sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Ferdinando

Estive com ele em uma consulta médica. Nem me lembro a especialidade. Nem importa. Fiquei compenetrada no bordado do seu bolso do jaleco branco: "Fernando Khoury" e o seu CRM, embaixo.

- Diferente o seu sobrenome, doutor Fernando. Qual a origem?

- Estou aqui te dando a receita, para tomar estas medicações. Volte em trinta dias. Se precisar, me ligue. Tem aqui os telefones.

- Vejo que o senhor usa aliança. O sobrenome é seu ou da sua esposa?

- Aquele outro remédio? Já acabou, ou precisa de mais receita?

A consulta demorara exatos 7 minutos. Fernando não trocou um olhar sequer comigo. Fixava o olhar em parte-indefinida-do-meu-corpo, esperando (?) inspiração divina. 

Fernando não sabe, mas eu sei bem da sua história. Eu sou boa em observar e investigar as pessoas. Apesar de investigativa, nunca usei isso contra ninguém; não usaria contra Ferdinando. Principalmente, o M de CRM, que não era de Medicina; era de Mentira.

O distinto morava no Andaraí, em um quitinete fétido, alugado por R$ 700. Pegava o ônibus integração até o metrô da Saens Peña. Depois, pegava o metrô até o Catete. Não, seu consultório era no Largo do Machado, não no local onde ele saltava.

Godofredo o buscava, todos os dias, pontualmente, às 7h30, e o levava até o consultório, no Largo do Machado. 

A corrida não dava nem cinco minutos e, claro, por serem irmãos, ficava na conta.

- Fala, Godofredo. Bom dia. Atrasou hoje um pouco, hein?

- Porra, cara? Sabe que não gosto de ser chamado assim? Quando eu te chamar de Ferdinando, você vai ficar putinho.

- Foi mal, Alfredo. Não, aqui não. Me deixa ali, na porta do prédio. Isso, ali.

- Toda vez essa porra dessa frescura. Tem um carro ali.

- Eu espero. É ali que quero ficar.

- Seu... merda.

- Fala o que você ia falar, fala?

Godofredo não ia falar. Ferdinando sabia que ele tinha rabo preso.

- Doutor Fernando, bom dia! Muito trânsito de Ipanema hoje, não?

- É, um pouco. Muito ônibus nesse Rio de Janeiro, né? Vamos trabalhar que hoje temos muitos pacientes... 

- A esposa tá boa?

- Graças a Deus. Passa as fichas de hoje pra mim, por favor?

Há muitos anos atrás, ouviu dizer que usar aliança - das mais grossas - impunha respeito. Ferdinando, portanto, se planejou. Namorou por 6 meses, ganhou uma aliança fina, de noivado. “Por mais 6 meses e dia tal a gente casa". Tirou uma semana de férias.

- O doutor está em Buenos Aires, de lua-de-mel...

Na segunda-feira, estava a aliança grossa no anelar da mão esquerda.

Nunca ninguém conheceu a esposa. Ela trabalha muito, enfermeira em dois hospitais. Nós nos conhecemos na residência. 

O papo era o mesmo. 

A namorada, noiva, esposa, e até a residência, nunca existiram. Nem a faculdade, nem o diploma, nem o apartamento em Ipanema. 

Só Godofredo sabia (parte) da vida (quase) secreta de Ferdinando. Perderam os pais cedo e foram criados por uma tia doente, já falecida.

Ferdinando, diferente de Godofredo, nunca foi um homem bonito. Então, vivia de status. Medicina, apartamento em Ipanema, casamento, aliança grossa, lua-de-mel em Buenos Aires. 

- Seu... merda - diria Godofredo.

Desde aquele dia, Godofredo não completava as reticências.

Ferdinando é um homem de 1,70, magro, cabelo crespo, óculos quadrados. 

Para os amigos (e funcionárias), gostava de gastar seu dinheiro viajando, ou indo a shows, cinema e peças de teatro. Eles não sabiam, mas seu dinheiro tinha destino: Lady G.

Ficava em uma ruazinha no Grajaú. Lugar discreto, bem frequentado. Gente da elite tijucana. "Apenas sexo masculino" na porta. Para entrar nesse mundinho, R$ 150. Ferdinando ia duas vezes por semana: quartas e sábados.

Lá, Ferdinando era Leonardo. Gostava dos mais afeminados, e magros (“são os de pau maior”). No segundo andar, tinham boxes para os menos exibicionistas. Era por lá que ele ficava, após beber uns três drinks, no bar da boate.

Os que ele gostava, também, nunca saíam de graça. Mesmo que fosse apenas "um oralzinho de leve... penetração hoje não", tinha que pagar. 

- Você é puto? - ele sempre perguntava.

- Claro que não. Você gosta de dinheiro?

- Gosto.

- Eu também.

E era assunto encerrado. 

Era ali onde ia o dinheiro dos seus pacientes. 

Leonardo/ Ferdinando entrava e saía da Lady G com discrição. Até ali, ele usava a aliança e dizia estar apenas se divertindo. "Minha mulher não topa essas sacanagens..."

Era janeiro. Quarta-feira, 4h da manhã. Estava indo embora, passando pelo canto do primeiro andar, para voltar para casa. Conseguiu, de relance, ver um rosto familiar. Tirou os óculos do bolso da blusa social, apurou a visão e, não tinha dúvidas: era Godofredo. Estava aos beijos com um pitboy (desses grandalhões), bastante comum ali, e já apalpando, e de risinhos.

[Eu não sou, mas ele é casado, porra! Que merda é essa? Sempre me chamou de gayzinho de merda, desde a adolescência, quando me pegou quando descuidei, e agora vai chupar o pau do cara?]

Apesar de serem só eles dois na família Curi (e não Khoury), nunca se deram muito bem.

Godofredo já estava chupando o pau do Maurílio (era esse o nome do pitboy), quando Leonardo olhou bem para o fortão que, de pé, piscou. Ferdinando se abaixou e fez que ia dividir o boquete com o desconhecido.

A poucos centímetros do irmão, sorriu para ele. Maurílio, coitado, quase teve o pau mordido.

- Oi, Godofredo.

- Ferdi...

- Leonardo. Leonardo.

- Prazer, Pedro.

- Pedro? 

- É, prazer. 

- A sua esposa, que está lá no seu apartamento na Barra, cuidando da sua filha recém-nascida, sabe que você está aqui, Pe...dro?

Saíram juntos, para um boteco que ficava ali por perto. Aquele era o tipo de conversa que não dava pra se ter enquanto se chupava um pau. Ainda mais de um homem daquele tamanho. 

- Uma cerveja pra mim.

- E pro senhor?

- Nada. Desde quando, Pedro? Tua filha acabou de nascer, caralho...

- Você vai ficar quieto, Ferdinando. E aqui, me chama de Alfredo.

- Nem sei mais que porra de irmão é você. Godofredo, Alfredo, Pedro.

- É mesmo, Leonardo?

- É. Agora a gente tem um segredo... Com a diferença que eu não sou casado.

- Mas tem pacientes. Consultório. Uma profissão renomada.

- E você tem uma mulher que ganha infinitamente mais que você. E uma filha. Mulher. Que vai crescer. Com um pai que chupa pau. 

- O que você quer, Fernando? O que você quer, cara? É dinheiro? Quanto?

- Olha, eu vou te falar. Tou cansado. Eu podia ir andando do meu apartamento de dois quartos ali no Catete até o consultório. Mas é uma boa caminhada. Façamos assim. Todos os dias, na minha esquina, às 7h30, pontualmente. Você me leva todos os dias pro consultório em troca do meu silêncio. 

- Fechado. Mas qual a garantia que eu tenho do seu silêncio?

- É só você não se atrasar. Todos os dias, às 7h30. Mesmo local, mesmo horário. 

- Que merda... Mas tá ok. Fechado.

- Caralho, 6h da manhã já. Aproveita agora e me leva pra casa, uma corrida até o Catete. E me pega de volta às 7h30, que eu tenho paciente hoje cedo.




[Agradecimento especial ao André Lima, que fotografou o personagem comigo. E que me mostra cenários cada dia mais lindos].

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