segunda-feira, 21 de abril de 2014

Sr. Lessa e Julio

Estava eu vindo para o consultório do Centro e conheci – encontrei eles dois. A cena durou não mais que alguns segundos. Talvez um minuto.

Não sei muito bem o nome das ruas ali. Acho que Araujo Porto Alegre esquina com alguma outra (aquela continuação da Evaristo da Veiga), aquele cruzamento atrás da Biblioteca Nacional. O trânsito, no novo formato que está, no Rio de Janeiro, precisa ter um “Agente de Trânsito” praticamente a cada esquina, no Centro do Rio. Tentei encontrar o nome destes profissionais, mas li no colete do Júlio: “Agente de Trânsito”.

O rapaz, não mais que 24 anos. Todo paramentado e uniformizado. Morador de algum subúrbio-quente carioca, apesar da pele muito clara e dos olhos azuis. “Ele não se queima nestes dias quentes?”, pensei. Mas sua pele sequer estava avermelhada.

O sinal havia acabado de abrir e vi Sr. Lessa atravessando a rua, sem olhar. Era cego de um olho. Alem de estar no auge de seus 87 anos. Usava uma bengala daquelas quatro-apoios, tipo andador de criança, mas para a terceira idade.

Sr. Lessa sim, talvez fora branco em alguma época da sua vida. Agora, tinha uma pele morena, engilhada, e quase nenhum cabelo na cabeça. A barba, por fazer, denotava que, talvez, se tivesse cabelos, seriam brancos. Morava ali próximo, na Lapa, e não gostava muito de transporte. Ia e voltava para casa a pé, resolver suas coisinhas no banco. “Posso ser lento, mas esse meu apoio me ajuda”, pensava ele.

Um trajeto que Júlio faria em vinte minutos, Sr. Lessa levaria quase 1h30...

Pois bem. Sr. Lessa colocou os pés no asfalto, para atravessar. Ninguém gritou, ninguém impediu. Os carros, os da frente, ainda conseguiram pegar o sinal aberto sem atropelar o Sr. Lessa. Para os próximos – que não iriam – Julio se portou na frente do Sr. Lessa e espalmou a mão pro alto, no sentido de “PÁRA” e, incrivelmente, sequer olhou para os carros. Seu olhar era apenas para o senhor, com raros cabelos brancos.

Uma das mãos no apito – se fosse preciso usá-lo – a outra nas costas do Sr. Lessa.

Ambos, silenciosos. E lentos, muito lentos.

Sr. Lessa foi no tempo dele, sem pressa. Júlio não foi no tempo dele: foi no tempo do Sr. Lessa.

Apesar do barulho ensurdecedor das buzinas dos carros que, apesar do sinal aberto para eles, foram obrigados a deixar o Sr. Lessa passar. Vários pedestres “aproveitaram o Sr. Lessa” e também passaram, mais rapidamente.

Eu estava do outro lado da calçada e, embora quisesse atravessar, não o fiz. Esperei Julio e Sr. Lessa chegarem.

- Parabéns, garoto. Lindo o seu trabalho.

Júlio olhou e sorriu. Não disse nada. Absolutamente nada.

Sr. Lessa olhou para mim, e deu um sorriso. Sem abrir a boca. Não pude ver seus dentes. Mas ainda consegui ver seus braços soltando da bengala-de-quatro-apoios e abraçando o Júlio.

- Obrigado. Você é de ouro.

- O senhor também – dizia Júlio, quando pude, enfim, atravessar o sinal.

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