segunda-feira, 28 de abril de 2014

Dois anos


[A carta de um ano, aqui]

Ana Zanelli, de novo, esta carta não é para você. É para nós. Ou para mim. Para quem quiser ler, ou não. Você não lê mais onde está. Onde você está?

Esta noite tive insônia, e não lembrava bem por qual motivo. Olhando a data no celular, me lembrei. A noite de 27 para 28 de abril de 2012 foi a sua última. 

E, agora, dois anos depois, ainda sinto uma saudade grande de você. Não sempre, não todos os dias. Mas, agora, escrevendo, lembro de você com nitidez. 

Eu achei que eu fosse viver pra sempre com a minha mãe viva. Sempre. Pra sempre. Mas as pessoas morrem. Até a mãe da gente morre, veja que coisa! 

E, quando a mãe morre - quando você morreu - parece que a gente queima um diário, no fogo, que a gente escreveu desde que nasceu. Morreu a nave espacial. A casa que a gente veio ao mundo. E, toda a história que vai ser escrita, vai ser re-escrita-des-crita a partir dali: 28 de abril de 2012.

Sinto saudades de você me chamando de Quinha. Sinto saudades de você coçando minhas costas. Sinto saudades do seu pote de biscoito maisena, ao lado da cama. Sinto saudades de tantas coisas... Sinto saudades da sua risada, e até do seu silêncio. E de ver o seu celular na minha bina do meu celular, me ligando dezenas de vezes por dia. Tu era chata, hein, mermão?

E, agora, dois anos depois, a vida mudou tanto. Eu tinha tanta vontade de te contar...

"Ah, mas ela sabe onde ela estiver. Ela está feliz por você. Ela está, ela está, ela está".

Eu acredito numa vida espiritual, Ana Zanelli, embora não saiba bem como é isso. Mas eu acredito, sobretudo, que onde quer que você... (qual o verbo?), você não ESTÁ mais. 

Almas, espíritos, seres espirituais não ESTÃO mais. Nem sei se SÃO. Não importa mais.

Às vezes, eu sinto você. Às vezes, eu sonho com você (sonhos felizes ou pesadelos). E eu acordo, às vezes, com mais saudades ainda.

Mas eu queria mesmo, te contar que emagreci 42 kg. Te contar que conheci o André, e que ele é Professor de Português e Literatura! E que escreve fodamente! E que seria seu aluno da Oficina da Palavra, e que seria seu amigo. Queria te contar que me separei de pessoas, encontrei outras. Queria te contar que deixei uma vida (meia-vida) pra trás e recomecei outra. Queria te contar do meu pai e da Gaeth. Queria te contar, que, agora, deixo o cabelo curto, bem encaracolado, e descabelada, como você bem gostava.

Eu sei que gostaria de ter me despedido de você, no seu último dia, sua última noite. Mas não cheguei a tempo. "O relógio já tinha parado e vocês ainda ficavam dando corda". Eu tentei dar corda, pra poder dizer "tchau". 

Mas eu e Mônica vestimos o seu corpo - sim, porque não era mais você - com sua roupa mais confortável, que você gostava, e colocamos uma meia, pois você não gostava de dormir com os pés gelados. E penteamos você. 

Mas você já tinha ido. Já não era mais minha nave espacial. Foi voar por um lugar de saúde onde você pudesse, enfim, respirar.

E é a sua respiração livre que me faz respirar, também, e saber que, na verdade, não preciso te contar nada não. 

A vida tem acontecido do lado de cá. Muito feliz. Sei que do lado daí também. 

Viva-descanse em paz, minha velha. Todo o meu amor e agradecimento. Por ter sido minha mãe, minha AnaZ amada.

domingo, 27 de abril de 2014

Luiz Fernando e Leonardo

Estava eu vindo para o consultório, no Centro. Era esquina de Santa Luzia com México. Quase em frente ao Consulado Americano. Ali, em frente ao Banco Itaú, uma barraquinha de água de coco. Aquelas tradicionais, amarela e verde, onde o vendedor coloca o coco de cabeça para baixo, e extrai a água do coco e, em seguida, serve o cliente em um copo ou garrafinha.

Eu vinha andando pela mesma calçada do vendedor de coco – o Luiz Fernando -, quando vi Leonardo, o cliente, chegando junto. Ambos já se conheciam. Leonardo trabalhava ali perto, no SENAC, e ali era ponto de Luiz Fernando há alguns anos.

- Fala Luiz, tudo bem, cara?

- Tudo bom, seu Leonardo. E o senhor? Muito trabalho?

- É, um pouco. Final de mês é mais pesado. E aí, quente, tá brabo esse tempo, né não, irmão?

- É mesmo, tá demais. Até na sombra tá quente.

- E esse coco aí? Geladinho? Docinho?

- Acho que sim. Fica no gelo, né?

- “Acho que sim”? Tu não toma do coco não, rapá?

- Tomo não, seu Leonardo. Se tomar, paga, né? Eu sou só o vendedor, não sou patrão. Tudo contado, os coco tudo. Um coco até que caía bem, mas o moço ali me dá água da bica, aqui na garrafinha mesmo.

- Entendi.

Consegui ver Leonardo em três segundos de silêncio.

- Me vê dois cocos hoje.

- Dois? De 300 ou de 500?

- Um de 300 e um de 500.

- Dá 7 reais. Um pra viagem?

Leonardo titubeou.

- Sim. O de 500 pra viagem.

Leonardo tirou R$ 10 do bolso, pagou o coco, Luiz Fernando deu o troco (três moedas de um real), entregou o coco de 300ml, e ficou embalando o coco de 500 ml, na garrafinha. Entregou a Leonardo, dentro do saco plástico.

Leonardo tirou do saco plástico, com uma tranquilidade espantosa, e entregou a garrafinha pra Luiz Fernando.

- Toma, esse é teu.

E seguiu teu caminho.

- Que isso, rapá? Que isso, irmão?????

- Hoje tem água da bica não, Luiz. Hoje o coco é seu!

Leonardo saiu, seguindo seu rumo pro trabalho, mas ainda consegui ver Luiz Fernando, admirando a garrafinha de coco, com os olhos marejados.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Sr. Lessa e Julio

Estava eu vindo para o consultório do Centro e conheci – encontrei eles dois. A cena durou não mais que alguns segundos. Talvez um minuto.

Não sei muito bem o nome das ruas ali. Acho que Araujo Porto Alegre esquina com alguma outra (aquela continuação da Evaristo da Veiga), aquele cruzamento atrás da Biblioteca Nacional. O trânsito, no novo formato que está, no Rio de Janeiro, precisa ter um “Agente de Trânsito” praticamente a cada esquina, no Centro do Rio. Tentei encontrar o nome destes profissionais, mas li no colete do Júlio: “Agente de Trânsito”.

O rapaz, não mais que 24 anos. Todo paramentado e uniformizado. Morador de algum subúrbio-quente carioca, apesar da pele muito clara e dos olhos azuis. “Ele não se queima nestes dias quentes?”, pensei. Mas sua pele sequer estava avermelhada.

O sinal havia acabado de abrir e vi Sr. Lessa atravessando a rua, sem olhar. Era cego de um olho. Alem de estar no auge de seus 87 anos. Usava uma bengala daquelas quatro-apoios, tipo andador de criança, mas para a terceira idade.

Sr. Lessa sim, talvez fora branco em alguma época da sua vida. Agora, tinha uma pele morena, engilhada, e quase nenhum cabelo na cabeça. A barba, por fazer, denotava que, talvez, se tivesse cabelos, seriam brancos. Morava ali próximo, na Lapa, e não gostava muito de transporte. Ia e voltava para casa a pé, resolver suas coisinhas no banco. “Posso ser lento, mas esse meu apoio me ajuda”, pensava ele.

Um trajeto que Júlio faria em vinte minutos, Sr. Lessa levaria quase 1h30...

Pois bem. Sr. Lessa colocou os pés no asfalto, para atravessar. Ninguém gritou, ninguém impediu. Os carros, os da frente, ainda conseguiram pegar o sinal aberto sem atropelar o Sr. Lessa. Para os próximos – que não iriam – Julio se portou na frente do Sr. Lessa e espalmou a mão pro alto, no sentido de “PÁRA” e, incrivelmente, sequer olhou para os carros. Seu olhar era apenas para o senhor, com raros cabelos brancos.

Uma das mãos no apito – se fosse preciso usá-lo – a outra nas costas do Sr. Lessa.

Ambos, silenciosos. E lentos, muito lentos.

Sr. Lessa foi no tempo dele, sem pressa. Júlio não foi no tempo dele: foi no tempo do Sr. Lessa.

Apesar do barulho ensurdecedor das buzinas dos carros que, apesar do sinal aberto para eles, foram obrigados a deixar o Sr. Lessa passar. Vários pedestres “aproveitaram o Sr. Lessa” e também passaram, mais rapidamente.

Eu estava do outro lado da calçada e, embora quisesse atravessar, não o fiz. Esperei Julio e Sr. Lessa chegarem.

- Parabéns, garoto. Lindo o seu trabalho.

Júlio olhou e sorriu. Não disse nada. Absolutamente nada.

Sr. Lessa olhou para mim, e deu um sorriso. Sem abrir a boca. Não pude ver seus dentes. Mas ainda consegui ver seus braços soltando da bengala-de-quatro-apoios e abraçando o Júlio.

- Obrigado. Você é de ouro.

- O senhor também – dizia Júlio, quando pude, enfim, atravessar o sinal.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Em observação, no Espaço da Mulher - 4

Hoje é segunda-feira. São 19h04.

Estou no Espaço da Mulher, no curso de Liderança, com a Alba.

Ao meu lado direito, está a Fernanda. Ela é alta, magra, cabelo liso, comprido, castanho, preso num rabo de cavalo. Veste calça cinza, blusa preta e bota preta. Está sentada, de costas para mim, assistindo o curso. Está com a cabeça apoiada na mão, olhando para a Alba, que está dando aula. Passa a mão no rosto. Cruza os dedos das mãos e tem as mãos apoiadas no rosto. Ajeita-se na cadeira. Passa a mão no rosto. Apoia a cabeça nas mãos. Um dos braços está apoiado na mesa. E a outra, com a cabeça apoiada. Coça o rosto. Apoia a cabeça na mão. Cruza os dedos das mãos. Ajeita o cabelo. Tem a cabeça apoiada na mão. Olha para o outro lado, ajeita-se na cadeira.

(...)

Fernanda está sentada, de pernas cruzadas, com as mãos no meio das pernas. Olha para a Alba, dando aula. Pega o copo sobre a mesa, bebe água. Coloca o copo vazio sobre a mesa. Tem as mãos cruzadas, no meio das pernas cruzadas. Ajeita a blusa. Coloca a mão, de novo, no meio das pernas cruzadas. Faz que sim com a cabeça. Ajeita o sapato, coloca a mão na perna. Cruza os dedos, com as mãos sobre o colo. Coça a testa, ajeita o cabelo, ajeita-se na cadeira. Cruza as mãos, no meio das pernas cruzadas. Passa a mão na perna. Coloca as duas mãos, juntas, no meio das pernas cruzadas. Coça um dos braços. Coça a mão esquerda. Ajeita-se na cadeira. Pega a bolsa. Troca de cadeira. Senta mais longe de mim, de onde não consigo vê-la.

Elena passa na minha frente. Ela é alta, branca, magra. Cabelo curto, grisalho. Usa óculos. Usa calça jeans, blusa branca, sapato azul. Passa na minha frente novamente. Pega um copo na mesa.

- Quero.

- Gelada, né?

- Gelada. Obrigada.

Ela me entrega o copo cheio d’água.

- Muito obrigada.

Elena passa na minha frente novamente.

(...)

Agora, ao meu lado direito, está a Malu. Ela é alta, magra, cabelo castanho claro, liso, preso num meio-rabo. Ela veste calça jeans, blusa branca e sapato social preto. Está debruçada, sobre a mesa, com os braços na mesa. Olha para o lado direito. Olha para a Alba.

- É, no final foi o grupo todo.

Maria Lúcia cruza as pernas, ajeita-se na cadeira, tem a mão direita sobre as pernas e a outra, na mesa. Descruzou as pernas, sacoleja uma perna. Faz que não com a cabeça. Ela faz que sim com a cabeça. Ri. Ajeita-se na cadeira. Levanta e passa na minha frente. Passa na minha frente, novamente, comendo um sanduíche. Senta ao meu lado direito. Na mão esquerda, um guardanapo. Na mão direita, um sanduíche. Come o sanduíche todo. Amassa o guardanapo. Escreve algumas coisas no papel. Fecha o seu caderno, ajeita-se na cadeira e sai da mesa. Não tem ninguém ao meu lado direito, agora.

Elena passa na minha frente, olha e sorri para mim.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Em observação, no IAG

Hoje é sábado. São 7h42.

Estou numa sala, no IAG, na PUC, sozinha.

Estou sentada na primeira mesa e cadeira, aguardando o Basílio e os alunos.

Ninguém aos meus lados e nem na minha frente. Tudo iluminado e silencioso, apenas com o barulho do ar condicionado ligado.


Basílio retornou e estamos conversando.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Em observação, na Transportadora JB

Hoje é quinta-feira. São 9h12.

Estou na Transportadora JB, no Centro de Niterói, sentada na recepção.

Ao meu lado direito, uma cadeira com a minha mochila em cima.

Ao meu lado esquerdo, a porta da cozinha, fechada.

Na minha frente, Tamires sentada na recepção. Ela é branca, magra, alta, tem o cabelo preto, liso, comprido. Veste uma calça jeans, uma blusa azul sem manga e sapatilha azul.

O telefone toca.

- Grupo JB bom dia. Quem gostaria de falar? Eu vou ver se ele já chegou. Só um minuto. Giovana, da Norte Brasil. Nada.

Tamires desliga o telefone. Olha, séria, para o computador. Tem a mão apoiada no queixo. Senta de lado na cadeira e mexe no celular, enquanto mexe na blusa azul. Tem as pernas cruzadas e uma das mãos apoiada no joelho. Ajeita o cabelo. Olha para mim. Pega o telefone, põe no ouvido. Põe o telefone no gancho. Folheia um caderno. Pega o telefone novamente. Disca. Mexe no celular enquanto está com o telefone no ouvido. Coloca o telefone no gancho. Pega novamente. Disca. Olha para mim. Mexe no celular.

- O telefone dele tá chamando e ninguém atende. O outro está desligado.

- Entendi.

Ela coloca o telefone no gancho e mexe no celular.

O Alberto chega. A porta abre.

- Bom dia, tudo bem? Você é a?

- Luana.

- Oi Luana, bom dia. Eu sou o Alberto. Vamos lá?

domingo, 6 de abril de 2014

Pedro Ernesto Madeira Figo

Conheci Pedro, por acaso. Tínhamos amigos em comum, e estivemos juntos algumas poucas vezes. 

Eu moro na Tijuca, e ele já veio à minha casa, algumas vezes, com estes amigos, beber, jogar, bater papo. Ele (e os meninos) traziam uns qualquer-coisa-para-comer e eu e Augusto (o marido) providenciávamos o álcool.  

Pedro e Augusto não se conheciam, da primeira vez. Pedro foi apresentado como Pedro Ernesto e, Augusto, sem deboches, só o chamava assim.

Pedro Ernesto não tinha dito, mas preferia ser chamado assim. Era um homem enigmático.

Não sabia bem o que ele fazia, qual profissão tinha, nada. Na verdade, isso não importava muito. Não éramos (somos) amigos, apesar de eu gostar dele. Pedro Ernesto e Augusto ficaram amigos rapidamente e, Augusto me contava sobre ele:

- Saca o Pedro Ernesto? Ele é Engenheiro, mas não exerce.

- Nossa, nunca imaginei ele como engenheiro.

- Sério, por que?

- Sei lá, eu acho que ele seria qualquer-outra-coisa.

- Que coisa?

- Não sei. Não consigo analisar o Pedro.

- Pedro Ernesto, Ana. Pedro não. Pedro Ernesto. As pessoas devem ser chamadas pelo nome que elas gostam de ser chamadas.

- E o que Pedro Ernesto faz, já que não é engenheiro?

- Ele é engenheiro, só trabalha com outra coisa.

- Que coisa?

- Também não sei.

Das vezes que estivemos com Pedro Ernesto, aqui em casa, eu via um homem rindo, jogando, brincando, soltando piadas. Eu não sabia nada da sua vida, além de seu nome e de que era Engenheiro, e não exercia. Nunca me atrevi a perguntar. Nem a Augusto (eu sabia que ele sabia, mas a lealdade estava presente na remota amizade dos dois). 

Mas, o que quero falar não é de Pedro Ernesto - ou de Augusto. Quero falar sobre as minhas impressões e da fotografia que fiz de Pedro Ernesto.

Era um homem sociável, falante, brincalhão, estabanado. Mas eu conseguia ver tristeza em seus olhos. Solidão. Nos segundos entre um jogo e outro, Pedro olhava para os lados. Não para ninguém. Nem procurando nada. Apenas para fora de si. 

Augusto - observador, como a sua mulher - acompanhava o olhar dele, e fazia que sim com a cabeça, tipo "estou aqui". Pedro Ernesto sorria amarelo e voltava ao jogo. Ou ao álcool. Ou aos amigos.

Eu acho que Pedro Ernesto nunca chorou. Exceto quando sua avó morreu, há alguns anos atrás. Deve ter aproveitado a morte da sua velhinha para chorar tudo o que jamais chorara antes. E depois. 

Perdi contato com Pedro Ernesto. Nunca mais o vi. Acho que se mudou, para o interior do Rio. 

Ele mandou uma carta para Augusto. Pude ler, no envelope: "Pedro Ernesto Madeira Figo".

- Amor... Carta do Pedro Ernesto pra você. Coisa mais antiga isso, gente? Carta?

- Deixa aí, já vou ler. Obrigado.

Por acaso, vi Augusto lendo a carta. Pude ver, em seus olhos, os mesmos olhos tristes que vi de Pedro, alguns anos atrás aqui em casa.

- Tá tudo bem com Pedro, Augusto?

- Pedro Ernesto, Ana.

[Era bonito ver o respeito que ele tinha pelo amigo, pelo desejo de como ser chamado, mesmo quando não estava presente. Eu me cagava pra isso. Eles dois, não].

- Tá tudo bem com Pedro Ernesto?

Augusto só me deu um sorriso amarelo. E silencioso. 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Em observação, na Neide's Coiffeur - 4

Hoje é sábado. São 11h24.

Estou no salão Neide’s Coiffeur, em Copacabana, esperando a tinta agir no meu cabelo.

Ao meu lado esquerdo, uma cadeira vazia. Ao meu lado direito, Moisés está sentado. Ele é moreno, alto, magro, tem o cabelo curto, preto. Veste calça jeans, blusa preta (uniforme do salão) e tênis branco. Mexe no celular.

- Aquele dia que tu voltou do...

Atrás de mim, as pessoas passam, para um lado e outro do salão.

Moisés continua mexendo no celular, em silêncio. Mexe no cabelo. Continua mexendo no celular.

Uma cabeleireira passa atrás de mim.

Uma cliente passa atrás de mim, carregando uma bolsa e uma revista. A cliente novamente passa atrás de mim.

Moisés levanta e sai. Agora, ninguém ao meu lado direito e nem ao meu lado esquerdo.

A cliente novamente passa atrás de mim.

Moisés passa atrás de mim.

A faxineira passa atrás de mim, carregando uma vassoura.

Moisés passa atrás de mim.

Uma cliente passa atrás de mim.

Moisés passa atrás de mim carregando um saco plástico. Moisés passa novamente atrás de mim.

Uma manicure passa atrás de mim, carregando o potinho de colocar as mãos. A manicure passa novamente atrás de mim, carregando o mesmo potinho.

Uma cliente passa atrás de mim.

A faxineira passa atrás de mim, varrendo o chão. É mulata, magra, baixa, tem o cabelo preto, liso, preso num coque. Está vestida de bermuda branca, blusa branca e sapatilha vermelha.

Uma cabeleireira passa atrás de mim. É mulata, baixa, gordinha, cabelo curto, encaracolado. Veste calça jeans, blusa do uniforme do salão, preta, e sandália baixa, bege.

A faxineira passa atrás de mim, carregando a vassoura.

Uma cabeleireira senta ao meu lado direito, de costas para mim.

Uma manicure passa atrás de mim, carregando o pote de colocar os pés. E passa novamente atrás de mim. E passa novamente atrás de mim. É branca, baixa, magra. Tem o cabelo vermelho, liso, comprido. Veste calça jeans, blusa branca (do uniforme do salão) e sapato preto.

A faxineira passa atrás de mim.

Uma manicure passa atrás de mim. É branca, baixa, magra. Tem o cabelo comprido, preto, liso, preso num rabo de cavalo. Veste calça jeans, blusa branca (do uniforme do salão) e uma sandália baixa preta. Ela passa novamente atrás de mim. Ela passa novamente atrás de mim.

Uma manicure passa atrás de mim. É mulata, alta, magra, cabelo preto, encaracolado, na altura dos ombros. Veste calça jeans, blusa branca (do uniforme do salão) e sapatilha bege. E passa novamente atrás de mim.

(...)

Agora estou numa área do salão onde são os locais para lavar o cabelo.

Na cadeira do meu lado direito, ninguém.

- Não aguentou, né?

As pessoas passam na minha frente e ao meu lado (onde tem a parte central do salão).

Moisés passa.

Uma cliente passa. É branca, alta, magra, tem o cabelo castanho, liso, comprido. Veste um vestido azul e branco, bolsa vermelha, sandália bege.

- Qual, essa daqui ou essa daqui?

Ela senta ao meu lado.

Uma cliente passa. E passa novamente.

A faxineira passa, carregando um pano.

A cliente ao meu lado estica as pernas. Tem a bolsa no colo e os braços cruzados, sobre a bolsa.

Uma cliente passa. É branca, alta, gordinha, cabelo avermelhado, preso num coque. Veste um vestido listrado, preto e cinza e sandália branca, pochete preta. Usa óculos e carrega uma revista.

Uma manicure passa.

(...)

Voltei para o local do Moisés.

Ninguém ao meu lado direito e nem ao meu lado esquerdo.

- Aquela lá, né? Da Toneleiro. Vou malhar lá. É. Pertinho.

Agora, Moisés está atrás de mim, cortando meu cabelo. Saiu de trás de mim e foi para a frente do salão.

Uma manicure passa atrás de mim.

A faxineira passa atrás de mim.

Moisés volta para trás de mim, para cortar meu cabelo. Sai de trás de mim. Volta para trás de mim. Sai de trás de mim. Volta para atrás de mim, e agora está cortando meu cabelo.

Uma cabeleireira vem para o meu lado esquerdo.

- Fecha lá.

- Luana, tou vendo aqui. Seu cabelo aqui. Não vou conseguir tirar dois dedos não, se não, vai aparecer a nascente do seu cabelo. Vou tirar um dedo. Um dedo e meio. Tá bom. Me espera aí, que eu pedi a comida. Que na hora do almoço eu vou querer. Aí é da Luisa, ela não vai usar aí não. Senta nessa penúltima.

Um rapaz senta ao meu lado esquerdo. É branco, alto, forte.

- Desde 10h da manhã que eu tou me tremendo já. Eu por causa do remédio. E depois que eu como, pára.

Uma cabeleireira passa ao meu lado esquerdo. E passa ao meu lado direito.

- Uhum.

O rapaz que estava sentado ao meu lado esquerdo, levanta e sai.

Moisés continua cortando meu cabelo.

- Eu deixo fio reto aqui atrás, Luana? Pode, né? Vamos manter aqui maior, né? Tá.

Moisés, agora, está do meu lado esquerdo. E, agora, do lado direito cortando o cabelo.

- Medindo. Acredito. Mas seu cabelo ondula, depois de seco. Não pode é ficar muito diferente. Porque tem um lado que ondula mais do que o outro. E aí, amor?

Uma cabeleireira pára do meu lado direito.

Agora, Moisés está ao meu lado esquerdo. Agora, atrás de mim. Agora, do meu lado direito. Agora, atrás de mim. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

Em observação, no consultório (Centro) - 13

Hoje é quinta-feira. São 15h13.

Estou no consultório do Centro, dentro da sala de atendimento, sentada no divã, esperando paciente de 15h30.

Por aqui, porta e janela fechadas e luzes acesas. Tudo silencioso, apenas com o barulho do ar condicionado.