sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Sexta-feira - véspera do Carnaval

O dia começou cedo, com bastante trabalho. Foi de 8h às 16h, direto. Neste intervalo, atendendo em consultório e convocando candidatos para entrevista (além de outras atividades muito prazerosas). No contato com candidatos, ouvi diversas vezes "Feliz Carnaval para a senhora".

Eles mal sabem, mas eu sou muito grata pelas gentilezas que recebo.

Finalizando o dia de trabalho, como há tempos não fazia, resolvi dar uma pequena corrida, no meu canto. Coloquei qualquer roupa e o tênis habitual de sempre. Descendo do elevador e procurando o porteiro para deixar minhas chaves na portaria, ouço, atrás de mim:

- Vai caminhar, lindona?

Olho pra trás, e lá está ele, com roupinha toda esporte também, banho tomado e cheiroso.

- Vamos? Bora?

Dei um abraço, apertado...

- Nada. Hoje é dia de ficar em casa. Boa corrida. Você está linda! Corpaço!

- E você é lindo!

[Um doce pra quem adivinhar. Começa com Jean e termina com Wyllys. Sim, ele mora no meu prédio...]

Saí em direção ao meu canto. Já na praia, o clima era gostoso:

  • A maior concentração de turistas por metro quadrado;
  • Crianças fantasiadas de bailarinas, bahianas, super-heróis, etc.;
  • Cães com colar havaiana (coitados), independente se era cão pequeno, grande, etc.
  • Homens e mulheres fantasiado(a)s. Não quero parecer sexista, mas as fantasias deles eram as mais engraçadas possíveis. E, claro, todos em bando!
Sobre os homens fantasiados...
  • Tinham os Flinstones, de todos os personagens possíveis.
  • Tinham os super-heróis.
  • Mas, os que pararam a praia era o grupo de quatro: uma moça (de Papa) e três rapazes, de freiras. TOTALMENTE a caráter. Pior: estavam CORRENDO. Não em direção a bloco, ou se exibindo. Apenas se exercitando, tal como eu. Só que fantasiados.
Eu, que não tenho o padrão-beleza-carioca e não me importo de ser-parecer maluca, corro, ando, páro, fotografo, rio, observo gente, etc. E, hoje eu dei sorte: na radinho, do celular, só tocava música boa. E, não é porque eu estou no fone de ouvido que eu não posso cantar. E eu canto. Tipo você, no chuveiro, quando está sozinho em casa? Sou eu, cantando, enquanto corro-caminho-corro na orla. Alguns me olhavam tipo "quem é aquela maluca".

Eles não sabem, mas eles são os intrusos, porque este canto, é meu. E, como "praia", pra mim, é sinônimo de "casa", é este o lugar que me sinto mais à vontade.

E que bom voltar a correr e ver tanta gente (falsa ou verdadeiramente) feliz, pelo caminho.



Em observação, no Clube do Conhecimento - 4

Hoje é sexta-feira. São 10h17. 

Estou no Clube do Conhecimento, sentada na última mesa (mais encostada na parede), mais próxima da janela.

Ao meu lado esquerdo, a Angela está sentada. Ela é branca, alta, magra, e tem cabelo curto, branco. Veste calça comprida preta, sapato vermelho, blusa vermelha. Está olhando para a sua esquerda, com os braços cruzados.

Na minha frente, uma moça branca, baixa, magra, cabelo comprido, castanho, liso. Veste calça preta, blusa rosa. Olha algo para baixo. Olha para o palestrante. Coloca os cotovelos sobre a mesa, apóia a cabeça na mão. Olha para o palestrante. Coça a cabeça.

Angela coça a nuca. Volta a cruzar os braços sobre a mesa.

A menina da frente olha algo abaixo, na sua frente.

Angela coça o rosto. Olha algo na mesa. Olha para o palestrante.

A menina da frente ajeita o cabelo, e apóia a cabeça na mão.

Angela apóia a cabeça na mão. Coça o braço. Apóia a cabeça na mão.

- Muito preconceito...

A menina da frente olha para algo, abaixo.

Angela cruza os braços. Descruza os braços. Mexe no seu óculos, sobre a mesa.

A menina da frente tem os braços apoiados sobre a mesa e olha para o palestrante. Olha para algo, abaixo. 

Angela cruza os braços. Descruza. Tem as mãos sobre seu colo.

A menina da frente olha para o palestrante.

Angela mexe no cabelo.

Angela tem o cotovelo apoiado sobre a mesa, e a cabeça apoiada na mesa. Coça o braço. Coloca o braço sobre a mesa e mexe nos seus óculos.

A menina da frente mexe na caneta, sobre a mesa. Olha para baixo.

Angela coça o rosto.

A menina da frente coça o nariz e o pescoço. Olha para seus dedos. Se coça de novo. Olha para baixo. Mexe nas suas mãos. 

Angela tem os braços cruzados sobre a mesa. Pega o copo d'água, bebe água, e cruza os braços novamente. 

A menina da frente olha para baixo, mexe no cabelo, apóia a cabeça na mão (cotovelo apoiado na mesa) e olha para o Rodrigo, que está falando no momento. Faz que sim com a cabeça. 

Angela coça o nariz. Volta a cruzar os braços sobre a mesa. Mexe no seu óculos, sobre a mesa.

A menina da frente mexe com as mãos.

Angela coça o rosto.

A menina da frente apóia a cabeça na mão. Mexe com as mãos.

Angela cruza os braços sobre a mesa.

A menina da frente olha para baixo, apóia os cotovelos sobre a mesa, olha para as suas mãos. Olha para baixo novamente.

Angela descruza os braços e mexe nos seus óculos, sobre a mesa.  Cruza os braços novamente.

A menina da frente tem os braços sobre a mesa e olha para o palestrante. Coça a cabeça, olha para baixo. Olha para o palestrante, olha para as suas mãos, olha para a frente.

Angela descruza os braços, pega o copo d'água, bebe, coça o braço. 

A menina da frente olha para o palestrante.

Angela coça a cabeça.

A menina da frente coça a cabeça.

Angela cruza os dedos das mãos, com os cotovelos apoiados sobre a mesa.

A menina da frente olha para o palestrante e coça a cabeça. Mexe com as mãos. Estala os dedos. Olha para baixo. Olha para o palestrante. 

Angela coloca os óculos, cruza os dedos das mãos e olha para o filme.

A menina da frente tem os braços cruzados sobre o corpo, e olha para o filme. Coça o rosto. Tem os braços sobre a mesa.

Angela está encostada na cadeira, com os braços sobre o colo.

A menina da frente mexe no anel de um dos seus dedos.

Angela cruza os braços sobre o peito. Continua vendo o filme.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Em observação, no consultório (Copacabana) - 11

Hoje é quinta-feira. São 11h28.

Estou no consultório de Copacabana, aguardando a paciente de 11h que ainda não chegou.

Por aqui, portas e janelas fechadas. O ar condicionado desligado. Tudo iluminado e silencioso.

11h33. Tocou a campainha. Paciente chegou.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Em observação, no consultório (Copacabana) - 10

Hoje é quarta-feira. São 19h58.

Estou no consultório de Copacabana, sentada, na sala de atendimento.

Por aqui, luzes acesas, portas e janelas fechadas, e ar condicionado ligado.

Tudo silencioso, apenas com o barulho do ar ligado.

O celular vibra. Notificação na agenda de 1h antes da paciente chegar.

Volto ao silêncio, apenas com o barulho do ar condicionado ligado.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Espectadora

Eu sou eu.
O outro é o outro.
Qualquer outro.
Você, ele ou qualquer um.

E eu acho (só acho) que cada um é a sua melhor companhia.
Estamos com o outro
De vez em quando
De vez em sempre

Conosco, cada minuto (minuto?) dos nossos 
Mais curtos
E longos
Dias

Eu assisto o outro.
Os outros.
Você ou qualquer um.

Sou uma espectadora / expectadora.
De mim mesma.
Do outro.

Do amor. Do cuidado.
Da proteção. Desproteção.
Do afeto. Do desafeto.
Do cuidado. Descuido.

Eu sou Luana.
Você é Augusto. André. Pedro. Ernesto. 
Com nome próprio.
Nome composto.
Sobrenome.
Ou sem nome nenhum.

Você pode ter o nome que quiser.
Ou nome nenhum.
O inominável.

Nem todo mundo precisa de diagnóstico.
De DSM. De CID. De patologia.

Mas todo mundo.
Todo mundo.
Eu, você, ele, qualquer um.
Precisa, de verdade
Verdadeiramente

Apenas de si mesmo.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Djalma

Era um dia de semana. Hora do almoço.Talvez um pouco depois, umas 14h / 15h. Eles não me viram, mas eu os fotografei, com precisão.

Um casal caminhava, lado-a-lado, de mãos dadas, conversando. Heviane e Djalma. Cerca de trinta-e-cinco anos. Conversavam, normalmente. 

Na mesma calçada, em sentido oposto, vinha ele sozinho: Rafael. Cerca de 19, 20 anos.

O olhar de Rafael cruzou com o de Djalma, por mais de seis segundos. Era este o tempo máximo de tolerância do moço.

- Tá olhando o que, mermão?
- Oi?
- Que que tu tá olhando aqui?
- Tava olhando pra tua mulher não, cara...
- Tou falando da minha mulher não, rapá. É pra mim mesmo! Que que tu tá me olhando?
- Sei lá, só olhei.
- Eu sou quadro?
- Oi?
- Exposição?
- Que?
- Obra de arte?
- Amorzinho? Djalma? Deixa o moço. Vambora...
- Peraê, Viane. Quero saber aqui dele. Falaê, irmão. Desembucha.
- Sei não, seu Djalma.
- "Seu Djalma". Ficou íntimo agora o cara...
- Moço, o senhor me desculpe, viu? Eu só olhei, assim, rapidamente.
- Sete segundos não é rapidamente. Sete segundos a gente olha quadro na parede, exposição, obra de arte, essas porras. Mas tu me olhou rapidamente? Fala pra mim? Sete segundos é rapidamente?
- Sei não, seu Djal... seu senhor...
- Faz seguinte, cara. Vou te dar uma treta. Quando a gente olha pro outro, pra qualquer um, até pra mulherzinha na rua - se estiver sozinha, porque se olhar pra minha... - é três segundos, ouviu? Três segundos.
- Ouvi sim senhor. Três segundos.
- Isso. Conta um... dois... três... e desvia o olhar. Tá me entendendo?
- Tou. Tou entendendo o senhor. 
- Valeu então. Segue teu rumo aí. 
- Boa tarde pro senhor também.
- Tá me chamando de mal educado, mermão? Que caralho de "boa tarde pro senhor também" é essa agora? Eu te desejei boa tarde? Moleque abusado, cara... Vambora, Viane. Ficar dando papo pra moleque abusado no meio da rua assim não...

Eu vi Rafael cruzando a esquina. Uma moça bonita passou por ele. Ela olhou e sustentou o olhar, com um meio sorriso.

Pude ler seus lábios murmurantes: "um... dois... três..."

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Em observação, no consultório (Centro) - 11

Hoje é quinta-feira. São 15h20.

Estou no consultório do Centro, sentada, na poltrona da sala de atendimento, esperando a paciente de 15h30.

Por aqui, portas e janelas fechadas. Tudo aceso. Apenas com o barulho do ar condicionado ligado.

O celular bipa. E-mail que chegou.

O celular toca.

- Luana, boa tarde. Oi João Paulo, tudo, e você? Você é pra vaga de Vendedor, né? Dia 22, às 14h. Você pode anotar o endereço? Ih, João, eu tou fora do meu sistema agora. Você não tem como anotar? Rua Uruguaiana, ___. Isso, ___. Sala ___. Isso, dia 22, quarta-feira, às 14h. Tá ótimo, obrigada! Não esquece o seu curriculo! Tchau!

Volto a ficar em silêncio, apenas com o barulho do ar condicionado ligado.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Sobre corpos

Queria dizer uma coisa, para vocês.
Homens e mulheres.
Hetero, homo, bi. Ou nenhuma destas opções.

O corpo (o seu, o meu, o de qualquer um) é o que temos de mais sagrado
Não converse com ninguém
Tocando no corpo do outro

O outro precisa te dizer
No olhar
Na voz
No sorriso: "me toque"

E não estou falando de sexo.
Estou falando de dedos - ou mão
Em qualquer parte do corpo do outro.

Se você é hetero ou homossexual
E deseja um outro, uma outra
Que você desconheça
E você canta essa pessoa na rua
Ainda que seja a cantada mais bela
Mais singela
Mais fofa

Uma cantada é sempre uma cantada.
No meu caso, cantadas são sempre
MAL CANTADAS
MAL CONTADAS.

Se você, ao cantar alguém
Percebe a ausência de olhar
A ausência de sorriso
A ausência de qualquer-coisa para você

Deixe ir.
Simplesmente deixe ir.

Não toque o corpo de outrem
De alguém
De ninguém.

O único corpo que pode ser sempre tocado
É o seu próprio corpo
E ainda assim, você deve permiti-lo
Só você


[Recado para um rapaz, que me cantou, na Rua Ministro Viveiros de Castro, às 17h de uma segunda-feira nublada e que, apesar do meu silêncio e do meu não-olhar, tocou o meu corpo, sem que eu permitisse]

Em observação, na Alliage

Hoje é terça-feira. São 10h24.

Estou na Alliage Consultoria de Rh, em uma recepção, aguardando ser atendida.

Ao meu lado direito, uma porta que dá acesso às salas. Na minha frente, parte da recepção, onde as pessoas passam. Ao meu lado esquerdo, a candidata Natália. Ela é branca, alta, magra, e cabelo escuro, liso, comprido. Veste uma calça social preta, blusa social azul, sapato preto. Tem as pernas cruzadas, e a mão direita entre as pernas. A mão esquerda apoiada no braço do sofá.

Lídia passa pela minha frente. Ela é alta, branca, magra, loira, cabelo curto e liso. Usa óculos. Veste um vestido preto e sapato alto, vermelho.

Uma senhora passa ao meu lado.

- Bom dia.

- Bom dia.

Uma senhora passa na minha frente.

- Natália.

- Oi.

- Eu sou a Rosana, vamos lá.

Natália levanta e ela e Rosana entram na porta a minha esquerda.

Agora, ninguém ao meu lado direito, ao meu lado esquerdo e nem na minha frente.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Filho da Iara

[Diálogos reais, no domingo, no conforto do meu lar]

O celular toca. Um número fixo, desconhecido.

- Alô?
- Iara?
- Quer falar com quem?
- Com a minha mãe.
- Qual o nome da sua mãe?
- Qual o seu nome?
- Perguntei primeiro...
- Minha mãe se chama Iara. E a sua?
- A minha já morreu.
- Pô, desculpe, dona. Lamento. Liguei engano. A senhora se chama Iara?
- Não.
- Desculpaê.
- Tá tudo bem.
- Tá. Boa noite.
- Boa. 

[A pessoa do outro lado era um menino de, no máximo, doze anos].

Dúvida 1. Ele não reconhece a voz da mãe?
Dúvida 2. Por que ele perguntou o nome da minha mãe?

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Em observação, no escritório do pai - 14

Hoje é quinta-feira. São 13h12.

Estou no escritório do pai, na sala de reuniões, sentada à mesa, de frente para a mesa de reunião.

Por aqui, portas e janelas fechadas. Luz acesa. Ar condicionado ligado.

Na mesa de reuniões, Isabelle faz a redação. Ela é branca, magra, alta. É loira, tem o cabelo curto, liso, preso num rabo de cavalo. Veste calça jeans, blusa social preta. A bolsa bege, no seu colo. Uma mão pousada sobre a mesa e, a outra, escrevendo a redação. Tem uma ótima aparência e postura. Tem um piercing no nariz e uma tatuagem no colo que, com o decote da blusa, dá para visualizar parte dela.

- Terminei.

- Terminou? Vou te levar lá fora.

Estou de volta, aqui. No mesmo local. Agora, sozinha.

Tudo silencioso, apenas com o barulho do ar condicionado ligado.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Em observação, na Loreal - 3

Hoje é terça-feira. São 15h35.

Estou na Loreal, na recepção, aguardando ser atendida.

Estou sentada em um sofá, na beirada. Do meu lado direito, o braço do sofá e mais no extremo, a porta de entrada da Loreal, de vidro. Na minha frente, um (teoricamente) corredor, onde as pessoas passam. Do meu lado esquerdo, uma moça está sentada. É mulata, gordinha, cabelo encaracolado, comprido, molhado. Usa óculos. Veste um vestido cinza. Curto, e uma sandália bege. Tem um relógio verde fluorescente e tem papéis na mão.

Uma moça passa na minha frente. É mulata, alta, gordinha, cabelo comprido, castanho, preso num rabo de cavalo. Veste um vestido estampado, curto, e uma sandália bege.

A moça ao meu lado, agora, recostou-se no sofá. Pernas e braços cruzados.

A moça mulata, alta passou novamente na minha frente.

- A bolsa.

A moça ao meu lado descruzou os braços e mexe nas unhas.

- A porta do desespero.

A moça ao meu lado cruzou os braços.

Uma senhora sai da porta de vidro e passa na minha frente.

A moça ao meu lado estala os dedos. Ela abraça uma outra menina.

- Suelen. Suelen.

A moça ao meu lado levanta e entra na porta de vidro da Loreal.

Ninguém ao meu lado esquerdo, agora.

Uma senhora passa na minha frente e entra na porta de vidro, da Loreal.

Uma moça senta ao meu lado esquerdo, agora. É mulata, gordinha, alta. Tem cabelo encaracolado, comprido, preto. Usa óculos. Veste calça jeans preta, blusa estampada. Está sentada na beirada do sofá.

Um senhor passa na minha frente e entra na porta de vidro.

A moça ao meu lado coça o joelho e a perna. Coça o rosto e ajeita o óculos.

Uma senhora passa na minha frente. É mulata, baixa, magra, cabelo curto, preto. E passa novamente na minha frente em direção a porta de vidro.

Uma senhora sai da porta de vidro e passa na minha frente. É mulata, alta, gordinha e usa óculos. Tem o cabelo liso, preso num coque, atrás. Veste calça jeans e blusa vermelha.

A moça ao meu lado olha para os lados.

Uma senhora sai da porta de vidro e passa na minha frente. Outra senhora também. A primeira é baixa, gordinha, mulata. Tem o cabelo castanho, liso, preso num coque, atrás.

A moça ao meu lado abre a bolsa e atende o celular.

- Oi. Oi filho. Oi, amor. Agora. Tou indo agora. Estou indo agora. Não. Não. Ainda não. Não. Não. Já tou indo. Aham. Estava sim. Estava sim. É. Carregando pedra. Tchau.

Ela desliga o celular e guarda na bolsa. Fecha a bolsa (que é bege) e coloca-a no seu colo. Ajeita o cabelo. Levanta-se do sofá e anda para o outro extremo.

Ninguém ao meu lado esquerdo nem ao meu lado direito.

Ela passa na minha frente, agora. 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Frederico

Diálogos [reais] de Centro do Rio...


Na frente do Edifício Avenida Central, indo comprar um lanche.

Dois "camelôs", aqueles rapazes que vendem CD e DVD de jogos e programas...

- E aí, major? O Frederico é gay, né?
- Frederico?
- É, Frederico, não é?
- Que Frederico, maluco?
- O filho daquele cara, o cego?
- Cego? Caralho...
- É, do cego e da ricona lá. Aquela loira, coroa.
- Da novela?
- É, cacete! Tá pensando que eu tou falando de quem, irmão?
- Félix, mermão! Félix! Que mané de Frederico!!!
- Ih, alá... O cara sabe até o nome do cara...
- Tu é que falou errado, parceiro.
- Mas Félix, Fred, é tudo parecido.
- Tu falou Frederico, e não falou Fred não.
- É que eu não prestenção. 
- Prestenção então. Aí, rapá, a moça... deixa ela passar...

Obrigada!

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Em observação, no Itaú Cinemas

Hoje é sábado. São 15h37. Estou no Espaço Itaú de Cinemas, sentada no café, esperando o André.

Estou sentada em uma mesa, sozinha. À minha esquerda, uma cadeira, com a minha mochila em cima. À minha direita, uma cadeira vazia. Na minha frente, uma espécie de corredor, onde as pessoas passam (da esquerda – onde é a rua -, para a direita – onde são as salas de cinema).

Uma senhora passa ao meu lado direito. É branca, alta, magra, cabelo curto, avermelhado. Usa óculos escuros. Veste uma saia justa, preta, uma blusa preta, estampada e um sapato preto, baixo. Carrega uma bolsa preta.

Um senhor passa ao meu lado direito.

Um senhor passa ao meu lado direito. É branco, magro, baixo, cabelo preto, raspado. Um casal passa ao meu lado direito.

O celular bipa. Whatsapp do Bernardo. Whatsapp do André.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Em observação, no consultório (Centro) - 10

Hoje é quinta-feira. São 14h50.

Estou no consultório do Centro, sentada na recepção, esperando a paciente de 15h30.

Estou ouvindo que estão atendendo lá dentro e, por isso, não sei em qual das salas está acontecendo o atendimento e não quis entrar, para não atrapalhar o atendimento alheio.

Na recepção, ao meu lado esquerdo, um filtro e o som, e a porta de vidro, que dá acesso ao hall dos elevadores. Do meu lado direito, o corredor que dá acesso às salas. Na minha frente, um pequeno balcão, com uma cadeira. Por aqui, luzes acesas, portas fechadas e o som, do rádio, que ocupa o silêncio do local.

Meu celular toca.

- Luana, boa tarde. Oi, Carlos. Tudo. Isso, 249. Isso, do lado do colégio. É uma vila. Isso, 249. Isso mesmo. Nada. Tchau. Boa sorte.

Volto para o som que toca, que ocupa o silêncio do local.

Meu celular bipa. E-mail da Cinara.

Volto para o som que toca, que ocupa o silêncio do local.

Meu celular bipa. Whatsapp da paciente.

Volto para o som que toca, que ocupa o silêncio do local. A rádio está sintonizada na JB FM.

(...)

Agora são 15h08. Estou na sala de atendimento, na poltrona.

Por aqui, portas e janelas fechadas, e luz acesa. Volto ao silêncio habitual, apenas com o barulho do ar condicionado ligado.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Em observação, no Dr. Antonio Carlos

Hoje é terça-feira. São 8h36.

Estou no consultório do doutor Antônio Carlos, sentada na recepção, aguardando a minha consulta (de 8h30).

Ao meu lado direito, um balcão (onde é a recepção). Ao meu lado esquerdo, a minha mochila ao lado, no sofá. Na minha frente, uma porta aberta.

A recepcionista passa pela porta, fecha a porta atrás de si, passa pela minha frente e entra no balcão (na recepção) e senta. Levanta-se. Liga o ar condicionado. Vai até lá dentro. Ela é branca, alta, tem o cabelo castanho, preso num coque. Veste calça jeans e blusa estampada e sandália baixa. Sai da recepção, passa pela porta e entra, deixando-a entreaberta. Sai dali novamente, fecha a porta atrás de si e entra num corredor. Vem até a recepção. Senta. Não consigo visualizá-la daqui pois o balcão é relativamente alto. Levanta e pega algo na mesa. Entra no corredor. Volta para a recepção. Sai da recepção, passa na minha frente e entra na porta que tem a minha frente, deixando-a aberta. Sai da porta, colocando uma garrafa térmica no balcão que existe na recepção. Passa na minha frente, entra na porta, deixando-a aberta. Sai da porta trazendo açúcar e adoçante. Sai da porta e fecha-a atrás de si. Entra na recepção e senta.

- Você vai ter consulta hoje, Luana?

- Vou sim.

O telefone toca.

- Consultório doutor Antonio Carlos, bom dia. Renata. Uhum. Uhum. Tá ok. Voce quer marcar, ou? Uhum. Margaret de Souza, né? Qual dia é melhor para você? Dia 24? Pode sim. Tem às 10h, 10h30, 11h e 11h30. Marcado então, pra sexta-feira, dia 24. Já, já está aqui. Uhum. Tá bom, querida. Por nada. Beijo, tchau.

Renata desliga o telefone.

O telefone toca.

- Consultório doutor Antonio Carlos, bom dia. Renata. Tudo bem. Não, não chegou não, mas eu solicitei, vai imprimir. Mas eles não mandaram do laboratório. Mas eu já pedi por email ao laboratório e eles mandaram. Já está aqui. Oi? Já está aqui sim. Já chegou. Já. Tá bom, querida. Beijo. Nada, tchau.

Renata desliga o telefone. Murmura alguma coisa.

- Deixa eu ligar pra esse médico.

- Oi?

- Deixa eu ligar para esse médico.

Renata suspira.

O telefone toca.

- Consultório doutor Antonio Carlos, bom dia. Renata. Débora ainda não chegou, só 9h. Isso. Doutor Antonio também não. Hum. Hum. Uhum. Sei. Uhum. Uhum. Uhum. Qual o seu nome? Deixa eu só dar uma olhadinha aqui. Marilena? Deixa eu só pegar a sua ficha, me dá só um minutinho.

Renata se levanta, e entra no corredor, saindo da recepção. Ela retorna pelo corredor.

Doutor Antonio Carlos chega.

- Bom dia.

- Bom dia, doutor.

- Tudo bem?

- Tudo bom.

Ele entra no corredor.

Renata senta e pega o telefone.

- Você fez em dezembro? Só um minutinho.

Levanta e entra no corredor. Volta para a recepção, fica de pé. Anda pelo corredor, novamente, saindo da recepção. Anda pelo corredor, vem para a recepção e senta. 

- Luana? Vamos lá?

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Em observação, nas Barcas

Hoje é domingo, são 11h18. Estou na estação das Barcas, em Niterói, na Praça Araribóia.

Estou sentada em um banco, na beirada do banco.

Ao meu lado direito, uma lata de lixo. Na minha frente, ninguém. Ao meu lado esquerdo, mãe e filha. Ambas, mulatas e magras, do cabelo curto. A mãe veste short jeans branco e blusa sem manga verde e chinelo branco.. Olha a máquina fotográfica. Deve ter cerca de trinta anos. A filha veste short verde, de bolinhas, e parte de cima de um biquini rosa, de bolinhas brancas. Usa um chinelo rosa.

- Eu ficava com uma cabeçona só. Né, mãe? Cabeçona só. Cabeçona só. Cabeçona só. Cabeçona só.

- Bota o óculos.

- Esqueceu, mãe? Já vai dar a hora.

- Coloca a cabeça junto.

A filha passa na minha frente. E passa de novo.

- Olha mãe. Vai morar aqui? Tomei um susto, olha.

- Vamos ver.

- Mãe, eu queria ir.

A filha passa na minha frente. E passa novamente. Filha e mãe passam na minha frente. A bolsa rosa delas permanece ao meu lado. Agora, ninguém ao meu lado. Por aqui, tudo claro, com apenas o barulho do ar condicionado central.

A filha passa na minha frente novamente. Guarda seu óculos na bolsa, que está no chão. A mãe vem e a ajuda. A filha fecha o fecho da bolsa.

- Tem biscoito aí dentro.

A mãe coloca a bolsa sobre o banco, fecha e passa na minha frente.

Agora, ninguém aos meus dois lados e nem na minha frente. Por aqui, tudo claro, com apenas o barulho do ar condicionado central.

A mãe passa na minha frente, novamente, e fala ao celular. Passa novamente na minha frente.

Um rapaz passa na minha frente, carregando uma bicicleta.

Um senhor passa na minha frente, usando bengala. É mulato, alto, magro. Usa boné e óculos escuros.

Agora, ninguém aos meus dois lados e nem na minha frente. Por aqui, tudo claro, com apenas o barulho do ar condicionado central.

A faxineira do local passa na minha frente.

- A senhora quer que eu levante o pé, para a senhora varrer?

- Não, meu amor. Pode ficar, tá? Obrigada.

- De nada.

Ela sai. Agora, ninguém aos meus dois lados e nem na minha frente. Por aqui, tudo claro, com apenas o barulho do ar condicionado central.

Uma senhora senta no banco ao lado do ao lado do meu e coloca a sua bolsa (que é bege e marrom) na cadeira ao lado de onde estou sentada. Agora, tirou a bolsa e colocou o copo descartável com mate e gelo dentro. Ela tira o copo. Colocou o copo novamente, agora, com menos da metade do conteúdo dentro. Tirou o copo.

Uma senhora passa na minha frente. É branca, magra, baixa.

- Você sabe que horas sai a barca?

-Não sei. Não estou esperando por ela. Estou esperando uma pessoa, então, não estou acompanhando.

- Não sei se vai dar tempo de pegar a de Paquetá.

- Que horas sai a de Paquetá?

- Meio dia. E, se não pegar essa, só depois de uma hora ou duas.

- Ai, caramba.

Uma senhora, agora, senta ao meu lado. É negra, alta, gorda. Tem o cabelo curto e usa óculos escuros. Veste uma calça comprida preta, uma sandália marrom, uma blusa estampada azul. Uma bolsa preta, de couro, aberta sobre o seu colo. Ela maquia-se. Passa batom. Fecha o batom, olha-se no espelho. Ajeita o cabelo. Guarda o espelho, fecha a bolsa. Abre a bolsa.

A senhora do outro lado conversa com ela.

- Se embelezando, né?

Mexe do lado de dentro da bolsa.

- Mas com esse sol ultra-violeta. Ah, coisa de doido. É.

Passa perfume.

- Eu tenho 43 anos. Mas vivo de sol. Não bebo, não fumo. Eu sigo todas as regras possíveis.

Abre a bolsa.

- Tá bem também. Tem que ter. É, agora, a maquiagem já vem, né? Pó de arroz com protetor solar, hidratante. Pele. Uhum.

Pega o celular, que é Samsung.

- Também, só um gloss, uma coisa. Muito quente. Você passa uma toalhinha e sai tudo...

Mexe no celular Samsung.

- Uma coisa de doido esse sol. Você fica vinte minutinho, a pele queima.

Continua mexendo no celular Samsung.

- Janeiro geralmente chove, né? É.

Continua mexendo no celular Samsung. Ele toca. Digita uma mensagem de texto nele.

- É.

O celular toca novamente, e ela continua mexendo nele.

- Difícil, né? A gente fica exigente, né? Há sete anos sou viúva. Mas hoje sou mais exigente que há vinte anos atrás. Você pode deixar ser enganada, mas se enganar a gente não se engana mais. Meu marido era bom pra mim. As coisa tá muito difícil hoje. Eu fiquei viúva com 35 anos. Quando eu fiquei viúva, vai ser fácil conhecer uma ou outra pessoa. Nada. É muito difícil. É. Hoje em dia os caras não querem assumir nada. Hoje eu tenho uma filha de 17 anos, graças a Deus. Sou independente, tenho uma pensão. E quando o homem vê que você tem uma casa, tem um negocinho, quer logo trazer a roupa. É ruim, hein? Já quer usufruir do que você tem? Aí não aceito. Ninguém chega. Meu marido deixou pra mim e pra minha filha. E pro meu trabalho. E a pessoa vai chegar na sua vida e a partir disso construir uma vida. Mas ninguém quer não. Ninguém quer nada. Ainda mais homem assim que... Já vem assim, com separação, compricado. Vem com as historias, entendeu ex-mulher pegando no pé. É filho ciumento. É muito problema. Quero não. E uma coisa que eu não quero não: filho dos outros. Meu marido quando veio já era viúvo, e eu cuidei de dois filhos dele, já eram casados. Ele se foi, agora encerrou. Quero não.

Tem a bolsa sob o colo, e as mãos cruzadas sobre a bolsa.

- É. Isso aí. É. Isso aí. Hoje em dia, parceria está muito difícil. Por isso que tá sozinha. Fiquei sozinha sete anos. E final de semana você fica com a pessoa, feriado...

Olha para o lado, com a senhora, conversando. E as mãos cruzadas sobre a bolsa, fechada.

- Isso aí. Isso aí. Eu vou encontrar também um homem muito bagunceiro, muito... Eu sou muito sossegada também.

Uma senhora passa na minha frente. É branca, gordinha, baixa. Usa óculos escuros e tem o cabelo loiro, preso num rabo de cabalo. Veste uma bermuda preta, blusa estampada e sandália bege.

- Parece que você tá fazendo questão... Uhum. Hum. E quanto mais se apega, né? É. Isso aí. É. É. Não paga mais ninguém. Tem que arrumar uma pessoa que se encaixe nisso. É. A gente, chega uma certa idade...

A negra e a outra passam na minha frente. Uma senhora passa na minha frente. Um senhor passa na minha frente. Um rapaz passa na minha frente.

Agora, ninguém aos meus dois lados e nem na minha frente. Por aqui, tudo claro, com apenas o barulho do ar condicionado central.