo.
Do lado direito, vi Janete. Uma negra linda. Por volta dos 35 anos. Negra, bem gorda, cabelo solto, curto, alisado. Tinha duas bolsas. Uma, parecia uma pequena mala de viagem, e uma bolsa de mão, mas destas grandes, avantajadas. Estava, também, sentada no corredor (do lado direito), bem ao meu lado (do outro lado do corredor).
Em geral, viajo silenciosa, lendo um livro (no momento, é "A grande arte"), ou fotografando as pessoas.
Janete pediu para ser fotografada. Fechei o livro e...

- Pois é, menina! Mas eu não te contei? Foi um escândalo... É, se lembra? Então, ela fez uma cara... É uma sonsa. Sonsa. É. Muito sonsa. Ela sabe que eu sei. Mas ela não diz nada. Faz aquela cara de santa. Naquele dia lá, lembra? Pois é. E aí, desde sempre é assim. Ninguém percebe. Mas eu sei. Ela não é boba. Ela se faz de boba. Mas a mim, é a gente. Não, não engana. É, menina. Foi? Me conta. Jura? Tá vendo? Olha... eu vou te contar... Eu, se fosse má mesmo, eu falava pra ela. Mas ia ser um chororô danado. E não dá. É. Ai, sabe? Não tenho paciência. Porque você sabe, nós somos pessoas boas, do bem mesmo. Ela, não. Pois é. A gente é justa, leal, amorosa...
- Ô mãe... olha só... que legal aquilo ali...

Quando vejo, atrás do (grande) corpo, de Janete, tem um menino. Chama-se Jackson, e tem 5 anos. 
É negro, como a mãe, uma pele que parece uma seda. Cabelo curto, com desenhos que não consegui definir.
Estava sentado, no canto da janela, vendo o mundo passar do lado de fora da janela do ônibus.
Só queria uma mãe, que também conversasse com ele.

- Ai, garoto. Que que é? Fica quieto aí, que eu tou falando com a sua tia, não tá vendo? Ai, Jussara, esse moleque não percebe que tou no telefone com você? Mas enfim, menina. É, pois é. Puxou o pai dele. Isso. Então... daqui há pouco eu vou encontrar com ela, lá na Central. É. Por isso te liguei agora, cedinho. É. Isso. Mais tarde te ligo, e te conto. Menina, graças a Jesus a gente é do bem, né? Porque olha... Tá, tá bom. Um beijo. Ó, sua tia tá te mandando um beijo...
- Deixa eu falar com ela? Tia...?
- Não sabe que telefone é caro, menino? Amanhã a gente vai encontrar ela e você dá o seu beijo. Não tou te dizendo, Jussara?

Eu precisei saltar do ônibus. Mas tive vontade de abraçar Jackson e ver o mundo dele, pela sua mesma janela.