sábado, 30 de novembro de 2013

Roberto e Carla, pais de Igor e Sofia

Eu sou o Roberto, tenho 40 anos e sou um profissional bem sucedido. Sempre atuei como advogado e, hoje em dia, sou Juiz da Vara Cível de Goiânia.

Sou casado com a Carla, minha linda esposa, que cuida da casa e dos nossos dois filhos. Carla foi minha secretária durante anos e, tivemos um romance há alguns anos. Eu já estava separado, mas de pouco tempo. Como ela engravidou, resolvemos casar. Família tradicional do interior de São Paulo.

Primeiro, veio a Sofia, que hoje tem oito. Depois, o Igor, que hoje tem seis.

São filhos bonzinhos. Mas, isso, é pulso firme do pai aqui. Porque, se deixar a educação com a mãe, eles não vão saber a respeito de regras nunca! E é cedo mesmo que a gente ensina. 

Eu pago uma mesada a eles, desde que os dois têm quatro anos. Para eles mesmos saírem com a mãe e comprarem seus doces, balas, chicletes e essas papagaiadas todas de crianças com o dinheiro deles. Sofia é mais gastadeira, porque menina tem essas coisas de cabelo, pulseirinha, brinquinho, anel... Ai... Eu já falei pra Carla: 

- Deixa eles mesmos comprarem as coisas deles! Mesada é pra isso! Presente mesmo é dia das crianças, aniversário e Natal. Ficar dando presentinho toda agora vai acostumá-los mal...

Mas criança é ingênua e eu acabo descobrindo que a mãe dá as coisas escondida de mim. Ela sabe que não gosto. Parece que, além dos meus filhos tenho que, também, educar minha mulher. Onde já se viu isso? Carla já veio pra mim educada, oras! Bom, pelo menos, eu pensava que sim...

E aí, pra educar mãe e filhos, eu resolvi criar uma planilha. Fica na porta da geladeira. É estranho, mas só eu marco a planilha. Eu gostaria muito que a Carla ou as próprias crianças fossem honestas e marcassem, também; mas a mãe faz vista grossa e eu ouço ela sussurrando:

- O pai de vocês só quer o melhor... tenham paciência com ele... a mamãe vai conversar com ele depois... mas não posso garantir, né?

Vale dizer que, esta planilha, eu levei quase um mês para criá-la. Passei quase trinta dias observando as crianças e os comportamentos delas, e criando a lista, no meu iPad. Mostrei para alguns amigos no trabalho, que apoiaram a minha idéia e dividimos as malcriações e falta de educação dos nossos filhos. 

Depois, fui conversar com a Carla, que foi irremediavelmente contra. Eu não lembro, no entanto, de ter pedido a sua opinião. Na verdade, sim. Pedi a opinião sobre quais itens mais podíamos criar na planilha? Ela não quis criar item nenhum, e o controle ficou assim.

Faltar, atrasar ou reclamar para ir à escola - Escola não é lazer: e educação. E custa caro. Se eles reclamarem, vai ser pior. 
Faltar, atrasar ou reclamar para ir ao inglês - Eles querem ir para a Disney, não querem? Precisa falar inglês. Ou o papai vai ficar de intérprete? Graças a Deus, a Carla já falava inglês quando nos casamos. Isso é o básico, não?
Faltar, atrasar ou reclamar para ir à natação - Atividade física é fundamental. No verão, eles se animam de ir ao clube nadar. Mas tem que ir o ano todo. Ou eles preferem ficar obesos, como a minha sogra, a dona Ivone? 
Faltar, atrasar ou reclamar para ir à missa - Eu e a Carla vamos todo domingo à missa, desde antes deles nascerem. Somos uma família, não somos? Domingo, 17h, é dia de missa, goste ou não.
Não fazer as tarefas - Sim, têm que serem feitas. Todos temos tarefas. Eu também tenho, embora as pessoas achem que Juiz não trabalhe.
Não almoçar / jantar - Onde já se viu isso? Comer sanduíche de lanche? Cachorro-quente? Pizza? Isso é uma vez por mês, e olhe lá. Aqui é almoço e janta. Preciso falar, de novo, da "vovó None"?
Não usar óculos - Eu já operei a miopia. Carla opera ano que vem. Todos na família temos tendência. Se eles não usarem os óculos - a Sofia, principalmente - vai piorar com o tempo. 
Não usar aparelho - Eu sou contra, mas eles usaram chupeta até mais do que seis meses. Para quê isso? Aí, claro, ficaram com os dentes tortos. Eu avisava à Carla: "joga essa chupeta fora!". Dentista custa caro. Ter os dentes alinhados e a mordida correta tem um preço. E eles têm que pagar. 
Não escovar os dentes - Eu vou sempre verificar se eles escovaram ou não. Antes de dormir, vou dar um beijo nos dois, e cheiro o hálito deles. Se não tiver escovado os dentes (a Carla não obriga???), eu acordo, e eles têm que ir escovar. A hora que for... 
Não tomar banho - A mesma coisa de escovar os dentes.
Não puxar descarga - O Igor é mais porco que a Sofia. Isso quando não urina a tampa do vaso, pois não lembra de levantá-la antes de usar. Nestes casos, ele mesmo limpa. A empregada aqui de casa - a Nilda, coitada... - é empregada da família; não deles.
Não colocar o cinto de segurança - O trânsito em Goiânia não está fácil. Pra eles quebrarem um pescoço não custa, né? Por mais cuidado que eu tenha...
Não fazer aula de natação - Mesmo no inverno.
Tirar nota baixa na escola / inglês - Eles só estudam e brincam. E comem e dormem. E ainda tiram nota baixa? Pago escola cara, explicadora... Imagina quando eles estiverem na faculdade, e trabalhando? 
Ir de madrugada para a cama dos pais - Eles ficam vendo televisão até tarde, e não conseguem dormir... E vem pra minha casa dizendo que tiveram pesadelo e estavam com medo. Tudo desculpa esfarrapada. Criança dessa idade lá tem pesadelo? Qual a preocupação que eles têm pra ter pesadelo? E quando tiverem vinte, trinta anos? Vão dormir onde quando tiverem pesadelo? Na própria cama, não é? Então...
Pular  no sofá / cadeiras - Já avisei que, se quebrar, vai ter que ser pago um novo com parte da mesada deles. Combinamos em 30%. Combinei, na verdade.
Comer na sala de TV / estar - Lugar de comer é na mesa, sentado, sem fazer sujeira, bagunça e em silêncio.
Deixar roupas / calçados / tolhas largados / jogados - Tem que ensinar com a idade que eles estão, porque, quando for adolescente... já viu...
Deixar as luzes acesas - O  mesmo vale para quando for dormir.
Deixar brinquedos largados / jogados - Brincou, guardou. E eu grito se a Carla ajudá-los. 
Deixar os pratos na mesa - A Nilda não é escrava deles. Eles retiram  seus pratos e copos e colocam na pia. Ou a mão vai cair?
Deixar material largado / jogado - O mesmo motivo dos brinquedos.
Deixar a porta da geladeira aberta - Qual a dificuldade de se fechar a geladeira?
Deixar a TV / Sky / PS3 ligados - Se eu desligo meu note para jantar, porque eles não podem desligar a TV e o jogo? Não tem ninguém vendo e jogando, tem que estar desligado.
Deixar torneiras / chuveiros abertos - Eles ainda vão entender que a água está acabando no Planeta. Eu já estarei morto, mas eles não. É de agora que se economiza... E se educa. Disciplina é tudo.
Deixar as portas / gavetas dos armários abertas - Organização é tudo.
Ofender / xingar / brigar / bater - Eu só tive que bater nos dois umas duas ou três vezes. Tinham três ou quatro anos, não lembro. A mãe disse um não por algum motivo, e eles xingaram-na. Nem lembro bem de quê, mas foi na hora! Levaram! Criança tem que aprender que não pode bater, xingar, nem nada do gênero. Dei um tapa na boca deles que, vou te contar. Funcionou. 
Desobedecer pai ou mãe - Nós não somos amigos deles. Somos PAIS. Tal como a gente vê na igreja, "temente a Deus". Eles têm que ser tementes e obedientes. Nós somos os adultos, eles não. Quando eles tiverem seus filhos, eles saberão o que eu estou dizendo. E, eu tenho certeza, eles se lembrarão disso.

Abaixo, na foto, eu mostro o exemplo.




Pra cada infração dessas cometida - é como multa de trânsito - é descontado um valor da mesada. E assim tem sido feito. 

A cada mês, eles têm sido mais obedientes. A cada mês, têm errado menos. Acho que, em menos de seis meses, eles estarão no ponto.

Preciso dizer que a Carla também tem a planilha de atividades dela? No caso dela, não vou mostrar, porque ia devassar nossa vida de casal. E, já que não pago mesada a ela, o que é descontado, na planilha, são dias sem cartão de crédito, ou passeios que ela gostaria de fazer. Tem funcionado.

E meus colegas de trabalho ainda me perguntam porque eu pareço tão satisfeito...



[Agradecimento à Ângela e Sabrina, por dar nome aos personagens].

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Em observação, no Clube do Conhecimento - 2

Hoje é sexta-feira. São 10h10. Estou no Clube do Conhecimento, assistindo a palestra da Ângela.

Estou sentada na primeira fileira, na cadeira, na segunda cadeira.

Ao meu lado direito, a cadeira está vazia.

Ao meu lado esquerdo, tem uma moça sentada. Ela é branca, magra, alta, e loira, e tem o cabelo preso. Ela veste calça jeans, blusa social rosa, sandália alta beje. Sobre a sua mesa, um caderno. Uma das mãos na boca, e, na outra, uma caneta. Tem as pernas cruzadas. Agora, seus braços cruzados na cadeira da frente. Olha para trás.

Agora são 10h31.

Agora, na minha frente, tem um senhor sentado.

Agora, ao meu lado direito, tem um rapaz sentado. É branco, alto, gordinho, cabelo curto. Usa calça preta, blusa social listrada. Tem uma bolsa da Memorial Saúde no seu colo e está mexendo em dois celulares.

Na minha frente, o senhor sentado é gordinho,baixo, branco,e cabelo grisalho, careca. Usa óculos. Veste uma calça verde, e blusa de malha, beje. Tem uma pasta preta no colo.

Agora são 10h41.

Ao meu lado direito, o mesmo rapaz, agora, mexendo em apenas um celular. Tosse.

Na minha frente, o mesmo senhor. Está de pernas cruzadas e mãos cruzadas no joelho.


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Em observação, no consultório (Centro) - 6

Hoje é quinta-feira. São 14h42.

Estou no consultório do Centro, aguardando a paciente de 15h30.

Estou sentada na poltrona. Por aqui, portas e janelas fechadas. Tudo na penumbra. Apenas o barulho do ar condicionado.

O celular bipa. Whatsapp do Bernardo. Whatsapp da Carin. 

Volto para o silêncio, apenas com o barulho do ar condicionado.

O celular bipa. Whatsapp da Carin.

Volto para o silêncio, apenas com o barulho do ar condicionado.

O celular bipa. Whatsapp do Bernardo. 

Volto para o silêncio, apenas com o barulho do ar condicionado.

O celular bipa. Whatsapp do Bernardo.

Volto para o silêncio, apenas com o barulho do ar condicionado.

O celular bipa. Mensagem de voz da Alba. Whatsapp do Bernardo. 

Volto para o silêncio, apenas com o barulho do ar condicionado.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Momentos

Há o momento de respirar.
E o momento de prender a respiração.

Há o momento de segurar.
E o momento de deixar(-se) ir.

Há o momento de pedir.
E o momento de receber (mesmo que de si mesmo).

Há o momento de ler.
E o de escrever.

O momento de falar.
E o de calar.


Há o momento de um, dois, três.
E o momento de ser. Apenas ser.

Há o momento de plantar.
E o de esperar.
E o de colher.
E o de se alimentar.

E o de não esperar mais.

E aí, quando vem
A não-mais-espera.

Torna-se livre.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Em observação, na OAB Barra

Hoje é terça-feira. São 14h39. Estou na OAB, na Barra da Tijuca, no Shopping Marapendi.

Estou sentada ao lado de fora, do evento da Glorita, da Semana Global do Empreendedorismo.

Na minha frente, uma pequena praça de alimentação. Ao meu lado esquerdo, uma mesa com folders e brindes. Ao meu lado direito, outra mesa, com papeis, folders, etc.

Agora, estou sozinha por aqui. Pessoas vão e vem, mas distante de onde estou.

A Glorita veio conversar comigo. Dei uma volta e voltei para cá, para o meu lugar de origem.

Agora são 15h04.

Estou sozinha aqui novamente.

Dona Maria veio aqui fora. É uma senhora negra, baixinha, gordinha. Veste calça cinza e blusa preta, estampado com branco. Veste uma sapatilha cinza. Tem o cabelo preto, preso.

Agora, estou sozinha aqui novamente.

Dona Maria voltou. Mexe em algumas coisas na mesa ao meu lado esquerdo.

Um segurança passa na minha frente. É alto, mulato, meio gordinho. Veste terno cinza. 

Dona Maria entrou no auditório da OAB novamente.

Agora, estou sozinha aqui novamente.

Duas meninas vieram aqui na frente.

Agora, estou sozinha aqui novamente.

Passou uma menina uniformizada da OAB aqui na frente.

Agora, estou sozinha aqui novamente.

Duas senhoras, uma criança e a dona Maria passaram aqui. Já saíram daqui da frente.

Agora, estou sozinha aqui novamente.

Dona Maria passou na minha frente e sentou em uma mesa, na minha frente.

Carolina veio aqui na frente fotografar. É branca, magra, baixa. Tem o cabelo castanho, preso num rabo de cavalo. Veste um vestido branco, um casaco de crochê, cor de terra, uma sandália vermelha. 

- Esqueci de tirar daqui. Ué... Olha pra cá. Obrigada. Vai lá, fica ali. Vai lá...

Ela está de pé, na minha frente, tirando fotos.

- De novo, só uma olhadinha. Valeu.

Ela anda para frente, para os lados, e continua fotografando.

Ela pára na minha frente, novamente.

Agora, tem uma moça da OAB, parada, na mesa ao meu lado, pegando os folders.

A filha da Glorita vem aqui e fica conversando comigo.

Agora, permaneço sozinha aqui.

A Alba veio aqui fora. Ficamos conversando um pouco, e comendo biscoito, e bebendo mate.

Agora são 15h34. Permaneço sozinha por aqui.

Uma senhora da OAB passa aqui na frente, com um senhor.

- Boa tarde.

- Boa, oi, tudo bom?

Uma das palestrantes chega. Gisele. Faz a inscrição comigo, pega água e entra no evento.

Agora, permaneço sozinha por aqui.

Duas senhoras passam na minha frente. Uma está uniformizada da OAB, e é alta, magra, mulata, cabelo comprido, preto e liso.

Uma senhora passa na minha frente. Está falando ao celular.

- É, janeiro todo ano eu recebo em janeiro. Não necessariamente eu consigo sair em janeiro. Tá, eu vou te mandar agora o e-mail.

Ela sai da minha frente.

Agora, permaneço sozinha aqui.

Um rapaz passa na minha frente.

Algumas pessoas chegaram, saíram, fizeram a inscrição, entraram.

Dona Maria entrou.

- Vou ver se a Glorita precisa de alguma coisa.

Um rapaz vem até aqui e conversa comigo. Foi lá dentro.

Agora, permaneço sozinha aqui.

Agora, são 16h35.

Um segurança passou pela minha frente. Uma senhora da limpeza passou pela minha frente.

Agora, permaneço sozinha aqui.

Uma senhora sai do evento e pára na minha frente. Vem falando no celular. Desligou. Pegou um chocolate, sorriu pra mim e entrou no evento novamente.

Um senhor da limpeza passou na minha frente.

Agora, permaneço sozinha aqui.

Um senhor sai do evento e passa na minha frente.

- Posso pegar um chocolatinho?

- À vontade.

- Obrigado.

- De nada.

Ele come o chocolate, joga o papel fora e entra no evento novamente.

Agora, permaneço sozinha aqui novamente.

Dona Maria passa na minha frente. Duas moças uniformizadas da OAB passam na minha frente.

Agora, permaneço sozinha aqui novamente.

Um senhor da limpeza passou na minha frente.

Agora, permaneço sozinha aqui novamente.

A Vânia veio aqui fora e ficou conversando comigo. Está, aqui, na mesa ao meu lado esquerdo, mexendo no celular. Ela é uma senhora, baixa, branca, loira, cabelo liso. Veste calça estampada, blusa preta e branca, sapato alto preto. Usa óculos, branco. Está séria, mexendo ao celular.

Dona Maria sai do auditório, vai andando até a varanda do andar.

Vânia permanece ao meu lado esquerdo. Bebe água. Mexe ao celular. Come um bombom.

Um senhor passa na minha frente. É mulato, magro, alto. Tem a cabeça branca. Veste calça cinza, blusa polo amarela, sapato marrom. 

Vania continua ao meu lado esquerdo. Agora, apenas mexendo no celular. Foi andando em direção ao outro extremo do shopping.

Agora, permaneço sozinha aqui novamente.

Converso, agora, com André pelo chat do Facebook.

A Vania veio até aqui falar comigo.

- Oh Luana, a sua mentora falou pra você ir lá pra dentro. Acho que é ela que vai falar agora. Acho que ela quer que você a ouça.

Uma senhora sai de dentro do auditório.

- Você não fuma não, né?

- Não.

- Quero fumar, mas não tenho isqueiro...

Ela foi andando, em direção à varanda.

Uma senhora saiu do evento. Veio até a mesa, pegou um bombom e entrou novamente.

A senhora que foi fumar passou na minha frente. É alta, meio gordinha, branca. Tem o cabelo loiro, cheio, encaracolado. Veste um conjunto verde água, de saia e blusa social. Usa um sapato de mesma cor e foi andando, para o meu lado esquerdo, no outro extremo do shopping.

Um rapaz passou na minha frente. É japonês, branco, alto, cabelo preto. Veste calça jeans, blusa social branca e sapato preto. Carrega uma pasta de couro, marrom. Sentou numa das mesas da praça de alimentação, na minha frente.

Agora, permaneço sozinha aqui novamente. São 17h05.

Continuo conversando com o André, pelo chat do Facebook.

Uma senhora da limpeza passa na minha frente, carregando um carrinho com utensílios de limpeza. Ela é mulata, baixa, magra, tem o cabelo castanho, preso num rabo de cavalo e usa óculos. Usa um uniforme verde, e tênis preto.

Um segurança passa na minha frente.

Agora, permaneço sozinha aqui novamente.

A Virna, uma amiga, chegou. Conversamos um pouco e ela entrou no evento.

Agora, permaneço sozinha aqui, novamente.

Uma senhora, uniformizada da OAB passa na minha frente.

- Vai até às oito?

- Sim.

- Bora, minha irmã.

Um segurança passa na minha frente. É mulato, alto, magro. Cabelo curto, preto. Veste terno cinza escuro e sapato preto.

Um rapaz passa na minha frente. É branco, alto, meio gordinho. Tem o cabelo claro, curto, e usa barba. Veste calça jeans, blusa polo azul e tênis cinza.

- Vou pegar um chocolatinho.

- Claro, à vontade.

Ele pega o chocolate e senta, na mesa, na praça de alimentação.

Uma senhora passa na minha frente.

Agora, permaneço sozinha aqui novamente. São 17h15.

Uma senhora sai do evento e passa na minha frente.

- Pegar uma aguinha.

Pega uma água e entra no evento, novamente.

Agora, permaneço sozinha aqui novamente.

Uma senhora sai do evento, e conversa comigo.

Outra senhora sai do evento, e pega um bombom.

- Posso pegar um bombonzinho?

- Pode, à vontade.

- Obrigada.

- Nada.

Uma senhora sai do evento e pega mais um bombom.

Um segurança passa na minha frente.

A senhora entra no evento.

Agora, permaneço sozinha aqui, novamente.


São 17h29. Agora, estou sozinha por aqui.

Uma senhora da OAB passa na minha frente. É branca, gordinha, loira, cabelo liso, comprido. Usa uma saia social preta, uma blusa da OAB branca e uma sandália vermelha.

Agora, estou sozinha por aqui.

A senhora da OAB passa na minha frente novamente.

Um segurança passa na minha frente. É alto, mulato, gordinho, cabelo raspado. Usa terno preto, sapato preto e carrega um rádio (desses de comunicação interna) nas mãos.

Um senhor passa na minha frente. É mulato, baixo, magro, cabelo branco. Usa calça cinza, blusa polo amarela, sapato marrom. Sentou em uma mesa na praça de alimentação.

Uma moça da limpeza passa na minha frente. É mulata, baixa, magra. Tem o cabelo castanho, preso num rabo de cavalo e usa óculos. Usa um uniforme verde e tênis preto. Passa varrendo, com estas vassouras de pelo enormes.

Agora, estou sozinha por aqui.

Uma senhora chega ao evento, se inscreve comigo e entra.

Agora, estou sozinha por aqui.

Estou conversando com André pelo Whatsapp.

Uma senhora sai do evento, e sorri para mim.

Uma senhora sai do evento, e fala no celular. É branca, alta, magra, tem o cabelo liso, vermelho, comprido, e usa óculos. Veste calça preta, blusa estampada.

- Hein? Ah, tá. Por isso que eu tou falando baixinho. Agora eu vim aqui fora e estou errando. Eu vou ali embaixo rapidinho tirar uma Xerox. Eu vou ali embaixo tirar uma Xerox e já te ligo.

Ela desliga o celular e fala comigo. Pega os folders ao meu lado esquerdo.

Carolina sai do evento e retorna.

Pega uns bombons e sai.

O segurança passa novamente pela minha frente.

Estou conversando com o André e com a dinda Nilceli pelo chat do Facebook.

Agora, permaneço sozinha por aqui.

Uma senhora sai do evento. É branca, baixa, magra. Cabelo liso, e usa óculos. Veste uma calça branca e uma blusa branca, de bolinhas pretas. Mexe no celular. Caminha na minha frente. Foi para uma das mesas na praça de alimentação.

Agora, permaneço sozinha por aqui.

A senhora entra no evento.

Agora, permaneço sozinha por aqui.

Dona Maria saiu do evento.

Uma senhora vem andando em minha direção. Simone. Ficamos conversando cerca de 10, 15 minutos. Ela saiu agora.

Agora, permaneço sozinha por aqui.

Um senhor sai do evento, pega águas, fala comigo e entra no evento novamente.

Três pessoas chegaram e fizeram a inscrição comigo.

Celina chegou e fez a inscrição comigo. Agora, ela permanece aqui na frente, conversando com um senhor. Entrou no evento.

Agora, permaneço sozinha por aqui.

Três pessoas saem do evento. Mais duas saem do evento. Mais uma sai do evento.

Várias pessoas entram e saem do evento.

Um rapaz está na porta do evento. Saiu.

Uma senhora sai do evento, fala comigo e retorna para o evento.

Um menino vem à mesa e pega um bombom.

Carolina sai do evento, se despede de mim e vai embora.

Dona Maria entra no evento novamente.

Agora, permaneço sozinha aqui.

Algumas pessoas entram e saem do evento, falam comigo.

Agora, permaneço sozinha aqui.

Uma senhora pára na mesa ao lado, pega um bombom e fica passeando, na minha frente. É branca, baixa, magra, cabelo liso, castanho, e usa óculos. Veste uma calça branca, blusa branca, com bolinhas pretas e sapatilha vinho. Mexe no celular e come bombom, enquanto isso.

Rafael sai do evento.

Duas moças saem do evento, e Glorita sai com elas. Uma senhora sai do evento. As moças que saem com a Glorita são altas, magras e tem o cabelo escuro, liso, comprido. Uma usa um vestido lilás e sapato alto, preto, e bolsa cinza. A outra, usa um vestido preto, sandália dourada e bolsa preta.

Uma moça sai do evento. É branca, meio gordinha, cabelo grisalho, preso num rabo de cavalo e usa óculos. Usa calça jeans, blusa social amarela e sapato preto. Carrega uma máquina fotográfica e é a fotógrafa do evento.

Uma moça entra no evento.

Dona Maria sai do evento. É negra, gordinha, baixinha, tem o cabelo preto, preso num rabo de cavalo. Usa calça legging cinza, blusa preta, estampada e sapatilha preta.

Uma senhora sai do evento, falando no celular. É magra, alta, cabelo castanho, liso. Usa calça jeans, blusa social rosa claro e sapato alto, marrom. Usa bolsa vermelha e está falando ao celular.

Tem bastante gente bem na minha frente, todas conversando.

Fiquei conversando com a Cristina, fotógrafa, cerca de 10, 15 minutos.

Ainda tem bastante gente na minha frente, conversando.

Fiquei conversando com o Renato, aqui na frente, cerca de 10 minutos. Ele me emprestou um carregador, pra eu carregar o celular.

Ainda tem bastante gente na minha frente, conversando.

Uma senhora sai do evento.

- Tchau, obrigada.

- Tchau, obrigada também.

- O elevador é só esse, né?

- Sim.

- Você sabe onde paga o estacionamento?

- Não sei dizer.

A senhora vai embora.

Uma senhora está ao meu lado, falando no celular. É branca, alta, magra, e tem o cabelo loiro, liso, comprido. Veste um macacão azul marinho, e uma sandália marrom. Usa bolsa marrom. Saiu da minha frente.

Uma senhora sai do evento.

Rafael saiu do evento. Conversamos rapidamente. Ele passou na minha frente e está lendo os folders, na mesa à minha esquerda. Ele é alto, meio gordinho, cabelo curto, grisalho, e usa óculos. Veste calça preta, e blusa social preta. Anda carregando uma caneta. Está parado ao meu lado direito, olhando as pessoas que vão e vem.

- Cristiano se vira no computador.

- Oi?

- O Cristiano sabe se virar no computador e não preciso trabalhar.

- Ah, que ótimo.

- Deixa eu ir lá, mexer no microfone.

- Vai lá.

Ele entra no evento.

Rafael sai do evento, pára ao meu lado direito, e bebe água.

O segurança passa na minha frente.

Rafael entrou no evento.

Agora, permaneço sozinha por aqui.

Glorita passa na minha frente. Duas senhoras passam na minha frente. Uma delas vai embora. Glorita permanece, na minha frente, conversando com uma moça.

Alba sai do evento.

Uma senhora sai do evento.

- Tchau.

- Tchau.

Uma senhora sai do evento, e conversa comigo. Ela entra novamente no evento.

Várias pessoas entraram e saíram do evento e falaram comigo.

Ao meu lado direito, Vania conversa com uma senhora.

Sandra entrou no evento.

A Vania é branca, baixa, magra, loira, cabelo liso, e usa óculos. Veste calça estampada, blusa branca e preta e sapato alto, preto. A senhora que conversa com ela é alta, meio gordinha, loira, cabelo liso, comprido, e usa óculos escuros. Usa calça preta, blusa estampada, sandália preta e bolsa preta. As duas conversam, mas não consigo ouvir o diálogo.

Algumas pessoas saíram do evento, falaram comigo.

Agora, ambas conversam na minha frente. A Vania e a senhora de óculos escuros. Ainda não consigo ouvir o diálogo das duas.

Um senhor passa na minha frente. É branco, gordinho. Entrou no evento.

Outro senhor entrou no evento.

Uma senhora saiu do evento.

- Ih, acabou o chocolate.

- Acabou.

- É porque ela pediu um branco. Acabou, né?

- Acabou.

- Obrigada.

- Nada...

A senhora entrou no evento novamente.

A Vania e a amiga continuam conversando, na minha frente. A amiga, agora, no celular. E a Vania calada, conversando com ela.

Uma senhora sai do evento. Dois senhores saem do evento. Rafael sai do evento. A amiga da Vânia vai embora. Vania entra no evento.

Rafael fica e conversa comigo. Glorita também. Ambos entram no evento.

Agora, permaneço sozinha por aqui.

Um senhor sai do evento e retorna.

Agora, permaneço sozinha por aqui.

Uma senhora sai do evento. É mulata, magra, alta, cabelo curto, castanho. Fala ao celular e vai para a varanda do shopping.

Agora, permaneço sozinha por aqui.

Agora, converso com a Denise pelo chat do Facebook.

domingo, 24 de novembro de 2013

Em observação, no trabalho do André - 2

Hoje é segunda-feira. São 17h26.

Estou no trabalho do André, na recepção.

Por aqui, tudo iluminado e silencioso. Apenas o barulho do servidor (acho). As portas permanecem fechadas. A da recepção e a que divide a recepção das salas.

Uma senhora passa pela sala, pela divisória de vidro, e sorri pra mim. Retribuo.

Duas moças passam pela recepção e saem, rindo. Não me olham ou falam comigo.

Uma faxineira passa pela recepção, com balde e vassoura, e entra no banheiro. Não olha para mim ou fala comigo.

A porta que divide a recepção das salas, agora, permanece aberta.

sábado, 23 de novembro de 2013

Hésus


Pegamos um caminho novo, sombras novas, lojas novas, e acabamos chegando tarde.

Não tinha cadeira e, portanto, deitamos com o corpo na areia, sentindo as novas texturas disponíveis.

O de sempre: o mar, a areia, o sol, as nuvens, as pessoas, as crianças, as bolas (de todos os tamanhos). Até a maconha.

Mas, nem por isso, menos pior. Cada dia melhor, aliás.

A gente, diferente, as conversas, o mate, os pensamentos, as risadas, as angústias, os olhares.

E por falar em olhares, o vimos "correndo". Sim, entre aspas. Uma corrida lenta. Talvez uma andada saltitante.

Ela o chamou de Don Quixote brasileiro.

89 anos, quase 90. Vestia sunga verde, e carregava chinelo preto e blusa branca, enrolados, na mão. Ele correu pra lá. E depois pra cá. Cabelos - poucos - brancos. Muito, muito, muito magro. Via-se as suas costelas, os ossos da perna, da bacia.

Nasceu no Brasil, mas seus pais, espanhóis, queriam que se chamasse Jesus. O pai só percebeu, no dia seguinte, que, na certidão, ficara Hesús.

- Maldito escrivão! - murmurou o pai, quando a esposa viu e leu para ele.

- Mas ficou bonito, Hernandes. Hesús, Hesús... - a mãe treinava, embalando o pequeno.

Seus pais ainda o chamavam - na intimidade de casa - de Jesus. O resto todo, de Hesús.

Hesús ficou viúvo há 8 anos e, vem vivendo, a partir de então, uma vida sozinha e silenciosa; tentou, portanto, ir à praia e gostou.

Seus filhos, netos e bisnetos - são muitos - vêm visitá-lo quinzenalmente, e trazem tudo pronto para o almoço. A comida sobra para o resto da semana, e é isso que Hesús come: pouco. A faxineira vem, e faz uma comida fresca, na semana. Ele mantém-se assim.

Não é triste. Nem, tampouco, é feliz. Vive a sua vida.  Gosta do silêncio, e do som das ondas do mar.

Aos domingos, Hesús toma o seu café cedo e vai à praia, antes do almoço, dar a sua corrida. Tem fôlego o velhinho.

Gosta de sentir o mar gelado aos seus pés. De desviar das crianças correndo, e das ondas maiores. Pega uma bola ou outra que insiste em parar aos seus pés. Vê os jovens e pensa na sua época... "Ah, meus 25, 30 anos...".

Apesar de não conseguir ver seu olhar, Hesús é um homem corajoso, forte.

Vê-lo correndo, hoje, me deu coragem e força.


Obrigada, Hésus, por fazer paisagem, na praia, hoje, para a gente.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Carlinhos


Hoje a praia foi atípica. Carlos Henrique é o seu nome. Filho de uma das grandes, melhores e das mais antigas amigas: Carla.

É uma criança: oito anos. Eu não o tinha visto, quando fomos nos encontrar, na esquina da minha rua. Seus braços magros e pequenos abraçaram minha cintura e tive a deliciosa surpresa de passar um feriado-de-sol-no-meu-canto com uma criança que, eu já sabia, é encantadora.

Ele comeu biscoito Globo, bebeu mate-com-limão do Quinho, tomou picolé sabor chiclete, brincou de Mak-Steel (eu poderia procurar este nome na internet, mas eu sequer consigo pronunciar este nome). Brincou na sombra e no sol. A mãe e a tia Lu passaram protetor solar nele.

O mar estava gelado e forte; mas ele brinca na beiradinha - "ele é cagão", diz a mãe. 

Brincamos no mar juntos. De pular as ondas; de gritar (sim, gritamos quando estamos felizes); de enfiar a cara na água; de mergulhar; de pegar onda de bodyboard; de enterrar os pés na areia, quando a onda vinha; de Rose and Jack (tipo Titanic, de mãos dadas, e braços esticados); de jogar água um no outro; de procurar conchas; de olhar a própria sombra; e, quando a gente se distraía, ele vinha nos abraçar. No mar, na areia, na cadeira, na sombra: em qualquer lugar.

Contou piadas, anedotas e charadas. Nos matou de rir. Fez uma mágica indecifrável (estou tentando descobrir até agora), e achou o máximo ver a nossa cara de espanto com o truque (a minha cara era real, de espanto).

Na saída, antes de chegarmos no ponto de ônibus para nos despedir, estávamos no banco, no calçadão, acabando de nos vestir, pentear, tirar a areia, etc., vinha Carlos dar um abraço. Ele não pede abraço: ele dá abraço. É um abraço pequeno, de braços magros, próprio das crianças de oito anos. Mas um dos mais gostosos que já recebi.

Dentre tantas coisas que brincamos, eu e Carlos brincamos de celular. Ele me mostrou um jogo que ele gosta, de comprar carros, e dirigir carros, e o Pow, um bicho estilo Tamagochi (da minha época). 

Carlos me mostrou as roupas do Pow (o uniforme da escola e o terno, "pra ele passear").

- Mas ele estuda na escola e já tem terno?

- Tem, para passear.

Mostrou as roupas todas do Pow, as comidas, e como ele faz pra dar banho e fazer carinho no bicho-virtual. 

- O Pow tem uma bola de basquete, que ele joga futebol.

- Mas ele joga futebol com a bola de basquete?

- Sim. A de futebol era muito cara. E eu comprei a de basquete para ele brincar.

Eu descobrir que o "comprar" do Pow, adquire-se moedas jogando (isso é um jogo?) e, aí, pode-se comprar o que quiser para o Pow. Pode ser que ele tenha querido jogar bola (meninos e Carlos, em geral, gostam), mas a de futebol era cara: compra-se a de basquete, neste caso.

Este blog, chama-se Fotografando Gente. Eu gosto de fotografar gente. Com o celular, a câmera, e as palavras. 

Vi uma cena do Carlos: comendo biscoito Globo, e brincando-de-algum-jogo-no-celular, sentado à sombra, e click: foi com o celular. Direto, a foto vai para o facebook.

Alguns adultos comentaram: "com esta idade, eu brincava de x-y-z", e "as crianças perderam a criatividade da minha época. Com a globalização, a infância acabou". 

Restaram-me algumas dúvidas:

- Adultos, vocês brincam com seus filhos, sobrinhos, netos?
- Vocês interagem com pessoas desconhecidas na rua, ou "interagem" pelo whatsapp, instagram, facebook, twitter, no celular?
- Vocês apontam e criticam as crianças que brincam na virtualidade e vocês, brincam aonde?

Nestas questões, o dedo está apontado para mim, também.

E, eu não sei vocês, mas das horas que ficamos na praia, eu e Carlos brincamos muito. Na vida real. Conosco e com gente desconhecida.

Eu não sei esse tal de Carlos Henrique, mas eu sou uma mulher de muita sorte, por tê-lo como amigo.