domingo, 29 de setembro de 2013

Em observação, no consultório (Centro)

Hoje é segunda-feira. São 16h57. Estou no consultório, no Centro, aguardando a paciente.

Estou sentada no sofá. Estou sozinha e silenciosa.

Apenas o barulho do ar condicionado interrompe o silêncio desta tarde.

Meu celular bipa. É um email que chegou no gmail.

Volto para o silêncio, com o pequeno barulho do ar condicionado.

A campainha toca. Saio da sala de atendimento e vou abrir a porta.

- Oi.

- Oi. Tem lixo aí, doutora?

- Um copinho só. – pego um copo no lixo da recepção e entrego a ele.

- Obrigado.

- Obrigada a você. Bom trabalho.

- Obrigado, pra senhora também.

Fecho a porta e volto para a sala de atendimento.

Meu celular bipa. São duas mensagens do André no whatsapp.

Volto para o silêncio, com o pequeno barulho do ar condicionado.

Meu celular bipa. Mais uma linda mensagem de André, no whatsapp, que me deixa com os olhos marejados.

Volto para o silêncio, com o pequeno barulho do ar condicionado.

Meu celular bipa. Mais uma mensagem do André no whatsapp.

Volto para o silêncio, com o pequeno barulho do ar condicionado.



domingo, 22 de setembro de 2013

Armando e Isabela


A praia, sempre a mesma. Mesmo canto. Mesmas amigas. Os mesmos habitués de Praia do Leme. 

O mar, no entanto, não era o mesmo. Nesse dia, tinha um quê de agressivo. 

Não gosto de chamar a natureza de "agressiva"; ou de dizer que "a natureza devolve o que fazemos com ela". Acho deveras determinista, ou fatalista, ou pessimista. 

O mar, no entanto, não estava para peixe. No pouco tempo que ficamos na nosso canto, vimos três ou quatro afogamentos. Uma criança, inclusive, foi lambida pela onda do mar, bem na beiradinha. O salva-vidas (eu admiro estes profissionais) viu imediatamente na hora e conseguiu resgatar o pequeno antes que o mar o engolisse. 

Mas este não é para contar do meu dia na praia, no mar. Mas, sim, para fotografá-los. Incrivelmente, apesar de tratar de pais-e-filhos, este conto não fala de mães. Como se o pai do conto é que estivesse, há anos atrás, grávido.

O pai, Armando; a pequena, Isabela. Ele, 37 anos; ela, três.

Armando foi pai "tarde", como os amigos diziam. Ele mesmo nunca pensou na possibilidade de ter filhos, até chegar Renzo, seu mais velho, de cinco. Pôde exercer a paternidade, no entanto, "com a sua baixinha", como ele se referia à sua miúda.

Isa, desde que nasceu, sempre foi mais grudada com o pai. Ele, que não era marinheiro de primeira viagem, já sabia trocar fraldas e, pela mãe não ter tido leite, ele mesmo alimentava a pequena. Sabia a temperatura do leite, a quantidade da mamadeira, a angulação da mamadeira para a neném não engasgar. 

Armando gostava de exibir a filha. Ia ao mercado, levava a filha; ia ao banco, levava a filha; ia ali, só comprar o jornal, levava a filha. Esses episódios, mesmo com a pequena Isa recém-nascida.

Apesar do grude dos dois, Isabela era, também, uma criança livre. Foi criada no estilo "brinca com o que quiser", "deixa a criança se divertir sozinha", "deixa ela brincar de carrinho com o irmão, que que tem?".

Antes de dormir, Armando lia para Isabela que, apesar de ainda não saber ler, ouvia as histórias atenta, até um dos dois acabar adormecendo. Ela não tinha nem quatro meses e Armando já lia para a filha. 

Domingo de manhã, antes de ir à praia, ele gostava de ler o caderno dos esportes. Até isso ele lia para a filha. Os amigos sacaneavam; a empregada sacaneada; a sogra sacaneava. 

- Porra, a criança gosta! Precisa ver a cara dela!

- A criança gosta de você, Armandinho, é diferente. Pra ela, se você ler Chapeuzinho Vermelho ou a notícia sobre seu time, a cara dela vai ser a mesma!

Mas Armando (e Isabela) sabiam que não era bem assim. Da relação dos dois, só os dois entendiam.

Falando dessa liberdade - e desse grude - vi a criança, na praia, correndo para lá e para cá, no meio das pessoas, em direção ao mar. Não ouvi um grito de "cuidado!", "cadê a mamãe?!", "cuidado com o mar!".

Isabela sabia cuidar de si. Ainda assim, Armando não tirava o olho da sua baixinha, mesmo quando os amigos achavam que não.

Armando estava na beira do mar, conversando-fiado-sobre-futebol, com os "amigos de domingo", quando Isabela veio correndo, pelas costas dele, e se agarrou às pernas do pai. 

O "pai-grande" a pegou no colo que, como um grude infinito e para toda a vida, se enganchou pernas e braços nesse pai e ficou, ali, aninhada, no melhor colo do mundo, só ouvindo as conversas de futebol, que tanto gostava.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Em observação, na Cortrel - 3

Hoje é quinta-feira. São 9h31. Estou na CORTREL, no Leblon, aguardando ser atendida para trocar o curativo do meu pé.

Estou sentada na recepção, com cerca de outras 20 ou 30 pessoas. Estou em uma fileira de cadeiras. Do meu lado direito, não há ninguém.

Do meu lado esquerdo, tem uma senhora de cerca de 65 anos. Veste calça preta, blusa estampada, branca, preta e verde, sandália preta. É alta, nem magra nem gorda. Tem o cabelo alorado, preso, e é bem bonita. Carrega uma bolsa beje. Sobre a bolsa, alguns papéis e a senha 040, para a fisioterapia. Abre a bolsa e mexe em algo dentro dela. Ela levantou do meu lado e trocou de lugar.

Na minha frente, uma senhora de cerca de 70 anos. Usa calça jeans, blusa social verde água, sandália cinza, e bolsa cinza sobre seu colo. É magra, alta, loira, e usa óculos. Está lendo o Jornal O Globo. Dobrou o jornal e pôs em cima da bolsa. Pegou a bolsa, ajeitou no colo. Colocou o óculos preso na blusa e olhou para a televisão, presa na parede. Tem a mão no queixo. Olha para mim. Olha para a televisão. Olha para as pessoas que vem e vão.

Uma senhora passa na minha frente.

A senhora na minha frente olha para ela passando. Olha para mim. Agora, fecha os olhos e tem os braços cruzados.

Um senhor com uma criança passam na minha frente. O senhor (o pai) murmura:

- Paciente Tomás...

A criança passa, sorrindo.

A senhora na minha frente continua de olhos fechados e braços cruzados. Ela bate os pés no chão. Coça a testa. Abre os olhos e olha para a televisão.

Uma senhora passa na minha frente.

A senhora na minha frente olha para essa senhora que passa. Olha para os balcões da recepção. Bate os pés no chão. Olha para a televisão. Descruza os braços. Abre a bolsa cinza. Fecha e cruza as mãos sobre seu colo. Bate os pés no chão. Ajeita o cabelo. Seu nome é Tereza Cristina. Ela foi chamada, na recepção, levantou e entrou na porta que dá acesso aos consultórios.

Agora, ninguém ao meu lado e ninguém na minha frente.

- Luana, consultório seis.

- Obrigada!

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Fui atendida pelo doutor Pedro e, agora, estou em uma recepção interna, aguardando ser atendida para trocar o curativo.

Tomás está sentado ao meu lado esquerdo. (Seu pai está sentado do seu outro lado). É uma criança de cerca de 4 anos. Veste uma bermuda verde, uma blusa branca, um chinelo branco e azul e brinca e murmura com um brinquedo de Lego. Tomás é branco, baixinho, magrinho, tem o cabelo escuro e os olhos claros. Tomás tem os pés cruzados, no ar. E o seu brinquedo é um avião, feito de Lego.

- Pai, eu quero ver o Rafael jogando.

Uma senhora passa na nossa frente, no corredor.

- Eu acho que... quatro...

Uma senhora passa na nossa frente, no corredor.

Tomás, agora, permanece silencioso, brincando com o seu avião de Lego. Descruzou as pernas e balança os pezinhos pequenos.

- Senhora Luana?

- Oi, tou indo. Tchau, Tomás.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Em observação, na Clínica Emílio Amorim

Hoje é terça-feira. São 10h15. Estou na recepção da Clínica Emílio Amorim, aguardando exame.

Estou sentada em um canto da recepção, onde tem várias cadeiras e exatamente 17 pessoas aguardando, como eu, seus exames.

Nas cadeiras exatamente à minha frente, não há ninguém. Do meu lado direito, três cadeiras vazias e, na quarta cadeira, um senhor. Na cadeira à minha esquerda, uma senhora no celular.

- Uhum. Uhum. É. Eu acho. Mais prático, né? Uhum. Uhum. Tá. A Nanda é que não tá passando bem. Dor de barriga. Muita dor. A única coisa que eles tomaram igual foi um suco de fruta de conde. Só. É. Uma dor atravessada na barriga. Ele mandou ficar de olho, mandou receitar lá o Floratil. Não. Não vai e volta. É uma dor de cólica. Mas vamos ver. Estou de orelha em pé. Hã? Já dei entrada nos documentos e tou bebendo água. Estou aguardando, o médico está atrasado. Tá bom. Tá bem. Beijo, tchau.

A senhora desliga o celular.

Ela veste calça branca, blusa estampada, casaco verde, e sapato alto marrom. Tem cerca de 45 / 50 anos. É magra, baixa, cabelo liso, meio alorado.

O senhor à minha direita saiu. E sentou um outro senhor na minha frente.

O senhor aparenta ter 80 anos. Veste uma calça marrom, blusa social quadriculada, azul, sandália marrom. É branco, bem engilhadinho e magro, usa óculos e tem o cabelo ralo, branco. Com a mão no rosto, ele observa as pessoas que entram na clinica. Levantou-se e saiu.

A senhora ao meu lado esquerdo usa, agora, óculos. Tem as pernas cruzadas. Pegou e ajeitou a bolsa. Mexe no celular, atenta.

Neste momento, ninguém ao meu lado direito e ninguém na minha frente.

O celular da senhora ao meu lado esquerdo é um iphone, com uma capa estilosa, bonita. Ele digita algumas coisas no celular.

Um senhor passa por mim e senta na minha frente. Veste calça social preta, blusa pólo beje, sapato preto. É alto, branco, bem magro. Tem cerca de 40 anos. Tem as pernas cruzadas e assiste a televisão, no alto, sério.

A senhora pára de mexer no celular, olha para a televisão, olha as unhas, volta a mexer no celular.

O senhor na minha frente levantou e saiu.

A senhora ao meu lado continua mexendo no celular. Ela se levanta e anda, na minha frente.

O senhor volta e senta na minha frente, no mesmo lugar de antes. Permanece na mesma posição que já estava: pernas cruzadas. Agora, o celular na sua mão e uma pasta, com possíveis exames dentro.

A senhora que estava ao meu lado volta caminhando, senta no mesmo local de antes, com um copo de água, que bebe. Fica na mesma posição, e continua mexendo no celular, com uma mão, e com o copo d’água, na outra mão. Ela coloca o copo da cadeira ao seu lado, onde está a sua bolsa. Espanta algo na sua blusa e continua mexendo no celular.

O senhor à minha frente, agora, mexe no celular.

A senhora ao meu lado bebe toda a água do copo, coloca o copo vazio no banco ao seu lado e continua, séria, mexendo no celular.

O senhor à minha frente volta a olhar para a televisão.

A senhora ao meu lado pega as suas coisas, se levanta e sai. O nome dela é dona Emília. Chamaram por ela na recepção, que fica em outra sala.

O senhor à minha frente tem os olhos fechados e parece cochilar. Abre os olhos, atende o celular.

- Oi Téo. Obrigado, Téo.

Ele desliga o celular e volta a assistir a televisão, sério.

Emília volta e senta-se no mesmo lugar. Traz mais um copo d’água e, agora, sem pernas cruzadas, lê um papel na sua mão. Guarda-o na sua bolsa. Fecha a bolsa. Cruza as pernas, e volta a mexer no celular.

O senhor à minha frente mexe no celular. Volta a olhar para a televisão, sério. Fecha os olhos e aparenta cochilar. Abre os olhos e volta a assistir televisão.

Emília bebe água. Coloca o copo – ainda com água dentro – do banco ao seu lado, onde está sua bolsa. Continua a mexer no celular, séria.

O senhor à minha frente fecha os olhos e, claramente, cochila, pois sua cabeça pende para o lado. Ele acorda, mexe no celular e volta a cochilar, com a cabeça pendendo para o lado. Chega a ter um bico e é engraçado. Ele é um homem bonito, mas, dormindo, todo mundo é indefeso e engraçado.

Emília também é muito bonita e elegante. No entanto, permanece séria e imóvel o tempo todo, sem tirar os olhos do celular.

O senhor à minha frente continua cochilando e, agora, a cabeça pendeu para a frente. E, para o lado. Ele abre a boca. E fecha. Respira profundamente. Levantou. Trocou de lugar e sentou ao meu lado direito. Fica na mesma posição que já estava, com a pasta e o celular no banco ao lado. Ele levanta e sai. Foi chamado. Seu nome é Bernardo Marcelo. Engraçado que ele tinha cara, mesmo, de Marcelo.

Agora, na minha frente e ao meu lado direito não há ninguém. Permaneço observando, apenas Emília, imóvel, que não pára de mexer (e de tirar o olho) de seu iPhone com a capa estilosa. Ela levanta os olhos e assiste televisão. Volta a olhar para o celular, séria.

Uma senhora passa pela minha frente e sai dessa recepção.

Emília olha para a televisão. Pega a água ao seu lado e bebe. Pousa o copo ao lado. Olha as suas unhas. Descruza as pernas e cruza no sentido inverso. Continua mexendo no celular. Ela pigarreia. Continua mexendo no celular. Guarda o celular na bolsa, descruza as pernas, espreguiça e olha para a televisão. Boceja, coloca o óculos preso na sua blusa, cruza a perna no sentido inverso e olha para a televisão. Olha para as unhas, pega o copo ao seu lado (no banco) e levanta, e anda na minha frente. Ela volta com uma revista na mão. Coloca o copo no banco ao lado, cruza as pernas, pigarreia. Coloca os óculos no rosto e, começa a folhear a revista, pousada na sua coxa. Ela coça a testa e volta a pousar as duas mãos na revista: uma segurando-a e a outra, folheando-a. Coça a nuca, olha as unhas, e volta a folhear a revista. Coça a nuca, volta a folhear a revista. Ela põe a revista de lado, cruza os braços e fica assistindo a televisão, séria. Agora, Emília tem braços e pernas cruzadas. Ela descruza as pernas e cruza-as no sentido inverso. Descruza os braços, ajeita o casaco, tira o óculos e prende-o na blusa. Tem as mãos cruzadas, pousadas no seu colo. Esfrega as mãos.

Uma senhora com problemas na perna passa pela nossa frente e sai da recepção.

Emília permanece sentada ao meu lado. Pernas e braços cruzados, olhando para a televisão, séria. Pega alguma coisa na sua bolsa. O celular, claro! Fica olhando para o mesmo. Tira os óculos preso na sua roupa e coloca-o no rosto. Pernas cruzadas, mexendo no celular, séria. Coça o rosto, olha para a televisão e volta a mexer no celular. Olha para a televisão, volta a mexer no celular, coça a sua perna, olha para a televisão, volta a mexer no celular. Guarda-o na bolsa, no banco ao seu lado. Tira os óculos do rosto, põe preso na sua roupa, passa a mão no rosto, suspira e cruza os braços. Agora, permanece séria, de braços e pernas cruzados, olhando para a televisão. Coça a nuca. Olha as suas unhas. Pousa as mãos, cruzadas, no seu colo. Continua assistindo televisão. Olha as unhas e cruza os braços. Descruza os braços, olha as horas, coça o olho. Fica com a mão no queixo, ajeita o cabelo, volta a pousar a mão no queixo.

- Senhora Luana?


Me levanto e saio. São, exatamente, 11h10. Fiquei exatamente 55 minutos em exercício de observação de Emília, Bernardo Marcelo e pessoas que vem e vão.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Em observação, no COB - 3

Hoje é quinta-feira. São 11h18 e estou no COB – Centro Oftalmológico de Botafogo. Estou na recepção, aguardando ser atendida.

São várias fileiras de cadeiras, com quatro cadeiras cada.

Estou na terceira fileira de cadeiras, na cadeira mais próxima da parede. Na minha frente, não há ninguém: três cadeiras estão vazias. Do meu lado direito, tem parede.

Do meu lado esquerdo tem uma moça sentada. Ela veste um vestido curto, preto, casaco marrom, sapatilha beje, bolsa marrom, que permanece no seu colo. Aparenta ter cerca de 36 anos. É branca, nem magra, nem gorda, cabelo curto, liso, avermelhado. Come uma barrinha de cereais e olha para a televisão. Tem as pernas cruzadas. Descruzou. Morde a barrinha de cereais. Tem as mãos pousadas sobre a bolsa. Olha para as pessoas que entram e saem da recepção da clinica (que fica à nossa esquerda). Olha para a televisão (na parede, na nossa frente). Morde a barrinha de cereais. Olha para as  pessoas que vão e vem. Morde e acaba com a barrinha de cereais. Dobra o pacote de barrinha de cereais, enquanto olha para a televisão. Olha para as pessoas que vão e vem. Olha para o pacote da barrinha, na sua mão. Olha para as pessoas que vão e vem. Olha as horas. Olha para as pessoas que vão e vem. Olha para a televisão. Olha para o pacote da barrinha. Olha para as pessoas que vão e vem. Olha para a televisão. Cruza as pernas. Olha para as pessoas que vão e vem. Olha para a televisão. Tem as mãos cruzadas, sobre a bolsa. Descruzou as pernas. Olha para o balcão da recepção. Mexe no pacote da barrinha, agora, olhando para a televisão. Olha para as pessoas que vão e vem. Olha para a televisão.

(Percebo um pêlo branco no seu vestido preto. Parece de gato).

Olha para as pessoas que vão e vem. Olha para a televisão. Olha para as suas mãos. Cruza as mãos sobre a bolsa. Cruza as pernas. Suspira. Olha para a televisão. Coça o olho. Olha para o pacote de barrinhas na sua mão. Olha as horas. Olha para a senhora sentada ao seu lado. Olha para a televisão.

Uma senhora senta à minha frente, na cadeira anteriormente vazia. Veste calça preta, tênis branco, casaco beje, e blusa verde. Ela levanta e sai. A cadeira, agora, permanece vazia.

A senhora do meu lado, continua mexendo no pacotinho da barrinha de cereal, sem tirar os olhos da televisão. O nome dela é Andréia Moreira. Chamaram por ela, ela levantou e saiu.

A cadeira ao meu lado esquerdo e a cadeira à minha frente, agora, permanecem vazias.

Uma moça senta ao meu lado esquerdo (onde antes estava a Andréia). Usa calça jeans, blusa cinza, bota marrom, e bolsa marrom, sobre seu colo, com o celular da Samsung em cima da bolsa. Ela é magra, baixa, e deve ter menos que 30 anos. Tem o cabelo comprido, liso. Tem as pernas cruzadas. Mexeu no cabelo. Agora, mexe no celular. Coçou o rosto. Descruzou as pernas. Está curvada para a frente, mexendo no celular.

A moça que anteriormente estava sentada à minha frente, voltou.

A moça ao meu lado esquerdo recostou-se na cadeira e cruzou as pernas. Coçou a nuca e a cabeça. Olha para a televisão. Mexe no celular.

A moça a minha frente olhou para mim e sorriu. A bolsa verde sobre o seu colo. Aparenta ter 45 anos. É magra, baixa. Tem o cabelo ruivo, bem curto, e olhos verdes.

A moça ao meu lado olha a televisão. Mexe no celular. Coça a cabeça, suspira. Olha as pessoas que vem e vão. Solta o cabelo que estava preso em um coque.

- Senhora Luana!

- Oi.

- Aguarda aqui, agora. A doutora Eliane vai te chamar.

- Ok, obrigada.

Estou, agora, em uma recepção interna, sentada em uma única fileira de cadeiras. Estou na primeira cadeira da fileira e ao meu lado não há ninguém sentado. Do meu lado direito tem as salas de atendimento. Na minha frente, a porta que dá acesso a outra recepção. E, exatamente aqui onde estou, um corredor na minha frente.

Uma senhora passa na minha frente. Usa calça jeans, casaco verde, sapato preto e blusa vermelha. Aparenta ter cerca de 70 anos.

Uma recepcionista passa na minha frente, mexendo no celular.

Uma senhora passa na minha frente. Usa calça preta, blusa preta, casaco vermelho, sandália preta. Usa uma bolsa preta e tem o cabelo curto, liso, alorado. É bem baixinha e magrinha. Tem cerca de 70 anos.

Uma médica passa na minha frente.

Um senhor passa na minha frente.

A médica passa, novamente, na minha frente.

Uma recepcionista passa na minha frente. E passa de volta.

Um senhor passa na minha frente. Usa calça jeans, blusa pólo azul listrada, sapato preto. É magro, alto, branco e careca. Aparenta ter cerca de 45 / 50 anos.

Uma moça passa na minha frente. Passa de volta.

Uma senhora passa na minha frente. Usa calça jeans, blusa estampada, sapato marrom, bolsa marrom. É loira, cabelo curto, e usa óculos. Aparenta ter cerca de 48 anos, e parece ser gringa.

A doutora Eliane passa na minha frente.

Um rapaz passa na minha frente. Usa calça jeans, blusa social xadrez, All Star vermelho e mochila preta. Aparenta ter 24 anos. É magro, alto, cabelo preto, liso.

Um rapaz passa na minha frente. Usa bermuda jeans, chinelo preto e blusa polo preta. É magro, alto, mulato, e aparenta ter 27 anos.

Um rapaz passa na minha frente.

A senhora velhinha de cerca de 70 anos passa na minha frente.

A doutora Eliane passa na minha frente.

O senhor de blusa polo listrada azul passa na minha frente.

A doutora Rivla passa na minha frente.

- Luana? Vamos lá?

- Oi, tou indo. Obrigada.

Em observação, na Cortrel - 2

Hoje é quinta-feira. São 10h02. Estou na Cortrel, no Leblon, para trocar meu curativo do pé.

Estou na recepção, onde tem cerca de 30 pessoas, aguardando atendimento médico (de emergência e agendado) e fisioterapia. Estou sentada numa fileira de cadeiras, com 7 cadeiras.

Na minha frente, todas as cadeiras estão com pessoas sentadas. Ao meu lado esquerdo, duas cadeiras vazias. Ao meu lado direito, duas cadeiras vazias.

Exatamente na minha frente, uma senhora está sentada. Aparenta ter cerca de 60 ou 70 anos. Veste uma calça branca, blusa e casaco cinza, bolsa beje, escrito ITATIAIA, RIO DE JANEIRO e um tênis cinza. É japonesa, branca, baixinha e magrinha. Tem o cabelo liso e curto e usa óculos. Está com alguns papéis na mão e olha para o rapaz, ao seu lado. Olha para a frente.

Ao meu lado direito, sentou uma senhora, que deve ter cerca de 40 anos. Usa calça preta, blusa branca, casaco estampado (lindo!) branco e preto, e sapatilha preta. Tem as unhas pintadas de um esmalte vermelho bonito. É mulata, alta, magra. Tem o cabelo curto, preso no alto da cabeça. Usa óculos preto. Tem os pés cruzados e balança as pernas, vagarosamente.

A senhora à minha frente balança as pernas, e pára.

A senhora ao meu lado coçou a nuca, pegou a sua bolsa ao lado, se ajeitou na cadeira. Sua bolsa é verde. Está balançando as pernas e conversando com a moça que está ao seu lado direito.

- Muita coisa, né? Isso aí é muita coisa.

A senhora à minha frente olha, fixamente, para os balcões da recepção. Ela tem um jeito sério.

A senhora ao meu lado direito olha, também, para a recepção e para as pessoas à sua frente. Abre a sua bolsa, e a fecha em seguida. Tem as mãos cruzadas sobre a bolsa. Os pés cruzados se balançam. Ela coça o rosto. Olha para a televisão (na parede do nosso lado esquerdo) e volta a olhar para as pessoas à frente. Ela olha para trás. Ela olha para a televisão e, em seguida, para mim.

- Senhora Luana, consultório seis.

- Oi, tou indo. Obrigada.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Em observação, no Sergio Franco - 2

Hoje é quinta-feira. São 6h48. Estou no Laboratório Sérgio Franco, no Leblon, em uma grande recepção, aguardando ser atendida.

Estou sentada em uma fileira de cinco cadeiras. Na minha frente, um pequeno corredor que dá acesso a outras áreas do Laboratório e uma pequena área com quatro cabines de atendimento. À minha direita, uma cadeira vazia. À minha esquerda, idem.

Um rapaz sai de um desses guichês. Veste jeans e blusa de manga comprida preta.

Uma atendente sai de um desses guichês.

- Flávio.

Um rapaz entra no guichê com ela.

Uma senhora passa pelo corredor, que fica à minha frente.

- Luana Oliveira

- Oi, estou indo.

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São 7h09. Ainda estou no mesmo Laboratório, só que, agora, em outra recepção. Do meu lado direito, um corredor, por onde as pessoas passam. Do meu lado esquerdo, quatro cadeiras vazias. Na minha frente, um arco com 12 cadeiras em semi-círculo. Estou sentada bem na entrada desta recepção, onde as pessoas passam e entram.

Bem na minha frente, um rapaz está sentado. Veste uma bermuda florida, um casaco branco do Fluminense, uma meia cinza e um tênis branco, com detalhes em preto e vermelho. Ele é magro e alto. Aparenta ter cerca de 30 anos. Aparenta, também, ser muito sério. É branco, cabelo liso, e usa óculos. Carrega uma pasta cinza, que está sobre seu colo. Tem as pernas cruzadas. Descruzou. Olha para algo, atrás de mim, imóvel. Cruzou os pés e esticou as pernas, à frente.

Descobri que seu nome é Flávio. A atendente o chamou e ele se levantou e foi.

Agora, estou sozinha nesta área da recepção.

- Senhora Luana?

Levantei-me, em silêncio, e fui.

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São 7h17. Ainda estou no mesmo Laboratório, só que, agora, em uma sala de coleta. Na minha frente, a porta de entrada desta sala. A cada um dos meus lados, uma cadeira igual a que estou sentada, ambas vazias.

A técnica passou na minha frente. Está vestida toda de branco: calça branca, jaleco branco, sapato branco, cabelo preso. É alta, magra, branca, cabelo liso, escuro. E passou novamente na minha frente. E passou novamente na minha frente. E passou novamente na minha frente. E passou novamente na minha frente carregando uma caixinha. E passou novamente na minha frente sem carregar a caixinha. E passou novamente na minha frente. E passou novamente na minha frente carregando uma caixinha. E passou novamente na minha frente carregando algo.

Outra técnica entrou nesta sala. É negra, baixinha, magra. Está vestida exatamente igual a outra moça, com o cabelo igualmente preso. Ela saiu da sala, e fechou a porta atrás de si.

A técnica (a de antes) passou na minha frente carregando uma garrafinha e copo descartável, ambos vazios. Ela passou novamente na minha frente, carregando o garrote azul. E passou novamente na minha frente, sem carregar nada. E passou novamente na minha frente, carregando uma caixinha. E passou novamente na minha frente, carregando a mesma caixinha. E passou novamente na minha frente, carregando um embrulho. E passou novamente na minha frente, carregando o mesmo embrulho. E passou novamente na minha frente. E passou novamente na minha frente. E passou novamente na minha frente, carregando um copo descartável, com algo que parece leite.

Ela saiu e parou na porta. Voltou, novamente, trazendo uma moça com ela, que sentou ao meu lado direito, onde anteriormente estava vazio.

A técnica saiu da sala, e fechou a porta atrás de si.

Não consigo ver com clareza a senhora que está, agora, sentada ao meu lado direito. Uma pequena cortina nos separa.

A técnica retornou. E passou na minha frente, carregando o copo descartável vazio.

Agora a técnica veio até o local onde estou, pulsionar a minha veia. Preciso, portanto, desligar o computador.

Em observação, no escritório do pai

Hoje é quarta-feira, são 18h11. Estou no escritório do meu pai, no Centro, sozinha, esperando pelo meu namorado.

Estou na sala de reunião (entre as duas salas), que foi usada por mim durante longos e bons meses (ou seriam anos?). Estou sentada em um sofá, com a perna esquerda para cima, em uma das cadeiras da mesa de reunião. A recepção e a sala do meu pai permanecem acesas, mas o escritório está vazio e silencioso.

Na sala onde estou, a luz está apagada. 

Prefiro o escuro, no silêncio. Ou o silêncio, no escuro?

Acho mais coerente a ausência de luz e de som. 

sábado, 7 de setembro de 2013

Em observação, na Cortrel

Hoje é sexta-feira. São 14h12. Estou na CORTREL, no Leblon, em uma recepção interna, aguardando o raio-x.

Atrás de mim, a sala de raio-x. Do meu lado esquerdo, elevador e escada. Do meu lado direito, a sala de gesso e imobilizações que está aberta e vazia. Na minha frente, uma senhora e um senhor, que não são um casal, pois estão separados, e não se olham nem se falam. Lá na frente, um corredor, com as salas de atendimento, e a porta que dá acesso à rua.

- Boa tarde. É. Mas é dia, tudo bem.

Na minha frente, a senhora, que deve ter cerca de 48 anos. Veste uma calça preta, estampada.

- E ai, doentinho? Fez tudo?

- Uhum.

- Graças a Deus.

- Luana? Vamos lá?

- Vamos, vou só fechar aqui.

Bati o raio-x e voltei para a mesma recepção que, agora, está vazia. As cadeiras do meu lado e da minha frente não têm absolutamente ninguém.

Uma senhora passa por mim. Outra senhora passa por mim. Ambas descem as escadas, à minha esquerda.

Uma moça passa por mim e vai em direção às salas que ficam atrás de mim. Acredito que sejam os setores internos / administrativo da clinica.

Uma senhora passa por mim e desce as escadas, à minha esquerda.

Um técnico passa por mim e vai em direção às salas, aqui atrás de mim.

Um rapaz passa por mim e vai em direção às salas, aqui atrás de mim.

Um senhor sai do elevador, carregando um andador, e vai andando em direção à saída. Veste calça caqui, sapato branco, casaco amarelo e boné vermelho.

O rapaz volta e fica de pé, na recepção. Veste bermuda azul, blusa pólo cinza listrada com azul, cinza e vermelho, casaco preto, tênis cinza, boné preto e óculos escuros. Aparenta ter cerca de 35 anos. É branco, gordinho e alto.

Um senhor passa por mim e desce as escadas.

- O senhor aguarda um pouquinho aí.

- Tá bom, obrigado.

O rapaz que antes estava de pé, agora está sentado, imóvel, na minha frente.

O técnico passa por mim, em direção às salas, atrás de mim.

- Vamos lá, Luana? Tirar mais uma?

- Vamos. Vou só fechar aqui.

Volto para a recepção que eu estava anteriormente e o rapaz permanece sentado, na mesma posição.

O técnico passa pela gente, em direção a saída da clínica. E passa de volta, em direção à sala do raio-x.

Um rapaz passa pela gente, em direção a saída da clinica.

Uma senhora passa pela gente, e desce as escadas, à minha esquerda.

O técnico passa pela gente, em direção à saída da clínica.

Outro técnico passa pela gente, e entra num dos consultórios médicos. Ele retorna.

- Luana? Pode entrar ali, consultório três.

- Oi, tou indo. Obrigada.

Em observação, na Casa Rui Barbosa


Hoje é sexta-feira. São 7h48. Estou na Casa de Rui Barbosa, em Botafogo, esperando o meu horário da nutricionista (às 8h) aqui na rua ao lado. [O segurança permitiu que eu ficasse, aqui, sentada nos bancos dos jardim, antes mesmo que a Casa abrisse, para "fazer hora"].

Estou sentada em um banco, desses de praça, logo na entrada da Casa, de frente para os jardins e de lado para a casa. À minha esquerda, a entrada da casa, na Rua São Clemente.

Não vejo ninguém. Ninguém passa por aqui. Nenhum som, exceto o riacho que corre e me faz ouvir o barulho da água.

O segurança passa por mim e tosse. Anda em direção aos fundos, onde tem uma guarita. Usa calça cinza, botina preta, casaco azul marinho escrito GRUPO CUERVO em branco. É alto, forte e não deve ter mais do que 40 anos.

Um rapaz passa por mim. Usa calça jeans, casaco vermelho, tênis branco e mochila preta. Ele anda em direção aonde está o outro segurança.

O silêncio e a solidão voltam a perpetuar neste lugar. Apenas o barulho do pequeno riacho (e eu) povoamos o ambiente do falecido Rui.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Em observação, no Centro Cultural Caravelas

Hoje é terça-feira. São 16h10. Estou no Centro Cultural Caravelas, aguardando ser atendida.

Estou sentada em um sofá, na recepção. Do meu lado esquerdo, duas salas e a escada, que dá acesso aos outros andares, com salas também. Na minha frente, outro sofá e um aparador, com cartões e panfletos de profissionais. Do meu lado direito, a porta que dá acesso à rua, e a mesa da recepcionista, com uma senhora sentada.

A senhora veste calça leging cinza, blusa cinza chumbo, casaco preto e bota cinza chumbo. Está chique e toda combinando. Usa óculos preto. É baixa, magra, tem o cabelo castanho escuro, um pouco crespo. Aparenta ter entre 50 e 60 anos. Está sentada, com a mão na boca, e mexe no laptop. Está zapeando no Facebook, bastante concentrada e sem se mover. Ela se levanta, anda pela minha frente e entra na copa, que tem ao meu lado esquerdo (abaixo da escada). Pega um copo plástico, se serve de café. Está de pé, de costas para mim, mexendo em algumas coisas que não consigo ver. Abre a pia, lava alguma coisa. Mexe em algo no balcão. Bebe o café. Mexe em algo no balcão e permanece de costas para mim. Limpa algo do balcão, mexe na cafeteira. Vem andando, passa por mim e senta-se, novamente, na mesa da recepção. Escreve algo no papel.

- Lu? Pode subir.

- Oi, tou indo.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Em observação, no COB - 2

Hoje é terça-feira. São 15h02 e estou no COB – Centro Oftalmológico de Botafogo – aguardando ser atendida.

Estou sentada na recepção, na primeira fileira de quatro fileiras. Cada fileira tem quatro cadeiras. Estou na cadeira mais próxima da parede.

Do meu lado esquerdo, parede. Na minha frente, uma parede cor de terra com a TV ligada na Globo. Do meu lado esquerdo, um rapaz sentado ao meu lado. Uma cadeira vazia nos divide.

Ele veste uma bermuda verde e preta, um tênis cinza e vermelho, uma blusa vermelha, branca e preta. Usa pochete preta, com o celular pendurado nela. Ele assiste televisão, e tem a mão na boca. Vejo que usa aliança, na mão que está na boca. Sua esposa está do seu outro lado e não consigo vê-la. Rói as unhas. Está sentado de forma relaxada. Não tira o olho da TV e, também, não se move. Parou de roer a unha. Coçou o rosto.
  
- Tem uma ótica ótima ali, ó.

Abre um pouco mais a perna, e volta a olhar para a TV.

- Sei lá. Não, não sei. Lá não? Sei. Ah, tá. Tou só conversando.

Ele olha para as pessoas que entram na clinica. Tem um braço cruzado, e a outra mão na boca. Rói a unha, e não tira o olho da TV. Continua imóvel.

- Mas você está se empolgando...

Ele, raramente, olha para a esposa ao seu lado.

- Senhora Luana Zanelli!

- Oi, tou aqui.

- A senhora aguarda lá. A doutora Eliane vai chamar a senhora.

- Ta ok, obrigada.

Agora, são 15h10. Estou em uma nova recepção, aguardando a médica me chamar. Estou sentada na primeira de quatro fileiras de cadeira. Cada fileira tem três cadeiras, coladas umas nas outras.

Na minha frente, uma parede branca e azul, e a TV ligada na Globo, e uma porta que dá acesso a algum local que não sei bem qual é. Do meu lado direito, um porta-revista no chão e uma parede beje, um pouco encardida. Do meu lado esquerdo, três cadeiras vazias. A exatamente ao meu lado, com a minha mochila em cima. Atrás de mim, todas as outras fileiras de cadeiras.

A porta da minha frente abriu. Saiu uma moça de cerca de 25 anos, mexendo no celular. Fechou a porta atrás de si e saiu.

- Luana Zanelli?

- Oi, tou indo.