quinta-feira, 20 de junho de 2013

Em observação, no CMNG

PARTE 1
Hoje é dia 20 de junho, 5ª feira, são 8h27.
Estou no Centro de Medicina Nuclear da Guanabara, no Centro, aguardando o meu exame.
Estou sentada numa recepção, logo à frente (existem muitas cadeiras, talvez umas 50, atrás de mim).
Na minha frente, uma pequena mesa com café. E, três portas: uma na minha frente, que parece banheiro; uma do lado esquerdo; e uma do lado direito.
A recepção em si (com os guichês) fica ao meu lado direito, mas atrás de mim.
Do lado de trás, a porta de entrada do andar.
Sentada, ao meu lado direito, tem uma moça também aguardando. Veste calça preta, casaco preto, bolsa preta. ´w branca, magra, baixa. É loira e tem o cabelo liso, comprido. Olha a TV, no jornal da manhã.
A moça da limpeza passa e entra na porta da direita.
Uma moça sai da porta da direita e entra na porta da esquerda. Ela sai da porta da esquerda e vai para a recepção e, depois, entra na porta da direita.
Uma senhora senta ao meu lado. Veste calça verde, casaco preto, usa bengala. Tem o cabelo curto, castanho caju. É branca, baixinha e gordinha. Olha a TV e olha o chão e a recepção, alternadamente.
Um rapaz sai da porta da direita.
- Natália Bernardo.
A menina loira entra com ele na porta da direita.
A senhora senta, agora, onde a Natália estava sentada.
A moça da limpeza sai da porta da direita.
A senhora olha a recepção, olha para trás, sempre se apoiando na bengala.
Uma moça senta ao lado da senhora e conversa com ela.
- Tem que pegar a senha e esperar chamar para ser atendida. A Helena não marcou nada. Eles é que fizeram merda.
Uma moça sai da porta da direita e entra na porta da esquerda.
Uma moça sai da porta da esquerda.
Uma moça sai da porta da esquerda e entra na porta da direita.
- Segunda feira eu estou lá. 539.
A moça ao lado da senhora é negra, alta, magra. E séria.
Fui chamada.

PARTE 2
Agora são 8h46.
Estou na mesma recepção, mas logo atrás (existem muitas cadeiras, agora à minha frente, talvez umas 50).
Exatamente na minha frente, uma senhora lê o jornal de esportes. Usa calça jeans, casaco vermelho, cabelos curtos e avermelhados, e óculos. É branca, baixinha e peso normal, meio o estilo “socadinha”.
A recepção em si (com os guichês) fica ao meu lado direito.
Do lado de trás, a porta de entrada do andar.
Ao meu lado direito, tem uma moça também aguardando. Veste calça jeans, sapatilha xadrez, blusa vermelha e bolsa preta. É branca, baixinha, um pouco gordinha. Tem o cabelo preto, liso, e usa óculos. Presta atenção na televisão, bem à sua frente.
Estou sentada bem no canto, junto à parede.
A moça ao meu lado mexe no papel do guichê. E fica o tempo todo balançando as pernas.
A moça da minha frente vira a página do jornal e coça o nariz. Fecha o jornal, busca algo dentro da bolsa, pesca uma bala, e abre-a, vagarosamente. Coloca na boca, guarda o papel da bala, olha a TV e volta para o jornal, enquanto chupa a bala. Arregaça as mangas do seu casaco e continua lendo o jornal, no caderno de esportes. Coloca a mão na boca. Olha para a recepção. Mexe no seu cordãozinho de ouro. Coloca a mão na boca e, agora, nas têmporas. Tira a mão do rosto, fecha o jornal, fala com a moça ao seu lado. Olham para trás. Guarda o jornal e sorri. Ajeita-se na cadeira, estica as pernas. Olha para a TV e balança as pernas. Usa uma sapatilha bege claro. Tosse, duas vezes. Pigarreia. Olha para o lado.
A moça ao meu lado, permanece imóvel, de braços cruzados, agora sem mais balançar as pernas, e olhando fixa e seriamente para a TV.
A moça da minha frente, agora, balança as pernas, com os pés cruzados, no ar. Olha para o lado. Conversa – muito baixinho – com a moça ao seu lado direito. Pára de conversar e olha para a TV, agora, balançando as pernas separada e alternadamente. Olha para trás. Ajeita seu casaco.
- É...
A moça do meu lado direito fala sozinha, pensativa. Continua séria, imóvel, braços cruzados, olhando para a TV.
A moça da minha frente mexe na bolsa, atende o celular.
- Oi. Tá. É. Tá. Não sei. Tenho. É. Tá bom. Tá ótimo. Vem almoçar? Vem almoçar? Você vai chegar em casa para almoçar? Lá pelas 2 horas.
- Isso é a senha? Senha 204... Vai e volta. Vai e volta.
A moça ao meu lado começa a se mexer na cadeira.
A moça da minha frente desliga o celular e guarda-o na bolsa.
A moça do meu lado direito olha para a sua senha – 204 – e mexe as pernas, impacientemente. Agora, está sentada curvada para a frente, desencostada do encosto.
A moça da minha frente, também, balança as pernas e mexe em algo na sua bolsa, e olha para a TV, sem muito entusiasmo. Abre a bolsa e guarda algo. Pega uma sacola ao seu lado esquerdo, e vasculha algo dentro dela. Coloca a sacola ao lado. Olha para a recepção e vê as senhoras chegando, mais velhas que ela. Ela chega para o lado e fala algo com a senhora que está ao seu lado. Balança as pernas, separada e alternadamente. Olha para trás, na recepção. Pára de balançar as pernas. Ajeita-se na cadeira. Mexe em algo na bolsa. Pega uma nova bala, coloca na boca. Guarda o papel na bolsa. Balança as pernas alternadamente. Olha para os lados. Olha para a TV.
A moça ao meu lado direito não tira os olhos da TV. Recosta-se na cadeira, mexe no cabelo, tosse. Cruzou os braços e volta à imobilidade.
A moça da minha frente mexe as pernas, vagarosa e alternadamente, e olha para a TV.
A moça ao meu lado direito, agora, balança as pernas, com os tornozelos cruzados. Parou.
A moça da minha frente balança as pernas, alternadamente, em movimentos circulares.
A moça ao meu lado direito estica as pernas, e volta a balançá-las, com os tornozelos cruzados. Parou.
A moça da minha frente olha para a recepção e volta a olhar para a TV. O movimento das pernas permanece.
A moça ao meu lado direito olha as horas, cruza os braços e volta a olhar para a TV.
- Eu acho que está demorando. – Resmunga.
Agora, balança as pernas, com os tornozelos cruzados, com força. Se posiciona para a frente, e olha a recepção. Volta a olhar para a TV. Continua balançando as pernas, e pára.
A moça da minha frente, agora, balança as pernas cruzadas, tal como a moça ao meu lado direito. Olha para a recepção e volta a olhar para a TV.
A moça ao meu lado direito descruza os braços, mexe em algo dentro da sua bolsa, tira uns papéis e documentos. Fecha a bolsa. Ajeita-se.
Fui chamada.

PARTE 3
Agora são 9h11.
Estou aguardando o meu exame.
Estou sentada numa pequena recepção, sozinha. Preciso beber dois copos de água, e não ir ao banheiro.
Ao meu lado direito, duas cadeiras, um filtro, com água, e uma TV, na Record.
Na minha frente, mais duas cadeiras e a porta que dá acesso a outras áreas da clínica.
Entra uma moça pela porta da frente.
- Bom dia.
- Oi, bom dia.
Eu e ela sorrimos.
Ela veste uma calça preta, social, blusa bege, cinto preto, sapato preto, social. Ajeita a blusa e bebe água. É branca, magra, alta. Cabelo escuro, e liso. Sai, na mesma velocidade que entra.
Volto a ficar sozinha na pequena recepção.
Meu namorado me liga e fico no celular com ele. Ficamos 7 minutos no celular. Desligo, e volto a ficar sozinha e silenciosa na recepção. Agora, sorridente.
O celular toca. Era uma candidata. Falo com a mesma, rapidamente. Desligo o celular e volto a ficar sozinha e silenciosa na recepção.
Uma moça entra na recepção, com uma menina.
- Oi. Tou. Já entrou, tá esperando. Ganhou? Que bom. Parabéns. Parabéns por você ter ganhado lá. Porque você ter ganhado significa que você ta indo bem no trabalho. Tá bom, tchau.
A moça senta na minha frente, mas só consigo ver a metade do corpo dela. Ela está de frente para uma pequena parede que nos divide.
A menina pára na minha frente, e fica mexendo no celular, que toca funk.
Não consigo ver a mãe, e, agora, nem a menina.
- Poxa, teimosa. Quando as pessoas falam com você, você obedece. Acho que ele mandou uma mensagem pra mim.
A mãe veste calça jeans, blusa preta listada com branca, e uma bolsa vinho. É branca, baixinha, magra, e tem o cabelo preto, liso, curso.
- Peraí, Taiane.
Agora, a menina vem para a minha frente. Usa calça jeans, blusa preta e amarelo, e sandália rosa. Senta ao lado da mãe e ouve o celular, com fone de ouvido.
- Ta chovendo?
- Não.
- Ela tá trabalhando no computador?
- Ta. Peraí, deixa eu ver. Não vê que eu tou falando com a sua irmã? Me dá um aqui pra eu falar com ela.
A mãe pega um dos fones de ouvido do celular.
- Deixa o seu recado.
Uma está sentada do lado da outra. Não se parecem. A menina tem o cabelo crespo, comprido, preso. É bem mais magra que a mãe. Tem um rosto bonito, mas em nada se parece com a sua mãe.
- Quem é sogra?
- Quem é sogra? Sua avó, né? A mãe do seu pai.
- Taiane feia. Tem que escrever Taiane linda, não Taiane feia.
- Taiane teimosa.
- Prepara, que agora vai começar o show das poderosas.
A menina canta e senta ao meu lado. Levanta e vai para o lado da mãe.
- Vou te levar direto pra casa, não vou te levar pro meu trabalho, ouviu?
O meu celular toca. Mais uma candidata. Falo com ela e desligo.
Taiane, agora, está sentada na minha frente, ao lado da mãe.
- Eu acho que está chovendo.
Ela deita no colo da mãe e balança as pernas. Mexe no celular da mãe, com o fone de ouvido.
A mãe cata possíveis piolhos no cabelo da filha. Não consigo perceber se é “catar piolho” ou “carinho”. Não sei as formas de carinho das duas.
As duas estão silenciosas.
Taiane balança as pernas longas e magras, alternadamente, e não tira os olhos do celular. Ouve alguma coisa pelo fone.
- Olha, sete um e sete. Sessenta e sete. Cento e sete.
O celular toca. A menina atende.
- Alo. É.
Ela dá o celular para a mãe.
- Oi, filha. É exame, tomografia. Ainda não. Tamos aqui na sala, aguardando.
- É.
- E aí, tá tudo bem, já ajeitou as coisas?
- Pra quando acabar de estudar, é pra tu lavar a louça.
- Tá bom então. Beijo, tchau.
- Tchau.
As duas – mãe e filha – falavam com a outra filha (da mãe) pelo fone de ouvido do celular.
A menina volta a deitar no colo da mãe.
- Eu acho que está chovendo mesmo.
A menina tosse. Balança as pernas.
- Toma, mãe.
- Olha só. Eu não quero barulho aí.
Eu e Taiane fomos chamadas.

Fechando meu exercício de observação por aqui.

domingo, 16 de junho de 2013

A menina, a mãe, a avó

Eu não estava lá; mas nem importa.

Nossos contos, a quatro mãos, são sempre fotografados por uma, escritos pela outra. Uma tem olhos; outra, tem dedos. Ambas, têm sintonia e sensibilidade de perceber o outro.

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Estava eu na França, quando vi, ao longe, uma catedral. Não sou católica, nunca fui. Mas as catedrais me encantam. Os vitrais coloridos, que, sob a luz do sol fresco iluminam o interior; a energia do lugar; as pessoas  da cidade que entram, fazem a sua reza, e saem. Toda a atmosfera me encanta neste tipo de ambiente. 

Os museus são para serem contemplados; as catedrais, para serem sentidas. E eu gosto mais de sentir do que de ver. 

Neste dia, dei sorte. Na catedral, um coral ensaiava. O professor regia a turma - de homens e mulheres, com uma faixa entre 20 e 40 anos -, que, no altar, cantava concentrada, para a apresentação de tarde. Esta não era, portanto, uma apresentação do coral, mas sim um ensaio, um improviso, um teste pessoal e coletivo. 

As vozes se misturavam. Os tons se acrescentavam. Os olhares, todos para um único ponto. Uma errava e fazia que não com a cabeça, castigando-se. O professor sorria; ela sorria. Parecia um balé de sons. Era bonito de sentir. 

Eu, como não entendo francês, não sei traduzir o que eles cantavam. Era assim mais fácil, portanto, sentir do que entender. 

A catedral estava vazia. Num local que caberiam centenas de pessoas, havia poucas dezenas. Pude ver, com clareza, então, quando as três entraram. A mais velha, não tinha mais do que 60 anos; a mãe, cerca de 35; e a pequena, apesar da chupeta, cinco.

Filha, mãe, avó. Tocavam-se o tempo todo, sutilmente: eram unidas. A menor, unia as duas maiores. Eram, todas, amigas.

Entraram na catedral, lenta e silenciosamente. Sentaram bem perto de mim, com a pequena no meio das duas maiores. Ela era, o que se pode dizer, de uma criança especial, em todos os sentidos. Especial pois tinha alguma questão mental / psíquica limitadora (?); especial pois tinha uma mãe especial; especial pois, assim como o ambiente também permitia, era uma menina que sentia. 

As três, da segunda fileira de bancos, olhavam para o mesmo ponto: a homogeneidade do coral. Eu, que apenas queria sentir - e não ver - contemplava as três. 

A mãe respeitava a especialidade da filha. A filha sabia - apesar da fresca idade - da sua especialidade. A avó, grande mestre, contemplava filha e neta com respeito.

O olhar da moça do coral - aquela que errava e fazia que não com a cabeça - cruzou com o olhar da menina. Pude ver que elas, a partir de então, não se desgrudaram mais. Uma hipnotizou a outra. Ninguém percebeu. Não precisava; não podia. Só as duas sabiam.

A mãe passou o braço pelo corpo magro da menina, e aninhou-a em seu corpo. O corpo da mãe era macio e cheiroso. A pequena recostou a cabeça, e a mãe ficou, agora, acariciando seus fios finos de cabelos loiros.

Apesar de piscar lentamente - pela sua sensível especialidade - os olhos da menina não desuniam do olhar da moça do coral.

Uma mostrava para a outra a sua mais íntima especialidade: sentir. Sentir-se. 

Agora, portanto, a moça não fazia mais "não" com a cabeça. Ela apenas acertava, e sorria. Tinha encontrado a sua essência naquele olhar que piscava lento.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sandra

Eu a conhecia pelo telefone, assim, bem profissionalmente. Só repassando minhas ligações, igualmente profissionais. Ela sorria quando me ouvia, quando falava.

A vi pessoalmente, pela primeira vez, de peruca. Vestida de uma princesa-que-não-lembro-o-nome. Era uma festa profissional, apesar de à fantasia. Falamos pouco. O sorriso que eu ouvia no telefone, ouvi, também, no seu olhar silencioso.

Não sei precisar quando começou a amizade. Mas hoje, sendo aniversário dela, ela merece, sim, ser fotografada.

Ela já veio almoçar comigo. Tomar café da manhã. Lanchar no meio da tarde. Passar aqui, no dia do meu aniversário. Já trouxe presente. Já levou roupas minhas (e minhas mochilas). Já levou caneca. Já trouxe Coca-Cola. Já trouxe Guaraviton. Já nos encontramos na rua - ao acaso (acaso?) - e a resgatei, pra um café comigo. Já cortei as uvas para ela. Ela já lavou minha louça.

Ela já foi ao Jardim Botânico, na minha árvore-avó. Veio - de longe - estar com gente que ela não conhecia. Buscou um cantinho no sol. Veio me abraçar no momento de dor e saudades. Veio dizer: estou aqui.  E tem estado. Conheceu meu tio (meu amor...) - e minha família - e tem os meus como se fossem dela. 

Já fomos à praia juntas. E entramos no mar. E rimos, e choramos. E nos banhamos pelo sol.

Já me levou ao teatro. Já tivemos vontade de dançar, quando só podíamos balançar os pés e ficar - rindo - contidas do ambiente "não-pode-dançar-aqui!".

Já nos falamos por skype. Já nos falamos por whatsapp. Ela já enxugou as minhas lágrimas. E eu as dela. Já rimos às gargalhadas. Já nos entendemos no olhar silencioso.

Ela conhece - e ama - a minha melhor amiga e irmã.

Ela conhece e - apesar de não ser de graça -, adora meu namorado. E ele idem. 

Hoje, Sandra, eu desejo tudo de melhor que a vida possa oferecer para uma pessoa iluminada, como você.

Que você tenha amigos e amigas em quem possa confiar e contar.
Que você tenha seu amor, perto ou longe. E seu pequeno.
Que você tenha a sua família. A sua mãe, a sua pequena, os seus gatos.
Que você tenha a sua casa, seja lá onde ela for. 
Que você tenha uma cama, e um canto, pra dormir e poder ser chamegada.
Que você tenha comida e bebida. E motivos sempre para celebrar.
Que você tenha um trabalho que te dignifique e que te faça feliz.  
Que você tenha segurança, paz, tranquilidade.
Que, todos os dias, você seja plenamente feliz.
Que o seu olhar feliz - do qual me orgulho muito - e amoroso - que me conforta tanto - nunca se perca.
Que você possa ver (mesmo que eu não esteja junto) em mim - sempre - uma amiga, que estará por aqui, celebrando, com alegria, cada dia da sua vida.

Eu amo você.
Lua

Um dia qualquer, na RHITSolution

Um dia qualquer, de manhã cedinho, na RHITSolution

Um dia qualquer, na RHITSolution

Um dia qualquer, na RHITSolution

No dia que veio pegar minhas mochilas, na RHITSolution

No dia do meu aniversário, na RHITSolution

No dia do meu aniversário, na RHITSolution

Um dia qualquer, na RHITSolution

Um dia qualquer, na RHITSolution

O último dia juntas - um lanche à noite na sexta-feira, na RHITSolution

domingo, 9 de junho de 2013

Quinho e o menino

Todos - quase todos - sabem que minha praia é minha igreja. É lá que me sinto inteira. É lá que me renovo para a semana, para a vida, para mim mesma. É lá que fotografo gente - as que podem (e pedem para) ser fotografadas.

É lá que me torno inteira com Tha e com Quinho. Tha é amiga muito, muito querida. Quinho, diriam os mundanos, é apenas um fornecedor de mate (daqueles de galão). Mas ele é, também, nosso amigo. E, quem tem o prazer de ser seu amigo, aprende muito com ele. 

Ele assiste canais sobre animais. Ajuda os gatinhos filhotes da laje da comunidade a acharem a mãe. Dá cachorrinhos de pelúcia para sua pequena filha, quando, na verdade, queria ter cachorros de verdade, que pudesse cuidar. Ele conta a sua história, sempre, todos os domingos. Ouvimos, sempre, atentas. Ele nos deixa o mate com um pingo de limão. Deixa, também, o brilho no nosso olhar.

Ele nos trata pelo nome, deixa o galão no chão, para descansar, conta da sua semana, pergunta da nossa. Às vezes, achamos que ele tem uma vida sofrida. Não tem. Quinho é feliz. 

Hoje, mais um domingo de pouco sol, praia vazia, o futebol mais perto do que gostaríamos. 

Quinho vem, pousa o galão, nos serve, e conversa vai, conversa vem. Ele fala do filme que assistiu - "Abismo do medo" -, do morcego que come sangue das pessoas; do facebook; da filha; do chimpanzé cuidando dos filhos, na televisão; do galão de 40 litros de "óleo dise" que achou no mar, e vendeu; contou da morte do traficante e do perigo que sofreu ali, na Central do Brasil.

Pergunta do nosso trabalho, da nossa semana, dos filmes que assistimos, diz que estou mais magra, brinca e nos sacaneia, sempre com um sorriso no olhar, que contagia o nosso.

De longe, eu já tinha visto o menino. Teria por volta dos seus 14 anos, sozinho, muito sujo, visivelmente perturbado. Uma bermuda larga para seu corpo magro, uma garrafa de Guaraviton, cheia de areia, um cabelo bonito, encaracolado, grande, mas imundo de areia. 

Tinha um olhar e postura intimidadores. Um discreto (e pensado) sorriso que não chegava a seus olhos.

- Tia, paga um mate pra mim? - a 10 centímetros de mim.
- Não. Pago nada.

Em segundos, seu sorriso desapareceu e, em câmera lenta, virou o corpo para sair.

- Peraê, cara. Tu quer um mate? 

O menino, que não sorria mais, sorriu. Desvirou o corpo.

- Eu te dou um mate. Pega aí o copo. Com limão que tu quer? Melhor pedir que roubar, né não, irmão? Põe o copo aí. Assim, cara, aqui, ó. Isso. Ué, peraê, já tá indo embora? E o mate? Aí só tem limão, cara. Toma aí o mate agora. Valeu. Assim tá bom? Valeu, segue aí. 

Quinho nem sabe, mas ele hoje não nos vendeu seu mate; não compartilhou apenas a sua história; não ouviu a nossa - mundana - vida.

Quinho, todos os finais de semana, nos ensina sobre a vida e sobre as relações.