segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Em observação, no Psicologia e Coaching - 22

Hoje é terça-feira. São 17h05.

Estou no consultório Psicologia e Coaching, sentada à mesa. Na minha frente, duas cadeiras vazias. Ao meu lado direito, parede. Ao meu lado esquerdo, um móvel com uma bandeja em cima.

Por aqui, tudo aceso e silencioso.

O celular bipa. E-mail de cliente. Respondo.

Volto ao silêncio.


domingo, 28 de setembro de 2014

Em observação, no Espaço da Mulher - 20

Hoje é segunda-feira. São 8h21.

Estou no Espaço da Mulher, sentada em uma mesa. Na minha frente, duas cadeiras vazias. Ao meu lado direito, mesas e cadeiras vazias. Ao meu lado esquerdo, uma cadeira com minha mochila em cima.

Por aqui, tudo aceso e silencioso.

O celular bipa. E-mail de candidato que chegou.

Volto ao silêncio.

O celular bipa. Whatsapp de paciente.

Volto ao silêncio.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O menino do M&M's

Uma quinta-feira. Dessas bem incomuns. 
Ruim. Boa. Ótima. 
Tudo isso num único dia.

Um bar diferente.
O cenário, de sempre. A praia que amo. Que amamos.
Um friozinho quase desagradável.

Vem um pingo de gente.

- Quer um MM's?
- Quanto é, cara?

Ele faz "3" com os dedos da mão. E a caixa de sapatos, com três MM's dentro.

Ele tira dois reais de dentro da carteira e entrega.

- É três, amor.
- Ah...

Pega mais um real dentro da carteira e entrega.

- Valeu, amigão.
O menino deixa o MM's e sai.

Cerca de quarenta minutos depois, volta, e se debruça nas nossas cadeiras...

- Oi, cara. E aí?
- Me roubaram.
- Os MM's?

Fez que sim com a cabeça.

- Como?
- Fui mijar. E levaram os MM's.
- Não podia mijar com a caixa?
- Ia molhar, né?
- Ué, segurava a caixa.
- E o pinto?
- A caixa numa mão. O pinto na outra.
- Mas e baixar o short e tal? E se deixasse a caixa perto, molhava com o mijo. Não deu. Levaram.
- Os MM's?
- Sim. E eu fui só mijar.
- Sacanagem, né?

Fez que sim com a cabeça.

- Quantos anos você tem?
- Seis.
- Qual seu nome?
- Iuri.
- Cadê seus pais, Iuri?
- Tão ali. 

Apontou para o calçadão.

- Trabalhando?
- Pedindo. Melhor que roubar, né?
- É.
- Meu pai correu atrás do ladrão do MM's, mas não conseguiu. E o guarda falou que o ladrão tava certo de ter levado, que eu dei mole. Mas eu tava mijando, pô.
- É, sacanagem.

Nosso cardápio de hoje tinha sido filé mignon, com queijo e batata frita, na chapa.

- Toma, carne, Iuri.

Ele comia, e conversava, com a gente.
E eu ia colocando mais carne na mão dele.
E ele comendo.
E conversando.
E se pendurando nas nossas cadeiras.
E conversando. Do roubo. Do mijo. Do pinto. Dos MM's. Dos pais pedintes. Do ladrão. Do polícia.

Veio um menino mais velho.

- Me dá uma carne dessa aí, Iuri.
- Esse é meu irmão.
- Toma, carne pra você. Deixa o Iuri com a dele. Tem carne aqui, toma.
- Obrigado.

- Deu de carne, né, Iuri? Já comeu pra caralho.
- É, obrigado.

Iuri, um mini-ser-humano, de seis. Vendendo seus MM's.
Um menino doce, querido. Conversador. Gentil. 

Só queria dar a sua mijada. E vender seus MM's. 
Foi roubado.
E ganhou carne. Ele e o irmão.
Não deu pra alimentar ele o tiquinho de carne.

Mas adoçou a gente com a sua conversa e seu MM's.

Em observação, no Psicologia e Coaching - 21

Hoje é sexta-feira. São 8h28.

Estou no consultório Psicologia e Coaching, sentada à mesa. Ao meu lado direito, parede, ao meu lado esquerdo, um móvel com minha mochila em cima. Na minha frente, duas cadeiras vazias.

Por aqui, luzes apagadas e tudo silencioso.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Em observação, na clínica - 5

Hoje é quinta-feira. São 8h17.

Estou na clínica de cirurgia da obesidade, sentada na recepção, sozinha, aguardando ao atendimento. Ao meu lado direito, parte do sofá vazio. Ao meu lado esquerdo, parte do sofá vazio. Na minha frente, o vão por onde as pessoas passam.

A recepcionista passa e entra no balcão. Está no telefone.

Sou chamada.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Em observação, no Psicologia e Coaching - 20

Hoje é sexta-feira. São 11h58.

Estou no consultório Psicologia e Coaching, sentada à mesa. Na minha frente, uma cadeira vazia. Ao meu lado direito, parede. Ao meu lado esquerdo, um móvel, com três garrafas em cima.

Por aqui, tudo aceso e silencioso.

O computador bipa. Inbox do Alexandre. Inbox da Sandra.

Volto ao silêncio.

O celular bipa. E-mail que chegou.

Volto ao silêncio.

O celular bipa. E-mail que chegou.

Volto ao silêncio.

O celular bipa. E-mail que chegou.

O computador bipa. E-mail que chegou.

Volto ao silêncio.

O celular bipa. E-mail que chegou.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Em observação, no Espaço da Mulher - 19

Hoje é quinta-feira. São 8h35.

Estou no Espaço da Mulher, sentada em uma mesa. Na minha frente, duas cadeiras vazias. Ao meu lado esquerdo, uma cadeira com minha mochila em cima. Ao meu lado direito, uma mesa com cadeiras vazias.

Por aqui, tudo aceso e silencioso.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Em observação, no Psicologia e Coaching - 19

Hoje é segunda-feira. São 18h59.

Estou no consultório Psicologia e Coaching. Na minha frente, Alessandra(*) está sentada, fazendo redação. Ela é mulata, magra, baixa. Tem o cabelo encaracolado, preso num coque. Usa óculos. Veste uma blusa azul, social. Está fazendo uma redação.

Ao meu lado direito, parede. Ao meu lado esquerdo, um móvel, com duas garrafas d’águas e copos plásticos em cima.

Por aqui, tudo aceso. Estamos silenciosas.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Em observação, no Espaço da Mulher - 18

Hoje é quinta-feira. São 9h08.

Estou no Espaço da Mulher, sentada em uma mesa. Na minha frente, duas cadeiras vazias. Ao meu lado esquerdo, uma cadeira com minha mochila em cima. Ao meu lado direito, uma mesa com cadeiras vazias.

Por aqui, tudo aceso e silencioso.

O celular bipa. Inbox do Manoel.

Volto ao silêncio.

O celular bipa. SMS do IBBCA.

Volto ao silêncio.

O celular bipa. Whatsapp da paciente.

Volto ao silêncio.

O celular bipa. Whatsapp da paciente.

Volto ao silêncio.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Em observação, no Psicologia e Coaching - 18

Hoje é quarta-feira. São 16h38.

Estou no consultório Psicologia e Coaching, sentada à mesa. Na minha frente, uma cadeira vazia. Ao meu lado direito, parede. Ao meu lado esquerdo, um móvel, com três garrafas d’água em cima.

Por aqui, tudo aceso e silencioso.


domingo, 7 de setembro de 2014

Em observação, no escritório do pai - 20

Hoje é segunda-feira. São 17h47.

Estou no escritório do pai, sentada na mesa dele. Na minha frente, duas cadeiras vazias. Ao meu lado direito, uma mesa cheia de coisas. Ao meu lado esquerdo, alguns móveis cheios de coisas.

Por aqui, tudo aceso e silencioso.

O facebook bipa. Menção da Sandra.

Volto ao silêncio.

O facebook bipa. Menção da Sandra.

Volto ao silêncio.

O relógio bate 18h.

Volto ao silêncio.


sábado, 6 de setembro de 2014

Lucio, Mariana, Catarina

Lúcio é o pai. Mariana, a filha. Ele, cerca de 70. Ela, por volta dos 30 e poucos. O cenário é a mesa do jantar. 

Ele - apesar da idade - ainda trabalha, no Centro do Rio, de carro. O estacionamento onde ele pára o veículo está fechado e, portanto, ele tem ido de outras formas. De táxi, quase sempre. Os cabelos brancos já não permitem grandes aventuras pelo trânsito.

- Hoje voltei pra casa de cata-corno.

- De ônibus, cara?

- É. De ônibus. Peguei ali, na Carioca. Perto do trabalho do Djalma.

- Ah, sei.

- Mas teve um que bateu no outro.

- O ônibus?

- É.

- O teu?

- Não. O de trás com o da frente.

- Hã?

- O ônibus que estava atrás do que eu peguei, bateu um de trás do outro. Dois de trás. Atrás. Através. Atravessou.

E o velho - que ainda não está gagá -, começou a filosofar.

- Mas isso você não conhece. É li-te-ra-tu-ra, Mariana. Literatura. 

- Ah, sei. 

- Mas aí, no ônibus, um velha, mais velha do que eu até (talvez, eu acho, né?), me cedeu o lugar. Aí eu mandei logo: "De jeito nenhum", e empurrei ela pra se sentar de novo. "Tá me chamando de velho?". Aí ela: "Não, por favor, não se ofenda". "Não me ofendo, mas a senhora nem quis deixar eu ir lá pra trás do ônibus, já queria me ceder o seu lugar, pra eu ficar por aqui. Pois bem, agora vou ficar por aqui, com a senhora".

- Mentira, pai?

- Juro. 

- E aí? Qual o nome da velha?

- Catarina.

- Mais velha que você mesmo?

- Não perguntei a idade, né, Mariana? 

- Mas aí você foi de pé?

- Fui.

- Conversando com a velha?

- Sim, com a Catarina.

[Agora a velha tinha nome...]

- E foram conversando sobre o que?

- Sobre saúde e doença. Da glicose, e de pressão, e de mais um monte de doença.

- É, era mais velha que você. Velho conversa de doença.

- É, mas agora estou te falando da Catarina.

- Coitada da Catarina, né? Teve que vir te aturando a viagem inteira de lá até aqui. 

- É. Aí, quando ela ia falar alguma coisa, eu disse: "Dona Catarina...", ela não gostou muito de eu chamá-la de dona. Mas aí eu disse, continuando: "Dona Catarina, agora eu vou ter que saltar. O próximo ponto é a minha comunidade", e saltei aqui em casa. 

- Que aventura, hein, seu Lúcio?

- É, andar de ônibus nessa cidade né mole não.

- Ué, mas eu tava falando da Catarina...

[Seu Lúcio mal sabe, mas Mariana morria de orgulho dele... Velho mais conversador e amado este...]

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Em observação, no Espaço da Mulher - 17

Hoje é quinta-feira. São 10h50.

Estou no Espaço da Mulher, sentada à mesa. Na minha frente, duas cadeiras vazias. Ao meu lado esquerdo, uma cadeira com minha mochila em cima. Ao meu lado direito, uma mesa com cadeiras vazias.

Por aqui, tudo aceso e silencioso.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Em observação, no Psicologia e Coaching - 17

Hoje é quarta-feira. São 15h54.

Estou no consultório Psicologia e Coaching, sentada à mesa. Na minha frente, duas cadeiras vazias. Ao meu lado direito, parede. Ao meu lado esquerdo, um móvel com minha mochila, três garrafas d’água e copos plásticos.

Por aqui, tudo aceso e silencioso.

O celular bipa. E-mail da Anna Lúcia que chegou.

Volto ao silêncio.

O celular toca. Atendo.

- Luana, boa tarde. Oi, Rafael. Ah, legal. Ah, tá ótimo. Isso, 16h30. Ah, legal. Tá bom, de nada. Tchau.

Volto ao silêncio.

O celular bipa. E-mail da Cássia que chegou.

Volto ao silêncio.

O computador bipa. E-mail da Cássia que chegou.

Volto ao silêncio.