segunda-feira, 20 de maio de 2013

Dois casais

Essa é a história sobre dois casais. Eles existem, sim, na vida real. Um casal é Milton e Joana. O outro, é Daniel e Carolina.

Falemos dos primeiros primeiro.

Milton, 48 anos; Joana, 45. Ambos, moradores de rua, há cerca de 10 anos. Vendem latinhas e, com o dinheiro, conseguem comprar a refeição do dia, a quentinha da Dona Zulmira, que eles dividem entre eles e racionam entre almoço e janta. 

Moram embaixo da marquise de bancos, lojas e supermercados, nas imediações do Flamengo, Largo do Machado e Catete. Carregam seus trapos com eles: uma bolsa de roupa suja, e um edredom velho, que acharam no lixo. Não lembram a última vez que tomaram banho. Diferente do que pensam, não são drogados ou ladrões.

- A gente nunca precisou roubar nada não senhor. 
- E por que vocês vivem na rua? - perguntaria qualquer um.

Milton e Joana responderiam com um silêncio olhar para o céu estrelado. Acho que nem eles sabiam porque viviam na rua. Eram felizes, no entanto. 

Não tinham filhos, nem parentes. Poucos amigos (só os comerciantes da redondeza, que davam um resto de comida, no final da noite). Eram um casal, parceiro, amigos. Se ajudavam, limpavam o piolho um do outro, vigiava o sono um do outro, pois já tinham sofrido muita violência de madrugada.

As pessoas não entendiam, mas eles andavam sorridentes. Não tinham do que reclamar, apesar da vida - que as pessoas julgavam - difícil. 

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Daniel e Carolina se conheciam já há algum tempo - talvez alguns anos. Estavam juntos, no entanto, há poucos meses. 

Daniel, 39 anos; Carolina, 32. Ele, professor; ela, psicóloga. Eram namorados, acho. Viviam uma vida pacata, de paz, feliz. Sem grandes sobressaltos amorosos. Um amor tranquilo, puro, calmo. Tipo um mar num fim de tarde de verão. 

Ele era um homem alto; ela, pequena e baixinha. Ele conseguia, portanto, abraçá-la de forma que ela ficava pequena, mas da altura ideal. Parecia um encaixe perfeito os dois.  Eles conversavam, andando para a frente, se entreolhavam, se beijavam, sorriam, e continuavam andando.

Era bonito de ver os dois. Daria uma boa fotografia. Não consegui fotografá-los (com uma máquina). [Perdoem-me por isso, leitores!]

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Era um sábado de início de noite. Um casal cruzou o outro. Daniel e Carolina iam ao cinema. Milton e Joana eu não sei.

Vi quando os dois cruzaram quando Milton, do lado de fora das grades-enclausuladoras-de-um-prédio-que-não-aceita-mendigos, tentava captar-raptar uma florzinha numa árvore. Ele pulava, tentava se agarrar, escalar a porta-de-ferro-fria.

A árvore era pequena. A flor era pequena. Milton era pequeno. O afeto por Joana não. 

- Você nunca me deu nada... - dizia ela, fazendo beicinho, minutos antes.

A árvore era pequena. A flor. Milton. 

Daniel não. Um pequeno pulo e ele pegou a flor e entregou a Milton, que entregou a Joana, que botou no cabelo.

- Obrigado, moço.
- Valeu.
- Obrigada, Milton.
- Te amo, minha mulher Joana.
- Que coisa linda, Daniel. Obrigada pelo presente.
- Ué... mas foi Joana...
- Eu também... eu também...

E cada casal seguiu seu caminho. 

A flor estava no cabelo de Joana, mas as mãos de Daniel e o coração de Carolina ainda estavam perfumados.

[Meu agradecimento a Daniel e Carolina, por permitirem que eu os fotografasse].
[E um beijo florido a Milton e Joana, pela sensibilidade].


terça-feira, 7 de maio de 2013

Leonardo e Gabriela, o casal


Este conto é sobre Leonardo e Gabriela, um casal de amigos.

Leonardo eu já conheço há uns 10 ou 15 anos. Meu melhor amigo. Daqueles amigos de se falar todos os dias, de cuidar um do outro, de brigar e ficar meses separados, e morrendo de saudade, e não dando o braço a torcer. Amigo de aplaudir as conquistas. Amigo de dar broncas feias. Amigo de falar besteira. Amigo de não falar nada, de ficar em silêncio, longe ou perto. Amigo de dizer, na hora de mais dor: “te amo, tou aqui”.

Leonardo, hoje, tem 38 anos, e é o mais velho de 3 filhos, da dona Martha, aeromoça. Não chegou a conhecer seu pai e, como a mãe viajava muito, Leonardo era criado por quem estava disponível. Ficava em casa (na Tijuca), com a empregada – dona Chica, empregada de anos da família – ou com tios, avós, padrinhos. Leonardo se dava bem com a mãe, mas quando a via, o que era raro para uma criança de 5 anos.

Leo não gosta de ser chamado de Leo, mas eu sou amiga e posso. Acabou tornando-se um menino calado, pacato, tímido, na sua. Muito inteligente, com um vasto mundo interno, mas ele interagia com ele mesmo, e com seus personagens imaginários. Brincava com os irmãos, quando estes nasciam, mas não tinha muita paciência para com os menores. Gostava mais dos irmãos, pois podia ter a sua mãe por perto, do que, exatamente, por existir um amor dele pelos irmãos.

Hoje, Leo é engenheiro de produção, e trabalha na Odebrecht, em grandes projetos. Mora na Urca, sozinho, e vai pro trabalho de bike. De terno e bike. Tem carro, que usa para viajar, nos finais de semana, ou botar os afilhados no banco de trás e fazer o passeio de domingo – praia, restaurante, zoo. Ou pra ir à praia, ou viajar pra locais próximos, aqui pelo Rio.

Gosta muito da sua profissão e, quando pode, fotografa nas horas livres. Sempre gostou de fotografia e, hoje em dia, ganha dinheiro com isso, também. “Fotografo tudo, menos festa de casamento, festa de 15 anos, e noivos no Jardim Botânico”. Leonardo sabia ser ácido. Ele gostava de novos olhares sobre a perspectiva comum e mundana. Gostava de fotografar mães-e-bebês, animais e jogos – futebol, vôlei, e até tênis. E as paisagens. As fotos dele eram muito lindas. Os clientes ficavam encantados.

Falemos de Gabriela, portanto.

Esta, eu conheço pouco. Estivemos juntas duas ou três vezes.

Gabriela tem 30 anos, e mora em Ipanema, com a mãe. É filha única, formada em Publicidade. Sempre foi vitima de muito preconceito pois, seus pais, de classe média alta, sempre tiveram dinheiro, e ela era taxada como a Paty, coisa que ela nunca foi, pelo contrário. “Meu cabelo liso, loiro, e o fato de eu ter carro aos 19 anos não faz de mim uma paty”, dizia ela pras amigas mais íntimas. “Fico puta com isso, porque a galera me fecha com uma categoria e eu não posso ser nada além daquilo”.

Gabriela podia ser uma criança mimada, mas não era. Sempre foi – e gostou – da sua independência. Os pais tinham dinheiro e ela, claro, usufruía. “Eu dei sorte, gente! Mas não sou uma deslumbrada!”, mas isso não a tornava uma pessoa melhor ou pior. Ela era uma menina – com dinheiro, ou “conforto”, como ela dizia – consciente. Não era deslumbrada, riquinha.

Gab gostava de ser chamada sem o “i” (Gabi) ou “y” (Gaby). “Meu Gab é com B mudo, de Bonita”, dizia ela, as gargalhadas. “Gabi ou Gaby é até os 9, né? Com 30 não dá. Tem que ter personalidade!”, dizia ela, séria, escondendo o sorriso. Profissionalmente, era Gabriela Sarmano, com nome e sobrenome. Não tolerava ter apelidos nos negócios.

Gab chegou a se formar em Publicidade e trabalhou em algumas agências, logo que se formou. O pai tinha um negócio e ela acabou tocando o negócio com ele, o que fez o seu velho Eliseu deixar tudo nas mãos da filha: “Gab tem tino pra coisa”. Até hoje não sei bem o que é o negócio, mas a menina é tinhosa, fez o negócio crescer e, hoje, administra o negócio do pai, investe o dinheiro dele, presta contas. O pai criou uma filha e uma empresária de sucesso. Agora, ele podia descansar, na casa da família, em Friburgo. O seu velho Eliseu vinha 1 vez por semana, ao RJ, ajudando Gab no que fosse preciso, nos negócios, dando uma vistoria na casa, um beijo na ex-esposa (eles sempre se deram muito bem, mesmo após separados), almoçava e, no fim do dia, voltava pra Friburgo.

Leo conheceu Gab não sei bem como. Eles me contaram, mas já esqueci.

Estive com ambos na praia, da Barra. Leo passou aqui em casa, de carro, me pegou. Passamos em Ipa, pegamos Gab e fomos. Conheci a Gab, portanto, no carro do namorado DELA. Tensão, né? Vai que a moça seja ciumenta? Vai que a moça é uma chata? Ir à praia na Barra, com um casal de amigos, quando se é conhecida do homem do casal é um risco que se corre.

- Deixa de ser louca. Você vai amar a Gab. Já falei pra caralho de você pra ela, sua desequilibrada.

Amizade de 15 anos te permite alguns adjetivos “fofos”.

- Sei lá, Leonardo. E se eu ficar segurando vela, cara?
- Vela só se segura até os 20 anos, Luana. Quantos anos você tem?
- Ok.
- Cala a boca que estamos chegando. Seja simpática.
- Você não me acha simpática, Leonardo Furher?
- Claro que não.

Gab entrou no carro, e estávamos os dois, às gargalhadas.

Tascou um beijo no Leo e se debruçou, pelo banco de trás, e me fitou, com seus olhos grandes e expressivos.

- Oi Lu.
- Oi Gabriela.
- Gab.
- Gab, ta.

Fomos, no carro, ouvindo Marisa Monte, Lenny Kravitz, Jack Johnson, Jason Mraz e, claro, os três cantando. Leonardo mais contido:

- Preciso me concentrar, vocês duas não estão ajudando.

Na praia, já estávamos íntimos.

Gab tirou uma pequena bolsa térmica, com amendoim, castanhas, e um espumante, gelado.

- Ó, o presente daquele cliente, amo-or.

Eu vim voltando dirigindo o carro, pro casal beber em paz. Corrigindo: tentei voltar dirigindo. Leonardo é um co-piloto exigente. E com um carro daqueles, até eu seria.

Na praia, conversamos sobre televisão, sobre gente, sobre o mar, sobre as pessoas, sobre cada um de nós.

Gab, mais do que os olhos vivos, é uma menina iluminada, feliz, da paz.

Foi muito lindo ver, nas poucas horas que estivemos ali, como um cuidava do outro. Mesmo embaixo da barraca, um passava protetor no outro, mesmo nos locais onde cada um poderia passar sozinho.

Consegui ver um afeto sincero, mas não meloso, não “amorzinho”, não “benzinho”, não “vem comigo no mar?”.

Eles se brincam, se sacaneiam, tiram o cravo das costas um do outro. [Até os chiques têm cravos, como a Gab].

- Ele é paranóico, Lu.
- Você tem que cuidar, Gabriela. Vai que isso seja um câncer?
- Câncer, Leonardo? Pára de beber, cara!
- Você já foi ver esse pontinho preto?
- Isto é um cravo, Leonardo. Cra-vo!
- Nas costas?
- No corpo todo existe cravo.
- Eu vou ver depois um dermatologista e marco pra você, Gab.
- Tá bom, Leo... ta bom...

E Gab me olhava, e fazia aquela voltinha, tipo: “louco”.

Eles alongavam a perna do outro [eles corriam, nessas corridas do Aterro], e se beijavam e se amavam sem nem precisar se tocar os lábios. O olhar dos dois dizia isso. Dizia “eu te amo” sem precisar abrir a boca. Isso era o mais lindo. Existia muita coisa dita naquele silêncio.

Gab mexia no cabelo, enrolava pra cá e pra lá.

Leo se coçava. As pernas, a barriga, os braços.

Os dois estavam – estão – juntos, mas são, também, seres individuais, livres. Isso ficou claro – e muito belo – para mim.

Depois, fomos almoçar, antes de voltarmos pra casa. Comeram um bife acebolado, com muita coca-cola e, por baixo da mesa, as pernas dos dois entrelaçadas. Eu fiquei na saladinha.

Saímos da Barra já com o dia escurecendo.

- Lu, borá pro barzinho com a gente?
- Barzinho, Gab?
- É? Vamos?
- Claro que não, querida. Vai curtir seu namorado.
- Ah, mas eu curti você também, poxa.
- Eu entendi, Gab., mas eu já tou o dia inteiro com vocês. Eu vou pra casa, descansar, dormir, fazer nada. E vocês, vão se curtir, oras.
- A gente se curte, né, Leo?
- É, a gente se curte.

Ele era sério, monossilábico, observador.

- Grosso.
- Oi?
- Tou falando que você é um grosso.
- Tou prestando atenção na Luana dirigindo meu carro, Gabriela. Preciso me concentrar.

Caímos, as duas, numa gargalhada, que fez Leonardo dar um meio sorriso e, cinco segundos depois, explodir na gargalhada junto.

- Prestenção, porra! Se bater esse carro te enfio a porrada.
- A Luana dirige melhor que você, Leonardo.
- Como você agüenta esse ser humano, Gabriela?
- Ele é insuportável, né, Lu?
- Demais.
- Mas a gente ama ele, né?

Eu tirei a mão do volante e fiz um carinho no rosto dele, dizendo “amo”. Levei um susto tão grande com a sua cara que quase bati, de fato, com o carro.

- Aí, ta vendo? Vocês ficam de “eu te amo”, e faz merda. Eu te amo, Gab, mas vamos prestar atenção que aqui é difícil, ó. Lu, liga a seta, pega aí, ó, ta vendo?

Parei na minha casa, e Leonardo seguiu dali, para a casa dele, com a Gab. Gab mandou um whatsapp quando chegaram na Urca, pra me dizer se tava tudo bem: “Chegamos, Lu! Tudo certinho! Vamos nos ver de novo. Beijo, da Gab e do Leo!”.

Eu não sei do resto do dia dos dois.

Mas, se eu puder desejar alguma coisa pro resto de todos os dias é que os dois estejam juntos, plenos.

Que essa inteireza que eu vi na relação, que essa cumplicidade, respeito, carinho, amor e cuidado permaneçam.

Que eles possam tirar os cravos um do outro, alongar as pernas.

Que não precisem dizer que “te amo”, pra saber que se amam.

Que Gab possa fazer do Leo um homem melhor. Que ele mesmo se permita isso.

Que Leo possa fazer da Gab uma mulher ainda mais iluminada e feliz. Que ela não perca a sua luz e alegria, independente do Leo.

E eu, claro, desejo assistir, de camarote, este amor lindo.

Hoje, passando pela rua, vi Gab malhando. Estive em Ipanema pra resolver umas coisas e vi a moça na BodyTech, no transport.

Ela não me viu. Mas eu vi a namorada do meu amigo, de olhos fechados, concentrada, com o fone de ouvido, sorrindo – aquele sorriso bobo -, e cantando alguma coisa que tocava.

Na hora, eu pensei: que bom que ela pode ser luz e alegria mesmo quando sozinha.

Eu podia bater no vidro e dar um “Oi”, jogar um beijo.

Mas Leo podia estar dentro do pensamento dela, e eu não queria interromper o casal. Eu podia ver os dois, mesmo quando não estavam juntos.

Todo o amor, todos os dias, para esse casal lindo.

[O meu obrigada, ao casal, da vida real, por deixar ser fotografado por mim]. 

domingo, 5 de maio de 2013

Henrique

Já conhecíamos Henrique, da praia. Mas, hoje, ele pediu pra ser fotografado.

Henrique tem 48 anos - embora pareça mais -, mora em Austin (Nova Iguaçu), e é separado da esposa e filhos. É mulato, com poucos dentes (os da frente já se foram), e cabelo e barba crespos e grisalhos. Ele não tem dinheiro pra cortá-los então, crescem mais do que deseja, dando-lhe uma aparência mais suja do que, de fato, ele teria.

Mora no quarto dos fundos da casa de uma tia velha. Sempre teve problemas com álcool e, por isso, acabou separando-se. A mulher, um belo dia, saiu porta fora, com os três filhos:

- Estou indo pra casa da minha mãe, em Belford Roxo. Só volte se parar de beber. Você é um bêbado, Rique!

Esse diálogo aconteceu já faz mais de 7 anos. Henrique nunca mais viu a esposa, os filhos, e sequer parou de beber, pelo contrário: afundou na cachaça ainda mais.

Não tinha como pagar o aluguel da casa de dois quartos, na Pavuna, onde vivia com a Brenda Maria (sua Brendinha). Entregou a casa para João Roldão, seu senhorio, e, com uma mala de roupas na mão, foi procurar onde morar. Dormiu duas noites na rua, e lembrou-se da tia Ismênia, velhinha de quase 80 anos, em Austin. 

Foi para lá, sem avisar, pegando carona nas kombis, perguntando a um, a outro, chegou à rua da tia Ismênia. Bateu de porta em porta, até achá-la. A última vez que tinha estado ali foi há mais de 20 anos. Não foi difícil os vizinhos ajudarem-no a achar a casa certa.

- Tia, sou o Henrique, filho do João e da dona Francisca, lembra de mim?
- Lembro sim, meu filho. Como você está? Tá sujo... Cadê Bruna Maria?
- Brenda Maria. Ela foi embora, tia. 
- E as criança?
- Foro tudo co'ela.
- E você?
- Eu posso morar c'a senhora?
- Pode sim. Tem um quartinho nos fundos. Você só me ajuda com a conta de luz? Sua tia tá velha e não consegue mais costurar.
- Ajudo sim, tia. Vou arrumar um trabalho.

Henrique ainda ficou um ano sem conseguir emprego, só conseguindo uns bicos de de pedreiro, de pintor, de carregador de mercadoria... mas, quando vinha bêbado para o trabalho...

- Não precisamos mais dos seus serviços. Amanhã não venha mais.

E assim era Henrique.

Há cerca de 5 anos, conseguiu um emprego na Praia do Leme, com o Lima, amigo do Jorge, que os apresentou. Henrique trabalha na barraca do Lima, toda 6a feira, sábado, domingo, e feriados. No carnaval e verão, trabalha todos os dias. 

Ganha bem, pouco mais de um salário mínimo, e consegue ajudar a tia com a luz, as contas do mês, a sua passagem, e uma cachacinha por dia. 

Lima e seus colegas de trabalho nunca tiveram problema com o seu álcool e ele é feliz assim, trabalhando na praia, lugar de gente bonita e feliz.

Henrique leva e traz as cadeiras, o coco, a água, e liga e desliga a bomba d'água. Sempre foi um homem honesto e, apesar de vender cerveja e cachaça, nunca bebeu um gole no trabalho.

- Eu, apesar de pobre, preto e feio, nunca precisei roubar nada não senhora. Minha mãe criou a mim e a meus irmão tudo muito correto. Posso fazer uma experiência c'a senhora, p'á senhora vê se eu sô bom. Se eu não fô bom, a senhora diz.

Essa conversa foi com a Clara, esposa do seu Lima, sua patroa. Ela preocupou-se com a aparência e jeito bêbado de ser de Henrique, mas, hoje, são grandes amigos.

Hoje, chegamos na praia, na Barraca do Lima (nosso canto de sempre), e Henrique veio nos receber.

- Bom dia!
- Bom dia, tudo bom?
- Tudo ótimo. Duas cadeira?
- Sim, por favor.
- Vou pegar duas novinha pras freguesa. 
- Muito obrigada.

Íamos pegar as cadeira.

- Nada disso. Deixa que eu levo p'a senhora.
- A gente leva, obrigada.
- Eu gosto de tratar as freguesa bem - dizendo, sério.

Caminhamos até a beirada do mar - ele sabia onde gostávamos de ficar.

- Aqui está bom, assim, perto da água?
- Tá ótimo, muito obrigada.
- Qual o nome das senhora?
- Luana e Thaís.
- O meu é Henrique, seu criado.
- Muito obrigada, Henrique.
- Eu é que agradeço o prazer de servi-la. Meu prazer é servir bem as minha freguesa. Se as senhora quiser uma água-de-coco, um refrigerante, uma cerveja, é só pedi! Eu venho aqui trazê pras senhora.
- Obrigada, Henrique, não queremos nada não.
- Obrigado as senhora. Boa praia.
- Bom trabalho, Henrique.

Pela aparência feia e bêbada, os clientes sequer olhavam para Henrique. Todos os dias ele trabalhava bêbado. Todos os dias!

E estar bêbado era a sua forma de se proteger também. Henrique repelia contatos, repelia gente. Era como ele se defendia. 

Quando alguém o olhava no olho, do lado de dentro - sem ver pele, barba, cabelo, ausência de dente -, ele olhava, também do lado de dentro e podia fazer o que mais gostosa: servir o outro, com dedicação e amor.

[O agradecimento a Thais, por ter me feito enxergar Henrique].

[O agradecimento a @Edu_bfr e @JairolSantos, por terem me ajudado na construção de Brenda Maria].

sábado, 4 de maio de 2013

Mário ou Erick?

Eu estava na praia, no canto de sempre, as pessoas de sempre.

Ele veio de longe. Nos viu de longe

- Oi, posso deixar aqui com vocês?
- Pode sim. Deixa aqui, ó. 
- Obrigado.


Ele pousou, na areia, chinelo e camisa. Foi ao mar, com segurança, portando uma câmera num cabo comprido. Dessas, que fotografam dentro do mar. Dessas: 

Mário é seu nome. Tem 17 anos, estuda no colégio ainda. Mora com os pais, em Copacabana. 

Mário sempre foi um menino aventureiro, inquieto - mas não hiperativo. Seus pais sempre o admiraram, pelo seu jeito todo particular de ser. 

Mário é menino de muitos amigos, mas íntimos mesmo, só de dois, com quem divide a sua vida - e as suas melhores fotos. Não tem namorada, nem deseja por enquanto. 

Não sabe ainda o que vai fazer no vestibular, nem sabe se vai fazer vestibular mesmo. "Esse desejo insano por ter uma profissão, logo aos 18 anos... eu não tenho pressa", dizia ele. 

Mário, apesar de inquieto, é um menino introspectivo, sensível, com o olhar de mar. Os pais achavam que ele seria fotógrafo. "Pode ser. Quem sabe?", dizia ele.

Vimos quando Mário entrou no mar, que não estava pra peixe: as ondas fortes e o mar puxando, com sua violência, tal como um balé ritmado à sua forma.

Mário sabia dançar. Não enfrentava as ondas. Dançava com elas. Ele e a câmera. Ele sequer mergulhava nas ondas. Ficava de pé, de olhos abertos, e deixava a onda passar por cima da sua cabeça.

Ao longe, conseguíamos ver o seu sorriso e o seu olhar feliz.

Ele voltou para pegar as suas coisas, conosco.

- Oi?
- Oi.
- Você é fotógrafo?
- Não. Estou no colégio ainda.
- Quantos anos você tem?
- Dezessete.
- Você estava fotografando o mar?
- Sim. As ondas, por dentro delas.
- Que lindo. Qual o seu nome.
- Erick. Meu nome é Erick. 

Agradecemos por ele ter deixado as suas coisas conosco.

Mário (este é o nosso nome para Erick) pegou suas coisas, agradeceu, e se foi. Mas seus olhos permaneceram no mar.

[Conseguimos o facebook de Erick (ele nos deu de presente), onde conseguimos as suas fotos. Erick teve acesso a este post antes de ser publicado, e autorizou sua publicação.
Suas fotos no facebook podem ser vistas em: RJ40Graus].

Algumas das fotos de Erick, disponibilizadas por ele mesmo:







Germano

Conhecemos Germano ontem, na Lapa. Conhecemos porque ele foi fotografado a quatro-mãos. 

Germano não estava só, mas das vezes que foi fotografado, sim. 

É um homem bonito, de olhar e alma (e o sorriso?) limpos, bonitos. Vestia blusa branca, de malha, bermuda, tênis. Usa dreads no cabelo e é barbado. Tem um olhar penetrante, profundo. Achamos, inclusive, que ele namorava a moça da banda, que tocava no bar, pela forma como ele olhava para ela. O seu olhar, além de contemplador, era um olhar afetivo, calmo, do bem.

Germano tem 32 anos, e mora em Santa Teresa, numa casa grande e antiga. É botânico - e pesquisador - do Jardim Botânico. Já trabalhou no Burle Marx e em outros locais. Ele gosta, mesmo, de trabalhar no JB, de conhecer, estudar, plantar e replantar plantas. 

Ele não é do tipo que conversa com as plantas e árvores. Acha isso infantil, até. Germano sente a energia das plantas - e da natureza - e gosta da troca que ocorre no seu trabalho. Ele sai, sempre, renovado destas relações. Seu trabalho - e a natureza - o faz muito feliz. É isso que o faz ser inteiro.

Suas relações sempre foram muito satisfatórias e sempre aconteceu essa troca de energia. Com seus pais era assim. Com seus amigos. Com as pessoas que conhece ao longo da vida. 

- Eu só me relaciono com quem troca. Eu aprendi isso desde cedo, e assim é. - dizia ele.

Germano conheceu Isabella no seu trabalho. Ela ia, sozinha, ao Jardim Botânico, meditar, por entre as árvores, pelo menos duas vezes por semana. E, com isso, começaram tomando café, almoçando juntos ali por perto, conversando sobre a planta e a natureza, até ter o primeiro beijo, o primeiro toque, o primeiro sexo. Em 7 meses, estavam morando juntos. 

Germano era um homem apaixonado por Isabella. Ele a chamava de Isa ou de Bella, nunca de Isabella. Isabella, por sua vez, era uma mulher - apesar de meditativa - inquieta, inconstante. Era jornalista, e trabalhava de forma freela, escrevendo algumas matérias. 

Germano e Isabella viveram juntos por quase 3 anos. A relação sempre foi de troca, sempre teve muita energia. Apesar de casados - como ele fazia questão de dizer -, Germano e Bella eram grandes amigos. 

Ele aprendeu a meditar. Ela aprendeu a silenciar ao estar com as plantas. Ele aprendeu a cozinhar. Ela aprendeu a ficar quieta. Ok, nem sempre. 

Viajavam juntos, liam os mesmos livros, passeavam de mãos dadas, passavam as mãos pelos cabelos um do outro, se olhavam olho-no-olho um do outro. 

De uns tempos para cá, Bella vinha estando cada vez mais enigmática, cada vez mais silenciosamente triste. Germano perguntava, quando dava. Nem sempre dava, e ele também ficava silenciosamente contemplativo.

- Isa, o que você tem, minha bella?
- Nada, Germano.
- Tá acontecendo alguma coisa, Isa. Divide comigo, minha linda. Sou teu marido, teu amigo. Eu te amo.
- Eu também te amo, mas não é nada. Estou, apenas, cansada.
- Vamos viajar?
- Pra onde?
- Não sei. Pra qualquer lugar. Pra onde você quer ir?
- Daqui há quinze dias vou ter que ir a SP fazer uma matéria. Volto no dia seguinte. Vai ser rápido.
- Matéria sobre o que?
- Juliana ficou de me passar. Vou estudar ainda. Vou entrevistar um sociólogo, que tá vindo da França. Preciso estudar o cara ainda. 
- Você quer que eu te leve? Podemos ir de carro.
- Não. Eu vou de avião. A agência tá pagando. Não se preocupe, no dia seguinte estarei em casa. Só uma noite fora.
- Eu gostaria que você fosse, mas que você fosse bem. Você não tá bem.

Ela olhou pra Germano, com um sorriso que não chegava a seus olhos:

- Tou bem, meu amor. Vou tomar um banho. Vamos jantar?
- Vamos.
- Eu cozinho um macarrão ao pesto pra gente.

Isabella demorou mais que o habitual no banho, e Germano já tinha preparado o jantar dos dois, regado a um vinho tinto delicioso. Mesa posta, comida quase pronta, vinhos na taça.

Jantaram, conversaram, viram um filme irlandês na TV, fizeram um sexo. O de sempre, nada muito novo e fora da rotina. 

Germano continuava olhando-a nos olhos, tentando desvendar o indesvendável. "Não tinha nada", ela dizia. "Tinha tudo", ele via nos olhos dela. Ele continuava amando-a igual. Ela, também, ele (e ela) achavam.

No dia 9 de abril, 3a feira, era o vôo. Ele levou-a ao aeroporto, de carro, antes do trabalho, de manhã cedinho.

- Me liga quando chegar, Isa?
- Te mando um SMS.
- Tá bom.
- A Juliana vai estar me esperando em Congonhas e, se ela estiver com a equipe, não vai dar pra falar muito. Vai ser rápido, não se preocupe.
- Não estou preocupado com o tempo.
- Com o que está preocupado, Germano? - Bella era quase agressiva, inquieta.
- Eu te amo, Isabella.
Ela o beijou, calmamente, e com ternura. Olhou-o nos olhos. Mas não era mais o mesmo olhar. 

Isabella nunca mais voltou. Nenhum SMS. Nenhuma ligação. Nenhum e-mail. 

Ontem, era a primeira vez que Germano saía, após a partida de Isabella. Seu olhar, no entanto, ainda tinha ternura. Na sua alma, ainda pulsava energia e inteireza.