domingo, 6 de abril de 2014

Pedro Ernesto Madeira Figo

Conheci Pedro, por acaso. Tínhamos amigos em comum, e estivemos juntos algumas poucas vezes. 

Eu moro na Tijuca, e ele já veio à minha casa, algumas vezes, com estes amigos, beber, jogar, bater papo. Ele (e os meninos) traziam uns qualquer-coisa-para-comer e eu e Augusto (o marido) providenciávamos o álcool.  

Pedro e Augusto não se conheciam, da primeira vez. Pedro foi apresentado como Pedro Ernesto e, Augusto, sem deboches, só o chamava assim.

Pedro Ernesto não tinha dito, mas preferia ser chamado assim. Era um homem enigmático.

Não sabia bem o que ele fazia, qual profissão tinha, nada. Na verdade, isso não importava muito. Não éramos (somos) amigos, apesar de eu gostar dele. Pedro Ernesto e Augusto ficaram amigos rapidamente e, Augusto me contava sobre ele:

- Saca o Pedro Ernesto? Ele é Engenheiro, mas não exerce.

- Nossa, nunca imaginei ele como engenheiro.

- Sério, por que?

- Sei lá, eu acho que ele seria qualquer-outra-coisa.

- Que coisa?

- Não sei. Não consigo analisar o Pedro.

- Pedro Ernesto, Ana. Pedro não. Pedro Ernesto. As pessoas devem ser chamadas pelo nome que elas gostam de ser chamadas.

- E o que Pedro Ernesto faz, já que não é engenheiro?

- Ele é engenheiro, só trabalha com outra coisa.

- Que coisa?

- Também não sei.

Das vezes que estivemos com Pedro Ernesto, aqui em casa, eu via um homem rindo, jogando, brincando, soltando piadas. Eu não sabia nada da sua vida, além de seu nome e de que era Engenheiro, e não exercia. Nunca me atrevi a perguntar. Nem a Augusto (eu sabia que ele sabia, mas a lealdade estava presente na remota amizade dos dois). 

Mas, o que quero falar não é de Pedro Ernesto - ou de Augusto. Quero falar sobre as minhas impressões e da fotografia que fiz de Pedro Ernesto.

Era um homem sociável, falante, brincalhão, estabanado. Mas eu conseguia ver tristeza em seus olhos. Solidão. Nos segundos entre um jogo e outro, Pedro olhava para os lados. Não para ninguém. Nem procurando nada. Apenas para fora de si. 

Augusto - observador, como a sua mulher - acompanhava o olhar dele, e fazia que sim com a cabeça, tipo "estou aqui". Pedro Ernesto sorria amarelo e voltava ao jogo. Ou ao álcool. Ou aos amigos.

Eu acho que Pedro Ernesto nunca chorou. Exceto quando sua avó morreu, há alguns anos atrás. Deve ter aproveitado a morte da sua velhinha para chorar tudo o que jamais chorara antes. E depois. 

Perdi contato com Pedro Ernesto. Nunca mais o vi. Acho que se mudou, para o interior do Rio. 

Ele mandou uma carta para Augusto. Pude ler, no envelope: "Pedro Ernesto Madeira Figo".

- Amor... Carta do Pedro Ernesto pra você. Coisa mais antiga isso, gente? Carta?

- Deixa aí, já vou ler. Obrigado.

Por acaso, vi Augusto lendo a carta. Pude ver, em seus olhos, os mesmos olhos tristes que vi de Pedro, alguns anos atrás aqui em casa.

- Tá tudo bem com Pedro, Augusto?

- Pedro Ernesto, Ana.

[Era bonito ver o respeito que ele tinha pelo amigo, pelo desejo de como ser chamado, mesmo quando não estava presente. Eu me cagava pra isso. Eles dois, não].

- Tá tudo bem com Pedro Ernesto?

Augusto só me deu um sorriso amarelo. E silencioso. 

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