quinta-feira, 14 de março de 2013

Ela era evangélica

- Metrô Botafogo, Jardim Botânico, Gávea? Vaga sentado? Shopping da Gávea, PUC, Rocinha? Vai mais alguém?

- Bom dia motorista. Sabe que, se dirigir direito, Deus abençoa. Paga teus pecados no Jesus salvador! Só Deus salva, motorista! Só Ele!!!!! Se não fizer direito, motorista, já sabe!!!! Deus não perdoa!!!

O silêncio, que já existia do lado de dentro, a partir dela, foi ensurdecedor. Nem um pio. Só ela.

- Je-suuusss... é o meu salvador... Só Ele... é que salva os peca-dôôô... E se... tu pe-cáááá... Je-suuuuussss... pode não te sal-váááá...

- Próximo ponto, vai alguém? Metrô Botafogo, vai? 

- Eu vou, cobrador.

- Adianta a passage aí, minha gente. Se não, neguinho salta, não paga, e aí, fode tudo aqui pra nóis.

- Je-suuuuuuuuuus... Perdô-a se-nhô... Ô motorista! Pensa no Jesus!!!! Só ele salva, motorista! Só ele!!!!!! Faz direito, motorista! Se não, já sabe... Tem que ser temente a Deus! Te-men-te! Só Ele salva!!!! Só Ele!!! Je-suuuuuss... é o salva-dôôr...

- Próximo ponto, vai alguém?

- Eu vou, cobrador. Ali, no Dona Marta. Je-suuus... Guiai... nossos passô-ôs... Se-nhôôrrrr.... abenço-aaaaai... Obrigada, motorista! Foi abençoado você! Segue na paz de Jesus! Hoje foi bom!

Olhou para todos e: Aleluia, meus irmãos! Aleluia!!!!!!

A van fechou as portas. Ela deixou, conosco, apenas a risada. De pena, de alegria, de tristeza, de vergonha, não importa.

O silêncio deu lugar ao sorriso.

Pedro Luiz

Eu vi Pedro Luiz por acaso.

O conheci antes-de-ontem. Portanto, será uma história que fala de passado. Recente, mas, ainda assim, de passado.

Pedro Luiz - gostava de ser chamado pelos dois nomes - era um homem rico. De grana. Tinha dinheiro e tinha alegrias.

Tinha 50 e muitos anos. 58, acho eu. Casado com Daniele há mais de 20 anos. Pai da Leila, sua filha adolescente, de 16 anos. 

Pedro Luiz era engenheiro. A esposa, arquiteta. Conheceram-se em uma obra, que ele trabalhou. Apaixonaram-se e casaram. Ela era mais durona que ele, mais séria, mais prática. 

Pedro Luiz, ao contrário da grande maioria da sua profissão, tinha mais traquejo com pessoas do que com linhas retas. Seu ídolo era o Niemeyer que, apesar de não ser engenheiro - e sim arquiteto - gostava das curvas, da sinuosidade. Era assim, também, na vida. No trato com os funcionários, com as pessoas, com a família. E com a filha, seu grande amor. 

Leila era um doce, grande amiga e parceira do pai. Não era "aborrecente", como muitos pais se referem aos filhos. Ela era adolescente, tinha as características bem da sua idade. Era o tipo paty, menina-zona-sul. Praia, cinema, lanche com as amigas, matiné. Leila dizia: "quero ser design de interiores". E o pai via e ouvia a filha com orgulho. Ele ensinava a ela as linhas curvas, a sinuosidade, a imperfeição. 

Pedro Luiz gostava de jogar golfe, na Barra, com os amigos, no domingo de manhã. "Preciso voltar a tempo para almoçar com a família". Os amigos ficavam putos. Mas ele era feliz assim. Pedro Luiz era isso: um homem feliz. Às vezes, jogava frescobol na praia, em frente de casa, no sábado, fim de tarde. Às vezes, saía pra beber com os amigos, sem mulher, sem filha. Eventualmente, voltava altinho pra casa, rindo à toa. A sua família gostava de sacaneá-lo, nessas horas, coitado. "Pai, põe a chave na porta!". "Marido, põe uma água pra mim?". E elas riam da bêbada ingenuidade do pai-marido alcoolizado.

Eu conheci Pedro rapidamente e por acaso. O conheci no trânsito. Eu, no ônibus. Ele, no seu carro. Não sei a marca do carro, mas é daqueles grandes, altos. Não tipo pick-up, mas tipo grandão. Era ele que gostava de levar a filha pra night, pro boliche na Lapa. Leila e todas as amigas. 

Pela primeira vez, sentei num banco do ônibus que é de costas, contra o fluxo. Não conhecia ônibus com estes bancos, e gostei da experiência: ver a vida passando pra trás. Vendo o sentido oposto do trânsito. 

O motorista, por sua vez, não era habilidoso. Fechava todo mundo no trânsito, corria e freava demais. Enfim, o exemplo de um péssimo motorista.

Eis que eles se encontraram: o motorista e Pedro Luiz. O primeiro fechou o segundo feiamente, logo no início do Aterro do Flamengo. Eu indo pro trabalho, antes das 8h. Pedro Luiz também. Ambos gostamos de chegar cedo. 

Me chamou a atenção: Pedro Luiz, rico, naquele carrão, sem ar condicionado. Tinha uma explicação: ele gostava de sentir o sol, o vento, os cheiros. De ouvir as pessoas. Nada pagava aquele vento no rosto. Nem o ar condicionado fresco. Ele tinha ar condicionado em casa, no trabalho. No carro, não! Pedro Luiz precisava de ar puro. Ainda que poluído. 

Eu vi, em câmera lenta, o motorista fechando o carro de Pedro Luiz. Ele buzinou, assustado. Acelerou o carro, para poder emparelhar com o motorista. Eu vi TUDO. Em câmera lenta. E pensei: "já já começa o barraco".

Pedro Luiz olhou para o motorista, e fez um gesto, com o braço, mão, do tipo: "O que foi isso? Não entendi". Não era um gesto de indicação, ou de puto. Sequer de raiva. Era apenas um gesto de: "Não entendi".

Pedro se permitiu desacelerar o carro e o ônibus (e motorista) continuaram no seu caminho. Pedro Luiz também. Com a diferença: ele sentia o vento no rosto. E era feliz.

domingo, 10 de março de 2013

Maria Eduarda

O mar estava forte. A onda vinha até onde estávamos.

Resolvemos, portanto, fazer uma pequena barreira de areia - que de nada adiantou - para que o mar não avançasse nosso obstáculo. O mar continuava vindo.

Veio, com ele, Maria Eduarda, que viu aquele castelo baixo e comprido, e agachou-se, para tocá-lo, recém molhado pela onda rebelde.

- Olha, pai, o castelo!

- Oi...

Ela me olhou, séria.  Os olhos, azuis como o céu, igualmente sérios. O cabelo preto, liso, num rabo-de-cavalo desgrenhado. Próprio das crianças que se divertem. Biquíni laranja. Talvez uns 4 anos. 

- Como é o seu nome?

- Maria Eduarda - respondeu baixinho, quase incompreensível.

- Você gosta de praia, Maria Eduarda?

- Gosto muito, eu venho sempre aqui. - já estava (quase) minha amiga.

- Jura? Mas eu venho sempre aqui e nunca vi você aqui. Você já me viu aqui antes?

- Eu já. Uma vez eu vi você, mas você estava longe... Mas eu me lembro de você.

Eu já estava apaixonada. 

- Pai, me dá a pá roxa? 

O pai entregou a pá a menina.

- Mas essa pá é azul, Duda.

- Quando eu digo que a pá é roxa, é porque a pá é roxa. - sábia a menina, sem nem olhar para o pai.

Outra onda veio e destruiu o castelo que ela estava criando, por cima do meu, cuidadosamente.

Soltamos um "ahhhh..." em coro. Maria Eduarda foi com o pai. E eu fiquei desejando ser sua amiga para aprender, com ela, a quando eu disser uma coisa, aquela coisa ser real.

Obrigada, Duda.

Fotografando gentinhas

Ontem fui ao CCBB, com um amigo muito querido.

- Você é minha melhor amiga - ele disse.

Eu fiquei lisonjeada e feliz. Agradeci e fiquei feliz com o amor. É recíproco.

Apesar de estar passando uma exposição que eu gostaria de assistir, fomos apenas tomar um café. Havia anos que eu não ia ao CCBB, quiçá para tomar um café.

Pedimos os nossos cafés e salgados, e sentados nos degraus de uma escada, ali próximo. (Anotação de bordo: adoro sentar em chão / escada, e observar as pessoas).

Na nossa frente, tinham crianças - e seus pais - em uma pequena fila, que dava num "muro" preto, com um retro-projetor. O retro "filmava" a criança se movimentar e projetava, numa tela "de cinema", à sua frente, o Menino Maluquinho (sim, o do Ziraldo) imitando os movimentos da criança. 

O Menino Maluquinho é da minha época, que tenho 34 anos. Eu lia os livros, ria, me emocionava. Já fui a Bienal do Livro, com a minha (falecida) mãe, e o Ziraldo já autografou alguns livros pra mim. Essas crianças pegaram a segunda (?) geração do Menino. "O cara com a panela na cabeça", como eu ouvi por ali.

E o retro-projetor, era inteligente: quanto menor a criança, menor o Menino. Quanto maior, maior o Menino era projetado. Era como um espelho, só que do outro lado, aparecia o cara com a panela na cabeça.

E as crianças testavam seus próprios movimentos. Algumas chegavam, tímidas, mexendo apenas a cabeça, de um lado pro outro. Outras, pulavam. As que davam tchau (e o Menino acenava), riam de volta. 

Os pais, fotografavam os filhos, riam com eles, deles, e para eles. 

E as crianças ficaram, ali, interagindo com o Menino Maluquinho. 

Eis que um pequeno veio em nossa direção. Não tinha mais de 3 anos.

- Oi?

Ele aninhou-se nas pernas do pai.

- Você quer um salgado?

Os olhinhos brilhantes voltaram e sorriram para mim.

- Você já foi ali, brincar no Menino Maluquinho?

O menino deu um passo na minha direção, saindo das pernas do pai.

E o pai apenas pegou o menino (o seu pequeno, não o Maluquinho) no colo, e tirou-o de perto. Ambos perderam-se no espaço das crianças. O pequeno, no seu colo, sequer pôde dar tchau pro cara de panela na cabeça.

sexta-feira, 8 de março de 2013

A moça das unhas

Este é o primeiro dos posts sem nome próprio. Não que ela não exista. Ela existe, na vida real.

A conheci num curso que fizemos juntas. Já a conhecia antes, pela internet. Tinha concedido uma entrevista para o trabalho dela. Pessoalmente, no entanto, foi a primeira vez. 

Estava com o filho, um pré(-adolescente) de 13, 14 anos? Fiquei hipnotizada pelos olhos do pequeno. Além de muito simpático, comunicativo, e sensível, ele tinha olhos expressivos, atentos, inquietos. Nunca mais os vi - mãe e filho. Mas, com a mãe, falo sempre. Uma amiga, ainda que distante, querida.

Essa noite ela veio me visitar. Ela é uma mulher bonita. Não tipo mulherão. Mas é bonita. Seu olhar, também, sorri, mesmo quando ela permanece silenciosa. 

Vinha, então, à minha casa. Era de noite, mas um dia quente. Usava uma saia  longa, de fundo lilás, com flores pequenas. Uma blusa justinha, branca. Um chinelo havaiana. Os cabelos loiros, lisos e curtos, quase secos, recém saídos do banho. As unhas, longas, pintadas de um lilás discreto, mas envolvente. As unhas me chamaram a atenção. E ela me mostrava as unhas, dobrando os dedos longos e finos. 

Ela veio à minha casa, me visitar, papear. Escolhemos como lugar da conversa o banheiro. Não sei bem por qual motivo. Ela escolheu um banquinho, rente ao chão, sentou ali e esticou as pernas, para frente. Logo, notei suas unhas.

Não lembro bem os assuntos que conversamos. O que mais marcou desta noite de conversa, foi o seu olhar amoroso, ao longe, falando do esposo e do filho. Não foi uma longa visita e conversa, mas foi bom. Reencontrar a amiga e ver a sua alegria e amor com que vive a vida é sempre muito bom.

No final, ambas em silêncio, ela des-silenciou:

- Nossa, que lindo, me vi, agora, nessa cena como um filme.

- Vou fotografar você então.

E ei-la aqui. 

quinta-feira, 7 de março de 2013

Fabiana

Hoje entrevistei Fabiana. Apenas mais uma candidata dentre tantas que recebo. Nada de especial nela. Nenhuma roupa, cabelo, sapato, tom de voz, experiência ou competência me chamaria a atenção.

Seu olhar me chamou a atenção.

Mora em Caxias, com a mãe. Sem filhos, sem irmãos. O pai, falecido de infarto fulminante em 2005. 

35 anos, estudante de Administração, último período. Escrevendo monografia sobre algum assunto do qual não me lembro mais.

Foi entrevistada coletivamente, junto com outros quatro candidatos. 

Postura firme, silenciosa, esguia. É uma mulher alta, magra, vestida de forma sóbria. Cabelos e olhos negros, lisos. Sim, os olhos também lisos.

O olhar. Este me impressionou. Desejava ser feliz. Não era. Não é. Não foi o pai, nem a sua morte. Foi o seu nascimento. O de Fabiana. Já nascera assim, com um olhar triste. 

A sua vida? Pacata, normal. Nada de feliz, nem triste. Vida normal de subúrbio do Rio de Janeiro. 

Fabiana cultivava o olhar triste. Não com esforço. Já aprendera a ser assim: triste. 

Eventualmente, ela sorria, balançava a cabeça afirmativamente, achava graça em algo que era dito. Mas o olhar permanecia liso. Triste.

Fabiana era (é) uma mulher bonita. Seu olhar triste, também.

Foi aprovada. Talvez, pela autenticidade do olhar.

Marcos

Conheci Marcos no ônibus. 

Sentei lá atrás, como gosto sempre, na janela. Pouco depois de mim, no ponto seguinte, veio Marcos.

Sentou ao meu lado, colocou a sua mochila no chão, aos seus pés. É daquele tipo que não olha, não pede licença, não dá boa noite. Nada.

Um homem bonito - pode não fazer o tipo de vocês, mas faz o meu. Bem alto (mais de 1,90), cabelo cheio, liso, com poucos e raros fios brancos. Olhos profundos, num óculos de armação preta. Pele branca. Sério e sem barba. No dia seguinte, a barba estaria por fazer. Hoje, ainda não. 

Tirou o Iphone do bolso da camisa, e olhou o facebook rapidamente, guardando-o, em seguida, no mesmo local.

Abaixou a cabeça e assim foi até Copacabana. 

Pude ver as lágrimas rolando e pingando na sua calça. Suas costas, curvadas, na camisa de linho amassada, atrás, me davam a impressão de muito trabalho, de muito peso.

O choro não era por mulher, filhos, casa, família. Também não sei se era de trabalho. Era um choro indefinido, um choro tipo "encheu o pote e vazou pelos olhos". Ele é solteiro, vive sozinho num kitnet em Copacabana, já há alguns anos. Sem família, sem bichos. 

Marcos não emitia som, não fungava, não olhava para os lados, nada. Apenas silencioso, deixando as lágrimas virem.

Tive vontade de puxar um assunto, dizer que sou psicóloga. Tive vontade de passar a mão nas suas costas. Tive vontade de saber do seu cheiro, da sua vida, dos seus gostos. Tive vontades. Mas só pude, mesmo, ao lado, sentir a minha própria angústia.

Ele passava a língua pelos lábios, e tive vontade de ouvir a sua voz, o seu sussurro. Ou de não ouvir nada, mas de poder estar ao lado dele.

Fiquei desejando que ele me olhasse. Esperei. Mas ele não olhou. Ele estava sozinho, naquele banco de ônibus. 

Chegando próximo à minha casa, ele se ajeitou para saltar e pude perceber que saltaríamos no mesmo ponto. Com o ônibus cheio, Marcos acabou descendo a distância de 4 pessoas na minha frente. 

Saltei e apertei o passo, para estar perto dele. Poder vê-lo uma última vez. Dizer oi. Ou tchau. Ou eu entendo. Ou tou contigo. Ou não dizer nada. Apenas sorrir. 

Ou de pedir: me ensina a chorar assim?