sábado, 6 de setembro de 2014

Lucio, Mariana, Catarina

Lúcio é o pai. Mariana, a filha. Ele, cerca de 70. Ela, por volta dos 30 e poucos. O cenário é a mesa do jantar. 

Ele - apesar da idade - ainda trabalha, no Centro do Rio, de carro. O estacionamento onde ele pára o veículo está fechado e, portanto, ele tem ido de outras formas. De táxi, quase sempre. Os cabelos brancos já não permitem grandes aventuras pelo trânsito.

- Hoje voltei pra casa de cata-corno.

- De ônibus, cara?

- É. De ônibus. Peguei ali, na Carioca. Perto do trabalho do Djalma.

- Ah, sei.

- Mas teve um que bateu no outro.

- O ônibus?

- É.

- O teu?

- Não. O de trás com o da frente.

- Hã?

- O ônibus que estava atrás do que eu peguei, bateu um de trás do outro. Dois de trás. Atrás. Através. Atravessou.

E o velho - que ainda não está gagá -, começou a filosofar.

- Mas isso você não conhece. É li-te-ra-tu-ra, Mariana. Literatura. 

- Ah, sei. 

- Mas aí, no ônibus, um velha, mais velha do que eu até (talvez, eu acho, né?), me cedeu o lugar. Aí eu mandei logo: "De jeito nenhum", e empurrei ela pra se sentar de novo. "Tá me chamando de velho?". Aí ela: "Não, por favor, não se ofenda". "Não me ofendo, mas a senhora nem quis deixar eu ir lá pra trás do ônibus, já queria me ceder o seu lugar, pra eu ficar por aqui. Pois bem, agora vou ficar por aqui, com a senhora".

- Mentira, pai?

- Juro. 

- E aí? Qual o nome da velha?

- Catarina.

- Mais velha que você mesmo?

- Não perguntei a idade, né, Mariana? 

- Mas aí você foi de pé?

- Fui.

- Conversando com a velha?

- Sim, com a Catarina.

[Agora a velha tinha nome...]

- E foram conversando sobre o que?

- Sobre saúde e doença. Da glicose, e de pressão, e de mais um monte de doença.

- É, era mais velha que você. Velho conversa de doença.

- É, mas agora estou te falando da Catarina.

- Coitada da Catarina, né? Teve que vir te aturando a viagem inteira de lá até aqui. 

- É. Aí, quando ela ia falar alguma coisa, eu disse: "Dona Catarina...", ela não gostou muito de eu chamá-la de dona. Mas aí eu disse, continuando: "Dona Catarina, agora eu vou ter que saltar. O próximo ponto é a minha comunidade", e saltei aqui em casa. 

- Que aventura, hein, seu Lúcio?

- É, andar de ônibus nessa cidade né mole não.

- Ué, mas eu tava falando da Catarina...

[Seu Lúcio mal sabe, mas Mariana morria de orgulho dele... Velho mais conversador e amado este...]

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