quinta-feira, 7 de março de 2013

Marcos

Conheci Marcos no ônibus. 

Sentei lá atrás, como gosto sempre, na janela. Pouco depois de mim, no ponto seguinte, veio Marcos.

Sentou ao meu lado, colocou a sua mochila no chão, aos seus pés. É daquele tipo que não olha, não pede licença, não dá boa noite. Nada.

Um homem bonito - pode não fazer o tipo de vocês, mas faz o meu. Bem alto (mais de 1,90), cabelo cheio, liso, com poucos e raros fios brancos. Olhos profundos, num óculos de armação preta. Pele branca. Sério e sem barba. No dia seguinte, a barba estaria por fazer. Hoje, ainda não. 

Tirou o Iphone do bolso da camisa, e olhou o facebook rapidamente, guardando-o, em seguida, no mesmo local.

Abaixou a cabeça e assim foi até Copacabana. 

Pude ver as lágrimas rolando e pingando na sua calça. Suas costas, curvadas, na camisa de linho amassada, atrás, me davam a impressão de muito trabalho, de muito peso.

O choro não era por mulher, filhos, casa, família. Também não sei se era de trabalho. Era um choro indefinido, um choro tipo "encheu o pote e vazou pelos olhos". Ele é solteiro, vive sozinho num kitnet em Copacabana, já há alguns anos. Sem família, sem bichos. 

Marcos não emitia som, não fungava, não olhava para os lados, nada. Apenas silencioso, deixando as lágrimas virem.

Tive vontade de puxar um assunto, dizer que sou psicóloga. Tive vontade de passar a mão nas suas costas. Tive vontade de saber do seu cheiro, da sua vida, dos seus gostos. Tive vontades. Mas só pude, mesmo, ao lado, sentir a minha própria angústia.

Ele passava a língua pelos lábios, e tive vontade de ouvir a sua voz, o seu sussurro. Ou de não ouvir nada, mas de poder estar ao lado dele.

Fiquei desejando que ele me olhasse. Esperei. Mas ele não olhou. Ele estava sozinho, naquele banco de ônibus. 

Chegando próximo à minha casa, ele se ajeitou para saltar e pude perceber que saltaríamos no mesmo ponto. Com o ônibus cheio, Marcos acabou descendo a distância de 4 pessoas na minha frente. 

Saltei e apertei o passo, para estar perto dele. Poder vê-lo uma última vez. Dizer oi. Ou tchau. Ou eu entendo. Ou tou contigo. Ou não dizer nada. Apenas sorrir. 

Ou de pedir: me ensina a chorar assim?

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