quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Em observação, no escritório do pai - 4

Hoje é quinta-feira. São 9h26. Estou no escritório do meu pai, entrevistando pra vaga de Vendedora.

Estou sentada na mesa, de frente para a mesa de reunião, onde duas candidatas fazem redação.

A candidata mais próxima a mim chama-se Flávia (*). É branca, magra, baixinha. Tem o cabelo comprido, castanho, liso. Veste uma blusa preta, sem manga. Está curvada, escrevendo a redação.

A candidata mais distante chama-se Nísia (*). É branca, gordinha, baixinha. Tem o cabelo preto, liso. Veste uma blusa social salmão. Está curvada, escrevendo a redação.

Flávia mexe no cabelo e se ajeita na cadeira. Pega a folha de papel, lê, olha para Nísia, que não para de escrever a sua redação.

Ambas estão sérias e olhando, fixamente, para a redação que escrevem.

Flávia coloca o cabelo por trás da orelha, mexe na boca. Vejo que tem as unhas pintadas de rosa. Pigarreia. Mexe no cabelo. Volta a escrever a redação. Funga o nariz.

Nísia pára de escrever e lê a redação que já escreveu.

Flávia olha para mim, sem parar de escrever.

Nísia volta a escrever.

Flávia pára de escrever e lê a sua redação. Até agora, seis linhas. Volta a escrever.

Nísia parou de escrever e está lendo a sua redação.

Flávia ajeita o cabelo, ajeita a bolsa sobre seu colo, pára de escrever e lê a sua redação.

Nísia volta a escrever.

Flávia volta a escrever.

Nísia terminou de escrever a redação.

- Terminou, Nísia?

- Terminei.

- Você trouxe seu currículo?

- Trouxe.

- Pode me entregar, por favor. Aguarda um pouquinho, tá?

- Oi?

- Aguarda a Flávia terminar, tá?

- Ah, tá bem.

Flávia continua escrevendo a sua redação e Nísia, agora, observa-a, séria. Nísia olha para as próprias unhas.

Flávia volta a escrever em outro papel e aparenta estar copiando o que escreveu anteriormente, do rascunho.

Nísia rói as unhas.

Flávia mexe no papel e volta a escrever.

Nísia está séria, olhando para a frente, para o “nada”. Olha as próprias unhas. Ajeita algo na mesa. Ajeita algo na sua roupa, mexe nas unhas. Mexe no cabelo e olha para frente. Mexe no cabelo e olha para o próprio cabelo. Pega algo na sua bolsa.

Flávia pára de escrever, ajeita a bolsa sobre seu colo, olha para mim, e volta a escrever.

Nísia continua mexendo em algo dentro da sua bolsa, que está sobre a mesa. Pára de mexer em algo na bolsa e mexe na mão e na unha.

Flávia pára de escrever, ajeita a bolsa sobre seu colo, e volta a escrever.

Nísia coça o seu rosto e olha para Flávia, escrevendo a redação. Olha, agora, para a frente. Mexe nas unhas e olha para as suas mãos. Olha para Flávia escrevendo a redação.

As duas acabaram. Vou entrevistar.

(*) Nomes fictícios.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Em observação, no consultório (Copacabana) - 4

Hoje é quarta-feira. São 12h27.

Estou no consultório de Copacabana, aguardando a paciente de 13h.

Estou sentada no sofá da paciente.

Porta e janela fechadas. Ar condicionado desligado.

Por aqui, apenas o barulho do meu silêncio.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Em observação, na Loreal

Hoje é terça-feira. São 10h15. Estou na Loreal, no Centro.

Estou sentada em uma recepção, com várias mulheres.

Ao meu lado direito, uma moça mulata, magra. Veste calça jeans, blusa cinza, casaco rosa e sapatilha preta. Tem o cabelo preto, preso, e mexe no celular, curvada para a frente. Parou de mexer no celular e olha para o lado e para a frente.

Do meu lado esquerdo, tem outra moça, branca, cabelo castanho, magra. Usa calça preta, blusa cinza. Tem uma mochila rosa sobre seu colo, e o celular, ligado no facebook.

A menina da minha direita mexe no celular e guarda-o na bolsa lilás, no seu colo.

A menina da minha esquerda olha para as pessoas em volta, e, agora, mexe no celular.

Fui chamada. Tchau.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Em observação, no consultório (Centro) - 4

Hoje é quinta-feira. São 15h32. Estou no consultório do Centro, sentada na poltrona, na sala de atendimento, esperando a paciente de 16h.

Por aqui, só o barulho do ar condicionado e o silêncio. 

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Em observação, no Bibi

Hoje é quarta-feira. São 12h10.

Estou no Bibi Sucos, da rua Miguel Lemos, sentada numa mesa, no canto, aguardando a conta para eu ir embora.

Na minha frente, uma moça come um sanduiche. Ela é alta, magra, cabelo liso, preto, comprido. Veste uma calça preta e uma blusa verde.

Minha conta chegou. Vou pagar e ir embora.



quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Em observação, no consultório (Centro) - 2

Hoje é quinta-feira. São 16h11. Estou no consultório do Centro, sentada no sofá da sala de atendimento.

Aguardo a paciente de 17h30.

A porta está trancada, um resto de sol entra pela varanda, e o ar está ligado.

Aqui, no silêncio, só o barulho do ar condicionado.

Meu celular bipa. Chegou um email.

Volto ao silêncio e ao barulho do ar condicionado.


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Em observação, no consultório (Copacabana) - 3

Hoje é quarta-feira. São 12h58.

Estou no consultório de Copacabana, sentada à mesa, dentro da sala de atendimento.

Por aqui, além do barulho do ar condicionado, apenas o meu silêncio.

Meu celular bipa. Mensagem no whatsapp do Bernardo.

Volto ao manter contato apenas com o barulho do ar condicionado e o meu silêncio.

Meu celular bipa. Mensagem de texto (SMS) da paciente e whatsapp do Bernardo.

Volto a manter contato apenas com o barulho do ar condicionado e o meu silêncio.

Meu celular bipa. Mensagem no whatsapp do Bernardo.

Volto ao barulho do ar condicionado e ao meu silêncio.

Meu celular bipa. Mensagem no chat do facebook da Laila.

Volto ao barulho do ar condicionado e ao meu silêncio.

Meu celular bipa. Mensagem no chat do facebook da Laila.

Volto ao barulho do ar condicionado e ao meu silêncio.

Meu celular bipa. Mensagem no chat do facebook da Laila.

Volto ao barulho do ar condicionado e ao meu silêncio.




segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Em observação, no COB - 4

Hoje é terça-feira. São 14h57. Estou no COB – Centro Oftalmológico de Botafogo – aguardando ser atendida.

Estou sentada em uma recepção interna, em uma fileira de três cadeiras. A primeira de outras cinco fileiras atrás de mim. Estou sentada na primeira cadeira, mais próxima do corredor.

À minha esquerda, duas outras cadeiras vazias. Na minha frente, uma parede azul, com a televisão, no alto, ligada na TV Globo. Nesta mesma parede, uma porta fechada. Do meu lado direito, um corredor que dá acesso às salas e outra recepção.


domingo, 13 de outubro de 2013

Em observação, no consultório (Centro) - 5

Hoje é segunda-feira. São 16h33.

Estou no consultório do Centro, sentada na poltrona, na sala de atendimento.

Por aqui, só o barulho do ar condicionado e o meu silêncio.

Meu celular bipa. Mensagem no whatsapp do André.

Desliguei o ar condicionado. Agora, por aqui, só o som do meu silêncio.

Meu celular bipa. Mensagem no whatsapp da paciente.

Agora, por aqui, só o som do meu silêncio.


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Em observação, no Criar-se


Hoje é sábado. São 9h43. Estou no CRIAR-SE, em Botafogo, aguardando a aula começar.

Estou numa sala ampla, sentada no chão. Ao meu lado direito, um sofá vermelho vazio. Ao meu lado esquerdo, mais almofadas no chão (estou sentada sobre uma delas).

Na minha frente, uma série de almofadas, também, e, em um sofá vermelho, onde uma moça também aguarda. Ela veste calça jeans, blusa rosa, casaco marrom. É mulata, alta, um pouco gordinha. Tem o cabelo bem cacheado, preso. Ela lê uma revista, séria. Tem os pés cruzados, no chão. Ela folheia a revista, séria, sem tirar os olhos nem fazer contato visual comigo. Funga.

A campainha toca.

A moça levanta e vai abrir à porta.

- Ui, que susto.

- Ela desceu, né?

- Você vai lá abrir?

- Vou.

- Obrigada.

Ela levanta e vai até a porta, abrir. Ela retorna e senta no mesmo local.

Outra moça entra.

- Bom dia.

- Bom dia.

- A gente passa de ônibus, de carro, nem vê, né?

- A gente olha de cima, é lindo, né?

- É... lindo.

A moça que abriu a porta volta a sentar no mesmo sofá e fica lendo a mesma revista, séria. Ela, agora, fala com alguém no telefone.

A moça nova que, entrou veste calça beje, blusa preta e casaco jeans. É branca, magra, e tem cabelos lisos, meio avermelhados. Ela está sentada na minha frente, numa dessas almofadas.

- Oi amiga. Tudo bem? Você vem a palestra, não? Ah, achei que fosse te encontrar... Ah, não, eu consegui lá alguém pra me escalar. A Bete já está aqui. Não, ainda não. Começa às 10h. Eu cheguei 9h10, 9h15. Mas o pessoal tá chegando, devagar. Depois eu te conto. O Elton conta. Tá bom, amiga. Beijo, tchau.

Entrou um rapaz, também e sentou na minha frente.

A professora chegou, vou fechar aqui.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Em observação, no escritório do pai - 3

Hoje é sexta-feira. São 15h26.

Estou no escritório do pai, no Centro, sentada na mesa de madeira, de frente para a mesa de reunião, sozinha.

Aqui, está tudo aceso e o ar condicionado está ligado.

As duas portas da sala estão abertas. Uma dá acesso à pequena recepção; e a outra dá acesso à sala do meu pai.

Agora, estou conversando com André no facebook.


Meu tio Colleta entra na sala de reunião. Veste calça jeans e blusa verde.

- Oi tio

- Oi meninininha, você está aí?

- Tou.

- Tá quietinha.

- É.

- Tá no ar...

Ele vem até mim, me dá um beijo. Sai da sala, em direção a recepção. E volta.

- Quando estiver pronto, você me avisa. E aí me traz uma xicrinha, sem açúcar mesmo. Tá bom então. Obrigado.

Ele volta para a sala e entra na porta que dá acesso à sala do meu pai.

Meu pai passa pela sala e vai em direção à recepção.

A reunião vai começar. Tchau.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Em observação, na Neide's Coiffeur

Hoje é quinta-feira. São 13h44. Estou na Neide’s Coiffeur, sentada, aguardando a tinta reagir no meu cabelo.

Do meu lado direito, uma senhora faz cabelo com a cabeleireira. A cabeleireira está toda de preto, com uma rasteirinha dourada. É negra, gordinha, e tem o cabelo liso, meio curto.

A cliente que está sentada é uma senhora branca, magra, alta. Veste calça jeans, tênis branco (encardido!), blusa azul. Uma bolsa marrom pousada no seu colo e ela lê uma revista de fofocas. A cabeleireira faz escova nela. Ambas sérias e silenciosas.

Atrás de mim, as pessoas passam para lá e para cá. Para os fundos do salão e para a recepção / saída do salão.

Uma manicure passa. E passa de volta.

Uma manicure passa, lambendo os dedos.

Duas manicures passam. Uma delas olhando o celular.

Uma cabeleireira passa.

Uma manicure passa.

Uma cabeleireira passa, carregando uma toalha.

Uma cliente passa. Tem o cabelo verde fluorescente.

Uma manicure passa, carregando a bacia para se colocar os pés, cheia de água.

Uma cabeleireira passa.

Uma cliente passa, com o cabelo pintado.

Uma cabeleireira passa.

Uma cabeleireira pára do meu lado esquerdo. Mexe em um avental, olha para mim, olha para fora. E passa. E passa de volta.

Uma cabeleireira e uma cliente passam. A cliente mexendo no celular.

Ao meu lado direito, a cabeleireira desliga o secador do cabelo. Liga-o novamente.

Uma manicure passa, com a mão na boca, e olha para mim.

Uma manicure passa, mexendo no celular.

Uma cabeleireira pára do meu lado esquerdo, dobra o avental e passa.

Uma manicure passa, carregando a bacia de colocar os pés, cheia de água.

Uma recepcionista passa.

A gerente passa. Veste um vestido longo, florido, e um sapato vermelho. É magra, alta, cabelo liso, comprido.

Uma senhora passa.

A cabeleireira ao meu lado direito ri.

A gerente passa.

A faxineira passa e ajeita a cadeira ao meu lado esquerdo.

A cabeleireira ao meu lado direito desliga o secador de cabelo. Liga-o novamente.

Uma manicure passa.

Um cliente passa. Veste calça jeans, blusa polo azul, tênis. É branco, bem alto e bem gordo. Cabelo escuro e crespo.

Uma manicure passa.

O cliente passa. Uma cliente passa com ele.

Uma manicure passa.

Uma manicure passa.

Uma manicure passa.

A faxineira varre o chão, ao meu lado esquerdo. Veste uma bermuda e blusa, ambas azul marinho.

Uma cabeleireira passa.

Uma manicure passa.

Uma manicure passa, carregando algumas coisas.

A faxineira retorna, varrendo o chão, e passa.

Uma manicure passa.

Uma cliente passa.

A cabeleireira, ao meu lado direito, desliga o secador de cabelo.

Uma manicure passa.

A cabeleireira, ao meu lado direito, liga o secador de cabelo. Desliga o secador de cabelo.

Moisés vem.

- Deixa só mais uns minutinhos, tá, amor?

- Tá bom.

Ele passa, mexendo no celular e comendo chocolate.

A faxineira passa.

Uma cabeleireira passa.

A faxineira passa, carregando uma vassoura.

A faxineira passa, carregando uma vassoura.

Uma cliente passa.

Duas cabeleireiras passam.

Uma cabeleireira passa, carregando um shampoo.

Uma cliente passa. Veste calça jeans, blusa listrada preta e branca. É uma senhora, branca, alta e gordinha.

A cabeleireira do meu lado direito desliga o secador de cabelo.

A faxineira passa, passando pano úmido no chão.

A cabeleireira passa algo no cabelo da cliente. Ela pousa a revista na bancada em frente.

- Óleozinho.

A cabeleireira tira a toalha do ombro dela. A cliente abre a bolsa, tira R$ 5 da carteira e dá a cabeleireira, sem olhar para ela. Ela tosse.

A cabeleireira me olha.

A cliente pega as suas bolsas e sai, sem nada dizer à cabeleireira.

Agora, as cadeiras ao meu lado direito e esquerdo estão vazias.

A faxineira passa, carregando a vassoura, e está limpando o chão, ao meu lado.

- Oi Lu, vamos lá?

- Vamos sim. Vou só fechar aqui.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Em observação, no consultório (Copacabana) - 2

Hoje é quarta-feira, são 12h44.

Estou no consultório de Copacabana, sentada à mesa, na sala de atendimento, aguardando a paciente de 13h.

Estou no celular com a Carla. Desligamos a ligação.

Agora, por aqui, apenas o barulho do ar condicionado e o meu silêncio.


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Em observação, no escritório do pai - 2

Hoje é terça-feira. São 16h13. Estou no escritório do meu pai, na sala de reunião, sentada numa cadeira, à mesa de reunião, sozinha.

Aqui, tudo silencioso e vazio. 

domingo, 6 de outubro de 2013

Em observação, no consultório (Centro) - 3

Hoje é segunda-feira. São 16h43. Estou no consultório do Centro esperando a paciente de 17h30.

Estou dentro da sala de atendimento, sentada na poltrona.

Aqui, além do meu silêncio, apenas o barulho do ar condicionado.

Meu celular bipa. Mensagem no whatsapp do Bernardo.

Volto para o meu silêncio, e para o barulho do ar condicionado.

Meu celular bipa. Mensagem no whatsapp do Bernardo.

Volto para o meu silêncio, e para o barulho do ar condicionado.


sábado, 5 de outubro de 2013

E seriam seus setenta

Não sei da onde foi que comecei a gostar de escrever números com letras. Ao invés de 70, setenta. Acho que dá mais autenticidade. Só acho...

E a gente planejava uma puta festa para este dia, que seria amanhã. Não seria surpresa. A perspicácia da moça não permitia surpresas. 

Talvez fosse uma festa íntima, pra poucos e seletos amigos. Mas, festa com champagne, com vinho (como ela gostava), com comes-e-bebes-lights-feitos-em-casa. Aquele sanduíche colorido, aquelas empadinhas de queijo. Nada de muita carne. Os bolos da tia Rê, de preferência, com nozes. Ia ter música. Ia ter danças circulares. Ia ter LP do João Bosco, e do Caetano, e do Chico.

A gente planejava que o aniversário fosse no apartamentinho do Jardim Botânico (ou no play, como eu desejava, um festão!). 

Se no apartamentinho, a varanda ia ser o point. Se no play, o lado de fora do salão de festas, porque "aqui está muito abafado, não está?" era típico.

Mas, a festa planejada não vai acontecer. Nenhum de nós vamos celebrar, ou beber, ou dançar. Seus setenta não chegaram, AnaZ.

E eu lembro bem do seu último aniversário "viva". Sim, entre aspas.

Era dia 05 de outubro de 2011, você estava internada no CTI do Hospital Rio Laranjeiras, leito seis. Na saída da minha visita, eu perguntei às enfermeiras se podia trazer flores, ou algo no dia seguinte, pois seria seu aniversário. Não. Eu não podia levar nada. Eu podia me levar, apenas.

No dia seguinte eu fui preparada, então, para te dar os mesmos beijos, chamegos, massagens, pentear seu cabelo e celebrar seus sessenta-e-oito. Mas eu cheguei e você estava, já, dormindo. Em coma profundo, segundo os médicos, inexplicavelmente. Você só veio acordar mais de quarenta dias depois, e, perguntando pelo seu aniversário, que seria dali a alguns dias. Horas depois, você já se esquecia do aniversário, e falava de outro assunto. E assim foi durante quase diariamente até o dia 28 de abril de 2012, quando você resolveu se libertar do seu controle e deixar-se-ir-para-os-braços-de-Deus.

Acontece, AnaZ, como disse, na última carta que escrevi pra você (aqui), que você não vai ler esta (é uma carta?). Eu vou, nós vamos. Ou não. Não importa mais que leiam ou que não leiam. 

Importa, apenas, que seja sentida.

E eu sinto a sua falta. Hoje, no dia dos seus possíveis-setenta, mais ainda.

A forma como cada um sente - a sua presença e/ou a sua ausência - é particular, única e silenciosa. Você, por ser a minha nave-espacial que me trouxe a este mundo, é sentida profundamente. 

Eu sinto você aqui, agora, enquanto te escrevo.
Sinto você na casa do Nilson.
Senti quando estive lá com o André (como eu gostaria que você o conhecesse!), e que ele pegou vários dos seus livros emprestados. Eu podia ver você pulando, nos pézinhos magros, e dizendo: "pode levar, mas devolve, né?!" e "tem esse aqui também!".
Sinto você quando estou só, profundamente só. Às vezes, o André está ao meu lado e, ele sabe (e sente) que estou só, e ficamos ambos em silêncio. Eu te sinto ali. 
Não é uma sensação espiritual, metafísica. 
É como se eu sentisse você no olhar. No meu olhar, nos meus poros. De forma muito sutil. 

Eu não acho que você está feliz, ou orgulhosa, ou nada. [Peço perdão - e agradeço - aos amigos que dizem isso para mim, por diversos motivos].
Você não está mais. O que restou de você não tem mais a possibilidade de ESTAR.
Às vezes eu me pego rindo porque, essa coisa de "plano espiritual" eu imagino você, AnaZ, como uma ETzinha, com outros seres, todos verdes, se comunicando assim "pi-pi-pi".
E eu penso (e sinto) que máximo que deve ser essa coisa de ser outra coisa, e de não estar mais. 

Você esteve por sessenta-e-oito. Agora, você é. Por toda a eternidade. 


Eu, nós, te amamos.

Feliz idade nenhuma, portanto. 

Estou - estamos - bem. Em paz.
Nilson manda beijos. 
Eu também.

Te amo. Te amo. Te amo.
Para sempre.


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Em observação, no consultório (Copacabana)

Hoje é sexta-feira. São 14h07. Estou no consultório de Copacabana, esperando a paciente de 14h30.

Estou sentada à mesa, dentro da sala de atendimento.

Por aqui, tudo silencioso. Apenas o barulho do ar condicionado.


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Em observação, no INap

Hoje é quinta-feira. São 10h21. Estou no INap, no Flamengo.

Estou na sala onde vai ocorrer a palestra. Junto comigo, mais dois senhores e o palestrante. Ninguém ao meu lado direito nem ao meu lado esquerdo. Estou na primeira cadeira, na extrema esquerda da sala.

Duas cadeiras ao meu lado direito e, na terceira, um rapaz de cerca de 35 anos. Usa terno (sem gravata) azul marinho e parece ser advogado, pois carrega, com ele, vários processos. É alto, gordinho, cabelo grisalho. Os processos e duas agendas sobre seu colo. Lê um papel. 

O palestrante pausa na minha frente e sai da sala.

O advogado observa ele, sem pausar.

O palestrante passa na minha frente, liga o ar. Usa jeans, blusa social listrada, sapatênis marrom. É branco, baixo, grisalho, meio careca. Saiu da sala.

O advogado coça o rosto. Ajeita os processos no seu colo. Ajeita seu terno. Olha para o lado. Pousa as mãos sobre o processo. Limpa seu terno, ajeita a blusa por dentro. Olha para mim.

O palestrante entra na sala de palestras novamente e pousa na minha frente. Escreve no flip-chart: MÁRIO JORGE e, embaixo, mariojor@hotmail.com.

Mexe em algumas coisas na mesa à frente. Olha para a apresentação, à sua frente. Sai da sala.

Aqui, estamos todos bastante silenciosos.

O advogado, ao meu lado, coça o rosto. Mexe no relógio. Batuca um pouco os pés no chão. Olha para mim. olha para o canto da sala. Mexe no conteúdo da sua agenda. Olha para a frente, para o vazio. Olha para o lado, para o vazio. Batuca os pés no chão.

Uma senhora entra na sala.

- Bom dia.

- Bom dia.

- Bom dia.

O advogado olha para mim. Coça a orelha. Olha para o vazio, a sua frente. Pousa as mãos sobre os processos, no seu colo. Olha para mim. Olha para os lados. Olha para a frente. Ajeita o seu terno, olha as horas.

Vou desligar, a palestra vai iniciar.



terça-feira, 1 de outubro de 2013

Em observação, no Espaço da Mulher

Hoje é quarta-feira. São 19h13. Estou no ESPAÇO DA MULHER, no Leblon, esperando a Alba voltar com o carro, para me buscar e nos levar para Copacabana.

Tudo aqui está aceso e silencioso.

Do lado de fora, pessoas e carros passam, na chuva.

Duas moças passam aqui pela porta de vidro, param, olham pra mim e continuam andando.

Uma moça pára na porta e bate. Vou até lá, abrir para ela.

- Oi, boa noite.

- Boa noite.

- Vocês tão dando curso?

- Eu não sei te dizer. Só estou aguardando uma amiga. Você passa amanhã, que tem gente aqui pra informar, tá?

- Tá bom, obrigada.

- Nada.

- Tchau.

- Tchau, boa noite.

Fecho a porta e ela vai.

Volto para o silêncio.