terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Tábata


Estava no ônibus, em caminho indeterminado, quando a vi. Ela estava no ponto de ônibus, no Mergulhão da Praça XV.  
Seu nome é Thabata, com Th no início mesmo. Ela não gostava muito do seu nome com o H, então, se a pessoa escrevesse errado, ela não corrigia. Neste caso, nós a chamaremos de Tábata, sem H. 
No auge dos seus 19 anos, estudava Técnico em Edificações no CEFET, no Maracanã, e estava esperando o ônibus pra ir à escola, no último período do curso. Ela morava em São Gonçalo e pegava um ônibus até as Barcas da Praça XV. Dali, seguia direto para o local de sua aula. 
No ponto de ônibus, avistei Tábata aos prantos. Com as lágrimas rolando, ela tirava e recolocava os óculos, em um movimento circular que parecia se dirigir ao infinito. Era um choro de raiva, mas indeciso. Ela chorava, parecia refletir e retomava a choradeira. A menina exibia um tremor por todo corpo. Sentava no meio-fio, balançava as pernas e cobria a cabeça com as duas mãos, como se estivesse se defendendo de golpes invisíveis. Um berro de Tábata seria a coroação de todos aqueles gestos. Uma agressão gratuita também não estava descartada. (E quem seria agraciado com tamanha descarga de energia?)
Tábata era a filha mais velha de quatro irmãos. As idades dos menores variavam entre 8 e 17 anos. Sua mãe era diarista em Niterói e trabalhava em duas casas de família. Todos os irmãos – e Tábata – eram filhos do mesmo pai, que, fazia sete anos, não aparecia mais. A mãe, dona Neuza, não falava dele e nem mesmo sabia por que bandas ele andava. Para a adolescente, a única imagem que havia restado do pai era de peças básicas de roupa penduradas no varal de casa. A camisa negra e a calça tremulando feito bandeiras fincadas em um solo conquistado. Andava só de cueca em casa. Só usava algum tipo de roupa quando ultrapassava o portão. 
- Se vocês virem algum parente de seu pai por aí, tentem pegar o telefone dele. Pelo menos, para vocês – que são filhos – terem contato com ele.
Tábata sabia que, na verdade, a mãe queria o telefone do Waldir para ela mesma falar com ele. Ele havia sido o único e grande amor da vida de Neuza. A mãe nunca havia se interessado em arrumar outra pessoa e nem sabia mais o que era flertar. 
A garota não suportava ver a sua mãe assim, infeliz, chorando pelos cantos, sustentando os quatro filhos com sacrifício. Ela, desempregada (conseguira emprego de telemarketing, mas não era boa com vendas e foi demitida após o período de experiência), vendo a mãe com dois empregos para alimentar uma tropa. Tábata tentaria ir atrás do pai para solicitar algum auxílio. Queria algo ao menos para seus irmãos menores. Ela se viraria. Não estava habituada a grandes coisas mesmo. A mãe ajudava na passagem. Ela levava comida de casa para a escola. Só conhecia a cota justa de dinheiro. Qualquer moedinha de R$ 0,05 tinha o seu local de importância no universo de suas parcas finanças. Às vezes, os cinco reais que levava de segurança na bolsa durava quase o mês todo. 
Em um determinado dia, Tábata resolveu sair mais cedo de casa. Ela tinha que chegar na escola às 14h. Geralmente, sairia de casa às 12h. Como o dia estava bonito e quente, almoçou mais cedo e saiu de casa às 11h. Seus irmãos ainda estavam na escola, e ela pôde tomar o seu banho demorado, em silêncio, como gostava, sem aquela gritaria toda de televisão, rádio, e os irmãos gritando pela casa. 
Tábata não estava nem feliz nem triste. Assim, assim, como ela gostava de dizer. Era uma menina sensível, de olhos vivos, apesar dos óculos de grau no rosto. Gostava de observar os detalhes das estruturas e das pessoas e, às vezes, perdia horas observando alguém ou alguma coisa. As pessoas a chamavam de distraída mas, na verdade, ela era mesmo centrada. Era uma menina quieta, silenciosa. 
Assim como não gostava de corrigir seu nome, também não gostava de discordar das pessoas que diziam algo sobre ela que não condizia com a verdade. Tábata sorria, fazia que sim, fazia que não ou embarcava em uma de tanto faz.
Ela e sua família moravam em uma favela (nunca gostaram do nome “comunidade”. Esse era só o nome para as propagandas oficiais de qualquer governo vigente) de São Gonçalo. Tábata vinha descendo as ruelas naquela terça-feira calorenta, muito mais distraída do que o comum. A sensação de alerta chegou em um salto. Viu um casal se esgueirando, se movendo furtivamente pelas ruelas locais e resolveu patrulhá-los. Algo chamava a atenção dela.  
“Conheço aquele jeans rasgado...”. 
Quando eles já haviam saído de seu campo de visão, Tábata foi, devagar e com cuidado, atrás deles. A menina, ela viu antes. Era uma colega sua, ali da vizinhança, a Monique. Um pouco mais nova que ela, de uns 18 anos. Fazia o tipo menina-bonita-com-carinha-de-sapeca, como a própria Monique gostava de se definir. E o homem? Ela não chegou a ver o rosto. Só o que sobrou de primeiro registro do homem foi a calça jeans. 
“Aquela calça rasgada no bolso esquerdo...” 
Com nitidez e algum malabarismo, Tábata pôde vê-los por uma fresta. Estavam aos beijos e amassos, no espaço estreito entre duas casas, muito perto de onde morava Dona Júlia. Não teve dúvidas: era Waldir, o seu pai. O homem de quarenta anos se exibia fisicamente para a menininha de dezoito. Xingamentos, suores, gemidos abafados e sua própria ânsia de vômito. 
Olhando para a complexidade da cena, Tábata ficou atônita. O vômito ia e vinha até a boca. Enojava-se desse ato, mas sequer conseguia buscar o ar. Podia fazer barulho. “Vou me atrasar pra escola”, pensou em um momento lucidez. “Fo-da-se”, disse lentamente, para extrair prazer da pronúncia, como se absorvesse parte do clima que captou. Ela não tinha o costume do palavrão. Viciou. Repetiu mais três vezes, cada vez mais lento. Ajudou a eliminar parte do mal-estar. Quase sorriu.
Era incapaz de dizer quanto tempo tudo isso durou, mas ficou ali, até ver o pai subindo a famigerada calça jeans em uma altura que lhe repusesse a compostura. Tábata era virgem, mas tinha uma orientação abrangente sobre sexo. Coisa da mãe, preocupada com o crescente número de adolescentes grávidas na vizinhança, e das escolas que freqüentou. Não viu surgir nenhuma camisinha que pudesse prevenir um possível irmão ou uma doença. Mais um. Mais uma. 
Waldir fez uma mesura e despediu-se da pequena com um beijo na mão, atingindo somente a ponta dos dedos. Ela deu um riso largo e esfregou os dedos por toda a extensão do cabelo liso e sujo do homem. Ele ainda olhou para os lados antes de seguir seu caminho. Tábata teve tempo de esconder metade do rosto que estava na fresta. Mas ainda deu para ver claramente que os cavalheirismos de Waldir desapareciam na primeira esquina pós-sexo. 
“Merda, merda, merda. Eu tinha que ter deixado ele me ver”. 
Quando voltou a olhar na direção, o pai já tinha tomado novamente o caminho do ostracismo. 
E sua mãe achando que o pai tinha voltado para o Recife, sua terra natal. É certo que ela nunca mais tinha visto Waldir por ali. Tábata, agora, sabia que o pai estava muito, muito próximo. Teve vontade de ligar para a mãe. 
Pegou o seu ônibus até o Centro de Niterói, para pegar as barcas. Como ia dizer a mãe? O que ia dizer a ela? Foi pensando nas palavras certas e na construção da cena.  Precisava de tempo. 
Já na Praça XV, saltando das barcas, ela resolveu ligar. A hora do almoço se fazia presente. Podia falar com a mãe de forma mais tranquila. 
“Foda-se, vou contar”. “Fo-da-se!”. Tábata tinha gostado de pensar no “foda-se”. Degustava e digeria o nome insólito. Pensava que devia ser melhor em um local com eco. 
- Mainha? Tudo bem aí? 
- Oi, minha filha. Tudo sim. Fala logo que tou ocupada. 
- Tou indo pro colégio. 
- Eu sei. Aconteceu alguma coisa? Tá atrasada, não tá não? 
- Tou. 
- E o que aconteceu, Tábata? Teus irmão? Que aconteceu, garota? 
Tábata ficou em silêncio, olhou em volta. Lembrou do pai fechando a calça jeans rasgada, olhando para os lados. Começou a chorar. 
- Só liguei pra dizer que amo a senhora.

[Obrigada especial ao André, pela re-fotografia da cena e personagens. E por ter achado A FOTO.]

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Em observação, no Espaço da Mulher - 2

Hoje é terça-feira. São 18h. Estou no Espaço da Mulher, no Leblon, no Workshop da Alba, esperando começar.

Estou sentada em uma mesa, bem próxima à entrada.

Ao meu lado direito, parede. Na minha frente, a entrada do Espaço. Ao meu lado esquerdo, Fernanda está sentada. É branca, magra, baixa. Tem o cabelo escuro, e preso num coque. Veste calça jeans, blusa indiana, estampada, sapato bege claro, bolsa azul marinho sobre seu colo e mexe, séria, no celular.

Agora são 20h. Estou no mesmo local. Sentada em uma mesa, próxima à entrada.

Ninguém aos meus lados, nem na minha frente.

Veronica vem e passa na minha frente. É branca, alta, meio gordinha, cabelo comprido, liso, loiro. Veste calça preta.

Esther passa ao meu lado e pisca para mim. Conversamos um pouco.

Agora são 20h16. Estou no mesmo local, assistindo a palestra da Alba.

Fernanda está na minha frente, olhando para a palestra da Alba. Coçou as costas com a caneta. Pousou a caneta na mesa. Presta atenção na palestra. Pega a caneta e mexe com ela sobre a mesa. Uma das mãos está na nuca. Mexe na caneta. Coça uma mão com a outra. Põe a mão na boca. Coça o cabelo. Põe a mão na boca. Uma mão na nuca. A outra sobre a mesa. Anota algo no caderno. Coloca uma mão na nuca. Mexe na orelha. Coça a nuca. Uma das mãos na boca. Faz que sim com a cabeça. Coça uma mão na outra. Coça a testa. Tem a mão no pescoço. Coça a boca. Coça as costas com a caneta. Põe a mão na boca. Coça a nuca. Põe a mão no rosto. Coça a boca. 

domingo, 29 de dezembro de 2013

Em observação, na Máxima Segurança do Trabalho

Hoje é segunda-feira. São 9h11. Estou na Máxima Segurança do Trabalho, em São Gonçalo.

Estou em uma recepção grande, com várias cadeiras. Na minha frente, um balcão alto, com duas atendentes. Ao meu lado esquerdo, um pequeno corredor, onde as pessoas passam.

Ao meu lado direito, um rapaz sentado. É alto, magro, negro. Tem o cabelo preto, curto. Veste calça jeans preta, blusa pólo verde, tênis preto e mochila cinza. Está conversando com uma moça ao seu lado direito.

- Ele ia voltar lá? Não quis voltar na hora não? Só riu?

Um rapaz passa no corredor, ao meu lado.

- Mas não quis voltar não?

O rapaz ao meu lado ri.

- Acontece. Vou te falar, que parece tradição, tem que tomar um susto desse logo no começo, pra se acostumar. Eu sou do Rio, não sou de São Gonçalo não.

Um senhor passa no corredor, ao meu lado. É branco, baixo, magro. Barbado e usa óculos.

Um senhor passa no corredor. Uma senhora passa no corredor. Outro senhor passa no corredor. Outra senhora passa no corredor e olha para mim.

- Depois a menina veio no carro e falou com a gente. A menina veio no carro e falou com a gente. Entendeu? Ele veio no carro, e falou comigo. Você vem aqui a tarde, a partir das três.

O rapaz ao meu lado, agora, está de pernas cruzadas.

- O cara falou também e ela falou. Vai ficar na correria lá, até esperar, pra ver as coisas acontecer. Só pra entregar os documentos. Não vai fazer mais nada não. É só pra entregar a documentação. Mas ela falou isso. Tem o telefone? Tem como você ligar pra lá?

Um senhor passa ao meu lado, no corredor. Outro senhor passa ao meu lado, no corredor. Uma senhora passa ao meu lado, no corredor. Uma senhora passa ao meu lado, no corredor.

- É perto do Supermarket, e vai embora.

Uma senhora passa ao meu lado, no corredor, falando ao celular.

- Eu posso ir pra Alcântara, pegar o trinta. E pego naquela pista, pra Vista Alegre, e vou andando ali mesmo. Ah, tá louco. É um pedaço, cara. Naquele dia eu sofri, cara. Eu sofri. Já cheguei e fui. Eu cheguei lá. Eu cheguei 10h30. Tu viu quando eu entrei. Deu bom dia e eu fui direto no bebedouro beber água.

Mauricio passa ao meu lado, no corredor.

O rapaz ao meu lado cruza os braços e ri.

- Tou vendo que vamos sair daqui tardão. Festinha de final de ano. E que que tem? Te conheço, você me conhece. Vai junto. Chega lá, a gente se mistura. Vão ser dois sem vergonha sem ninguém. Pelo menos conheço um ou dois. De conhecer dentro de loja. E a gente pode ir mesmo, se misturar. Vai ganhar sexta-feira, pra trabalhar. É ruim, vai nada. De repente ganha. Os caras não pensam coisa pequena não. Só pensa coisa grande. É só da Marinha. Melhorar, tomara. Deixa eu te falar, no começo eu falava muito, e ai ia desapegando, desapegando, desapegando. Hoje em dia eu sou safu. Minha empresa, a Itaipava é longe pra caramba, e os caras não dão uma cesta pros funcionários, não pagam uma festa pra funcionário. É tudo muito fraquinho. Tanto, tanto, tanto. Agora que eu sai, eu tou meio assim.

Uma senhora passa ao meu lado, no corredor. Uma senhora passa ao meu lado, no corredor. Duas senhoras passam ao meu lado, no corredor. Uma senhora e um senhor passam ao meu lado, no corredor.

O rapaz ao meu lado, agora, não tem mais as pernas cruzadas. Olha para a menina ao seu lado direito. Cruzou as pernas.

Aline passa ao meu lado, no corredor.

O rapaz ao meu lado descruzou as pernas.

Michele passa ao meu lado, no corredor.

Naila passa ao meu lado, no corredor. É branca, alta. Uma senhora passa ao meu lado, no corredor. Um senhor passa ao meu lado, no corredor.

- Aí eu mandei o curriculo, mas eu tava sem o Word, na época. Mas era pra ter enviado em anexo.

Um senhor passa ao meu lado, no corredor.

- Só que na quarta-feira, ele me ligou. Eu já tava em Alcântara, indo pra casa.

Uma senhora passa ao meu lado, no corredor. Um senhor passa. Uma senhora passa ao meu lado, no corredor.

O rapaz ao meu lado

- Falou muito bem de você...

Uma senhora passa ao meu lado, no corredor. Leonardo e Priscila passam ao meu lado, no corredor.

O rapaz ao meu lado, agora, está com as pernas cruzadas.

- Não vai chamar, não vai chamar, não vai chamar. Calma que demora assim mesmo. Eu tava na loja, trabalhando, maior correria, o telefone toca. Dentro do depósito. Alo? É o Cesar. Vem aqui, amanhã. Feriado. Dia 20. Falei, fui. Fui no feriado, quarta-feira. Ai cheguei lá. Fiz uma prova. Tem a dinâmica.

O nome do rapaz ao meu lado é Antonio Carlos. Ele levanta. E senta novamente. E levanta novamente.

Agora, ninguém ao meu lado direito e, o corredor vazio ao meu lado esquerdo.

Um senhor passa ao meu lado, no corredor.

Uma senhora senta ao meu lado direito.

Selma passa ao meu lado, no corredor.

A senhora sentada ao meu lado direito é alta, magra, cabelo vermelho, preso num rabo de cavalo. Usa calça jeans, blusa social quadriculada, sandália marrom. Bolsa rosa sobre seu colo. Tem as pernas cruzadas.

Cristiane passa ao meu lado, no corredor.

A senhora ao meu lado, tem uma mão no rosto, e balança as pernas. Parou. Balança novamente. Olha o papel, no seu colo. Ajeita as pernas. Guarda algo na bolsa. Pega um doce. Abre devagar.

Um senhor passa ao meu lado, no corredor.

A senhora ao meu lado come o doce.

Thiago passa ao meu lado, no corredor. É mulato, magro, alto. Veste bermuda quadriculada, blusa cinza, tênis preto e boné azul, virado para trás.

Uma senhora passa ao meu lado, no corredor.

A senhora ao meu lado continua comendo o doce. Tira um pedaço e come.

Thiago passa ao meu lado, no corredor.

Donizete passa ao meu lado, no corredor.

A senhora ao meu lado direito cruza as pernas. Continua comendo o doce. Tira um pedaço do doce e come.

Uma senhora passa. Duas senhoras passam ao meu lado, no corredor.

A senhora ao meu lado direito continua comendo o doce. Tira um pedaço, vagarosamente, e come. Tira mais um pedaço e come.

Graciene passa ao meu lado, no corredor. É branca, magra, baixa, loira. Usa calça jeans, blusa pólo, branca, sandália bege. Carrega uma mochila verde e uma sacola branca.

Gilson passa. Um senhor passa ao meu lado, no corredor.

A senhora, ao meu lado direito, continua comendo o doce. O doce acabou.

Um senhor passa ao meu lado, no corredor.

A senhora ao meu lado, tem, agora, as pernas cruzadas e os dedos das mãos cruzados, sobre seu colo.

Um senhor passa ao meu lado, no corredor.

Uma senhora passa ao meu lado, no corredor.

Uma senhora passa ao meu lado, no corredor. Carrega uma bandeja, com água e café. Ela passa novamente, agora, sem a bandeja.

Andreia passa ao meu lado, no corredor. E passa novamente. É branca, magra, baixa. Veste uniforme do local, que é calça preta e blusa cinza. Tem o cabelo preto, preso.

Um senhor passa ao meu lado, no corredor. É negro, magro, alto. Veste bermuda preta, listrada, blusa preta, tênis branco e mochila preta.

A senhora ao meu lado, direito, agora, está apoiada sobre seu braço.

Andreia e um senhor passam ao meu lado, no corredor.

A senhora ao meu lado coça o rosto e o alto da cabeça.

Um senhor passa ao meu lado, no corredor.

A senhora ao meu lado funga.

Um senhor passa ao meu lado, no corredor.

Mauricio passa ao meu lado, no corredor.

Uma senhora passa ao meu lado, no corredor.

Um senhor passa ao meu lado, no corredor.

Iago passa ao meu lado, no corredor.

Uma senhora passa ao meu lado, no corredor.

- William Ricardo?

A senhora ao meu lado direito, agora, mexe no celular.

Uma senhora e o William passam ao meu lado, no corredor. Ele é mulato, alto, gordo. Veste calça jeans, blusa branca, tênis cinza e carrega uma sacola plástica, branca.

A senhora ao meu lado direito, agora, está no facebook, no celular. Seu celular é um Nextel vermelho. Permanece com as pernas cruzadas.

Luciana passa ao meu lado, no corredor. Um senhor passa ao meu lado, no corredor. Luciana é branca, magra, baixa, tem o cabelo preto, liso, comprido. Usa calça jeans, blusa sem manga, branca, e sandália preta.

A senhora ao meu lado direito pára de mexer no celular. E volta a mexer nele.

Uma senhora e um senhor passam ao meu lado, no corredor. Uma senhora passa ao meu lado, no corredor. Luciana e um senhor passam ao meu lado, no corredor.

A senhora ao meu lado direito ajeita a bolsa no seu ombro. Tem a mão pousada no seu pé, que está cruzado sobre a perna.

Andreia passa ao meu lado, no corredor.

Uma senhora passa ao meu lado, no corredor. É branca, baixa, magra, cabelo castanho, liso. Veste calça jeans, blusa estampada, rosa, casaco preto, sandália bege e bolsa cinza, prateada.

Uma senhora passa ao meu lado, no corredor.

Uma senhora passa ao meu lado, no corredor.

Mauricio passa. Uma senhora passa ao meu lado, no corredor.

Um senhor passa. Uma senhora passa ao meu lado, no corredor. Uma senhora passa. Um senhor passa ao meu lado, no corredor.

A senhora ao meu lado direito funga, mexe no nariz. Permanece com a perna cruzada e a mão pousada sobre o pé, da perna que está cruzada.

Um senhor passa ao meu lado. Iago passa ao meu lado, no corredor.

A senhora ao meu lado, agora, tem os dedos da mão cruzados sobre seu colo.

Luciana e dois senhores passam ao meu lado, no corredor.

A senhora ao meu lado balança a perna, descruza as pernas, balança as pernas novamente, funga. Tem as pernas esticadas, à frente. Funga. Abre algo na bolsa.

Um senhor passa ao meu lado, no corredor. Um senhor passa ao meu lado, no corredor.

Donizete passa ao meu lado, no corredor. Um senhor passa ao meu lado, no corredor. Uma senhora passa ao meu lado, no corredor.

A senhora ao meu lado está na mesma posição de antes. Sacode as pernas.

Adeline passa ao meu lado, no corredor.

Um senhor passa ao meu lado, no corredor, carregando uma prancheta.

A senhora ao meu lado direito boceja.

Andreia passa ao meu lado. Michele passa ao meu lado, no corredor.

Um senhor passa ao meu lado. Um senhor passa ao meu lado, no corredor.

Maria passa ao meu lado, no corredor.

A senhora ao meu lado direito ajeita-se na cadeira, descruza as pernas. Tem os dedos das mãos cruzados, sobre seu colo.

Uma senhora passa ao meu lado, no corredor.

A senhora ao meu lado direito funga. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Muitas


Eu nasci Luana.
Luana Zanelli Moreira de Oliveira.

E, antes de eu ser Luana
Eu era “a neném”
Como minha nave-espacial me chamava
Antes de saber que eu era
Uma menina sem cabelos
(Até os dois anos)

Ao longo da vida
Fui ganhando outras denominações
Luaninha, pelas tias
Lu e Lulu, pelas amigas

Tive a época de ser chamada de Xuxa pelo pai
Muito antes da Xuxa iniciar a carreira
Quando ela apareceu
Voltei a ser Luana

Alguns (poucos) amigos me chamam de Lua
Meu segundo apelido preferido

Minha mãe sempre me deu apelidos
Eu era Luquinha
Ou Luca
Ou apenas Quinha
Quinhazinha quando pedia favor
Qui quando tinha preguiça
(o que Qui remete à “Luana”?)

E, só entre a gente, Luca-ra-caca
Assim, falado tudo junto: Lucaracaca.

Por mais estranho que possa parecer
Eu amava todas estas denominações.

A mãe morreu.
Com ela, todos os meus apelidos.

Luca, Luquinha, Quinha, Qui
Eram (são) apelidos muito particulares
E pessoais
E íntimos

Mas eis que ele chegou.
Assim, sorrateiramente.
Eu entrei num hiato.

E, como num suspiro,
A gente se tornou um do outro.

E, quando vimos
Eu deixei de ser Luana
Para ser Lua
E deixei de ser Lua
Para ser Quinha
Apelido que, novamente, carrego com muito orgulho

Só ele pode
Mais ninguém
Este é meu eterno e mais significativo apelido

E, há algumas semanas
Descobri que
Nos momentos mais irônicos
Que lhe são peculiares
Eu posso deixar de ser isso tudo

E ser apenas
Zuana Lanelli

O melhor de tudo
É que em todas elas
Eu sou eu mesma.
E a única e mais absoluta
Certeza de todas

É de que, independente do nome que eu tenha
Eu sou dele.

Sempre. Todos os dias. E inteira.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Sobre os ovos

[Diálogos reais]

Dia 24 de dezembro, cerca de 13h.

- Luana, após o almoço você vai comprar ovo pra mim? Não comprei o suficiente.

- Ué, estamos na Páscoa ou no Natal, irmão?

- No Natal, mas maionese sem farofa não tem graça.

- Ué, mas é ovo ou farinha?

- Ovo.

- Pra maionese ou pra farofa?

- Pro jantar. Quer dizer, pra farofa. O André gosta de farofa?

- Gosta.

- Então, tá vendo? Compra o ovo, tá?

Eu fui. 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Em observação, no consultório (Centro) - 8

Hoje é quinta-feira. São 15h20.

Estou no consultório do Centro, sentada na poltrona, na sala de atendimento, esperando a paciente de 15h30.

Por aqui, portas e janelas fechadas. Luz acesa. Estou no silêncio, apenas com o barulho do ar condicionado ligado.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Em observação, no consultório (Copacabana) - 7

Hoje é quarta-feira. São 12h53.

Estou no consultório de Copacabana, sentada à mesa, na sala de atendimento, esperando a paciente de 13h.

Por aqui, portas e janelas fechadas. Luz acesa. Ar condicionado ligado. Tudo silencioso, apenas com o barulho do ar ligado.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Em observação, no Estúdio Hanói

Hoje é terça-feira. São 22h04.

Estou no Estudio Hanoi, em Botafogo. Está rolando, agora, a gravação do Colesterol – com André, Marco, Denise (e Laila) – entrevistando o Autoramas.

Estou sentada em um sofá vinho. Na minha frente, ninguém. Aos meus lados, ninguém. 

domingo, 22 de dezembro de 2013

Em observação, na BQ

Hoje é segunda-feira. São 18h54.

Estou na BQ, sentada em uma cadeira, sozinha, no hall dos elevadores.

Na minha frente, dois elevadores. Atrás de mim, a entrada da BQ.

Um senhor sai do elevador e entra na BQ.

O senhor retorna e senta ao meu lado esquerdo.

Um senhor sai da BQ e fica no hall dos elevadores. Entra na BQ novamente.

- Olha, a caneta não é minha. Peguei a caneta.

O senhor sentado ao meu lado é moreno, baixo, magro e careca. Veste calça jeans, blusa cinza, tênis bege. Mexe na bolsa preta que está no seu colo.

O senhor sai da BQ e chama o elevador e entra nele.

O senhor sentado ao meu lado pega uma agenda na bolsa, e folheia. Ele respira com força.

Um senhor sai do elevador e entra na BQ.

O senhor sentado ao meu lado escreve algo na agenda.

Um senhor sai da BQ e aguarda o elevador. É alto, meio gordinho, mulato. Tem o cabelo escuro, molhado e usa barba. Veste um uniforme da BQ e carrega um carrinho de mão. Murmura algo que não consigo ouvir. Entra no elevador, carregando o carrinho.

O senhor ao meu lado continua escrevendo algo na agenda e tosse quatro vezes. Pára de escrever e lê o que já escreveu.

O senhor que saiu há pouco, sai do elevador e entra na BQ.

Uma senhora sai do elevador e entra na BQ.

Um senhor sai do elevador e entra na BQ.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Ferdinando

Estive com ele em uma consulta médica. Nem me lembro a especialidade. Nem importa. Fiquei compenetrada no bordado do seu bolso do jaleco branco: "Fernando Khoury" e o seu CRM, embaixo.

- Diferente o seu sobrenome, doutor Fernando. Qual a origem?

- Estou aqui te dando a receita, para tomar estas medicações. Volte em trinta dias. Se precisar, me ligue. Tem aqui os telefones.

- Vejo que o senhor usa aliança. O sobrenome é seu ou da sua esposa?

- Aquele outro remédio? Já acabou, ou precisa de mais receita?

A consulta demorara exatos 7 minutos. Fernando não trocou um olhar sequer comigo. Fixava o olhar em parte-indefinida-do-meu-corpo, esperando (?) inspiração divina. 

Fernando não sabe, mas eu sei bem da sua história. Eu sou boa em observar e investigar as pessoas. Apesar de investigativa, nunca usei isso contra ninguém; não usaria contra Ferdinando. Principalmente, o M de CRM, que não era de Medicina; era de Mentira.

O distinto morava no Andaraí, em um quitinete fétido, alugado por R$ 700. Pegava o ônibus integração até o metrô da Saens Peña. Depois, pegava o metrô até o Catete. Não, seu consultório era no Largo do Machado, não no local onde ele saltava.

Godofredo o buscava, todos os dias, pontualmente, às 7h30, e o levava até o consultório, no Largo do Machado. 

A corrida não dava nem cinco minutos e, claro, por serem irmãos, ficava na conta.

- Fala, Godofredo. Bom dia. Atrasou hoje um pouco, hein?

- Porra, cara? Sabe que não gosto de ser chamado assim? Quando eu te chamar de Ferdinando, você vai ficar putinho.

- Foi mal, Alfredo. Não, aqui não. Me deixa ali, na porta do prédio. Isso, ali.

- Toda vez essa porra dessa frescura. Tem um carro ali.

- Eu espero. É ali que quero ficar.

- Seu... merda.

- Fala o que você ia falar, fala?

Godofredo não ia falar. Ferdinando sabia que ele tinha rabo preso.

- Doutor Fernando, bom dia! Muito trânsito de Ipanema hoje, não?

- É, um pouco. Muito ônibus nesse Rio de Janeiro, né? Vamos trabalhar que hoje temos muitos pacientes... 

- A esposa tá boa?

- Graças a Deus. Passa as fichas de hoje pra mim, por favor?

Há muitos anos atrás, ouviu dizer que usar aliança - das mais grossas - impunha respeito. Ferdinando, portanto, se planejou. Namorou por 6 meses, ganhou uma aliança fina, de noivado. “Por mais 6 meses e dia tal a gente casa". Tirou uma semana de férias.

- O doutor está em Buenos Aires, de lua-de-mel...

Na segunda-feira, estava a aliança grossa no anelar da mão esquerda.

Nunca ninguém conheceu a esposa. Ela trabalha muito, enfermeira em dois hospitais. Nós nos conhecemos na residência. 

O papo era o mesmo. 

A namorada, noiva, esposa, e até a residência, nunca existiram. Nem a faculdade, nem o diploma, nem o apartamento em Ipanema. 

Só Godofredo sabia (parte) da vida (quase) secreta de Ferdinando. Perderam os pais cedo e foram criados por uma tia doente, já falecida.

Ferdinando, diferente de Godofredo, nunca foi um homem bonito. Então, vivia de status. Medicina, apartamento em Ipanema, casamento, aliança grossa, lua-de-mel em Buenos Aires. 

- Seu... merda - diria Godofredo.

Desde aquele dia, Godofredo não completava as reticências.

Ferdinando é um homem de 1,70, magro, cabelo crespo, óculos quadrados. 

Para os amigos (e funcionárias), gostava de gastar seu dinheiro viajando, ou indo a shows, cinema e peças de teatro. Eles não sabiam, mas seu dinheiro tinha destino: Lady G.

Ficava em uma ruazinha no Grajaú. Lugar discreto, bem frequentado. Gente da elite tijucana. "Apenas sexo masculino" na porta. Para entrar nesse mundinho, R$ 150. Ferdinando ia duas vezes por semana: quartas e sábados.

Lá, Ferdinando era Leonardo. Gostava dos mais afeminados, e magros (“são os de pau maior”). No segundo andar, tinham boxes para os menos exibicionistas. Era por lá que ele ficava, após beber uns três drinks, no bar da boate.

Os que ele gostava, também, nunca saíam de graça. Mesmo que fosse apenas "um oralzinho de leve... penetração hoje não", tinha que pagar. 

- Você é puto? - ele sempre perguntava.

- Claro que não. Você gosta de dinheiro?

- Gosto.

- Eu também.

E era assunto encerrado. 

Era ali onde ia o dinheiro dos seus pacientes. 

Leonardo/ Ferdinando entrava e saía da Lady G com discrição. Até ali, ele usava a aliança e dizia estar apenas se divertindo. "Minha mulher não topa essas sacanagens..."

Era janeiro. Quarta-feira, 4h da manhã. Estava indo embora, passando pelo canto do primeiro andar, para voltar para casa. Conseguiu, de relance, ver um rosto familiar. Tirou os óculos do bolso da blusa social, apurou a visão e, não tinha dúvidas: era Godofredo. Estava aos beijos com um pitboy (desses grandalhões), bastante comum ali, e já apalpando, e de risinhos.

[Eu não sou, mas ele é casado, porra! Que merda é essa? Sempre me chamou de gayzinho de merda, desde a adolescência, quando me pegou quando descuidei, e agora vai chupar o pau do cara?]

Apesar de serem só eles dois na família Curi (e não Khoury), nunca se deram muito bem.

Godofredo já estava chupando o pau do Maurílio (era esse o nome do pitboy), quando Leonardo olhou bem para o fortão que, de pé, piscou. Ferdinando se abaixou e fez que ia dividir o boquete com o desconhecido.

A poucos centímetros do irmão, sorriu para ele. Maurílio, coitado, quase teve o pau mordido.

- Oi, Godofredo.

- Ferdi...

- Leonardo. Leonardo.

- Prazer, Pedro.

- Pedro? 

- É, prazer. 

- A sua esposa, que está lá no seu apartamento na Barra, cuidando da sua filha recém-nascida, sabe que você está aqui, Pe...dro?

Saíram juntos, para um boteco que ficava ali por perto. Aquele era o tipo de conversa que não dava pra se ter enquanto se chupava um pau. Ainda mais de um homem daquele tamanho. 

- Uma cerveja pra mim.

- E pro senhor?

- Nada. Desde quando, Pedro? Tua filha acabou de nascer, caralho...

- Você vai ficar quieto, Ferdinando. E aqui, me chama de Alfredo.

- Nem sei mais que porra de irmão é você. Godofredo, Alfredo, Pedro.

- É mesmo, Leonardo?

- É. Agora a gente tem um segredo... Com a diferença que eu não sou casado.

- Mas tem pacientes. Consultório. Uma profissão renomada.

- E você tem uma mulher que ganha infinitamente mais que você. E uma filha. Mulher. Que vai crescer. Com um pai que chupa pau. 

- O que você quer, Fernando? O que você quer, cara? É dinheiro? Quanto?

- Olha, eu vou te falar. Tou cansado. Eu podia ir andando do meu apartamento de dois quartos ali no Catete até o consultório. Mas é uma boa caminhada. Façamos assim. Todos os dias, na minha esquina, às 7h30, pontualmente. Você me leva todos os dias pro consultório em troca do meu silêncio. 

- Fechado. Mas qual a garantia que eu tenho do seu silêncio?

- É só você não se atrasar. Todos os dias, às 7h30. Mesmo local, mesmo horário. 

- Que merda... Mas tá ok. Fechado.

- Caralho, 6h da manhã já. Aproveita agora e me leva pra casa, uma corrida até o Catete. E me pega de volta às 7h30, que eu tenho paciente hoje cedo.




[Agradecimento especial ao André Lima, que fotografou o personagem comigo. E que me mostra cenários cada dia mais lindos].

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Em observação, no escritório do pai -- 11

Hoje é quinta-feira. São 12h25.

Estou no escritório do pai, na sala de reuniões, sentada à mesa, esperando as candidatas de 12h.

Por aqui, janelas e portas fechadas. Luzes acesas. Tudo silencioso, apenas o barulho do ar condicionado.

Batem à porta.

- Entra!

- Chegou a Mayra.

- Vou pegar já, Gaeth. Obrigada.

Ela fecha a porta.

Vou entrevistar.

Agora são 12h59. Mesma coisa. Tudo silencioso, apenas o barulho do ar condicionado.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Em observação, no RB1

Hoje é terça-feira. São 13h43.

Estou no auditório Guanabara, no RB1, no Centro, aguardando workshop. Estou sentada em uma mesa, com três lugares. Estou no local mais próximo à parede. Ao meu lado esquerdo, portanto, parede. Ao meu lado direito, uma cadeira vazia com a minha bolsa pousada. Na minha frente, uma mesa igual, com todos os três locais vazios.

Por aqui, um som ambiente relaxante e as pessoas em silêncio.

O celular bipa. E-mail da Cássia.

Volto para o silêncio do local.

O celular bipa. Outro e-mail da Cássia.

Volto para o silêncio do local.






domingo, 15 de dezembro de 2013

Imagem & Ação

O casal já se conhecia há algum tempo e namorava também, há algum tempo.

Era sábado à noite e foram à casa de um casal de amigos dele. A moça do casal não conhecia ninguém.

Exceto por um rapaz engraçado, estavam todos de casais. 

Na TV, novela. Na mesa, comes e bebes. Vindo da cozinha, pela dona da casa, cerveja para os moços e moças. Já já ia ser feita a mini-pizza.

A moça do casal estava na água e, depois, num gole de vinho. Os moços, todos na cerveja. Alguns, com energético.

Não sei bem que horas veio, do quarto, o jogo Imagem & Ação, daqueles de mímica. 

A moça do casal não conhecia ninguém, mas, como gosta muito do jogo (e descobriu que joga bem, apesar de não jogar há anos), já já estaria enturmada.

Mas a fotografia do dia é para falar do moço do casal que, descobriu, não sabe jogar. Era a vez dele.

- Qual o tema?

- Difícil.

- Para todos?

- Para todos.

- Pensa antes. Depois vira a ampulheta, quando for começar, ok?

O rapaz do casal, claro, ficaria em silêncio, fazendo movimentos, para que todos os outros descobrissem a palavra difícil-para-todos.

- Pode começar.

A ampulheta foi virada. Os movimentos corporais começaram.

- Jornal?

- Jornalista?

- Jornaleiro?

- Jornalismo.

- Jornal. - Alguém tinha acertado.

- Uma palavra?

- Quantas sílabas?

- Muitas sílabas.

- Ok, já temos jornal. 

- Jornalista? Jornalismo? Jornaleiro? Não, pera.

- Letreiro?

- Anúncio?

- Gente, o que é isso que ele tá fazendo agora?

- Anda, seu tempo tá acabando, cara. 

- Nossa, tá difícil. Jornal tá ok, né? E essa outra aê, mermão?

- Pronto, acabou o tempo. Qual era a palavra, cara?

Silêncio na sala. Todos os olhares para ele. 

- Extra-terrestre.


[Este extra-terrestre é meu namorado que, definitivamente, não joga mais no meu time de Imagem & Ação].