sábado, 1 de fevereiro de 2014

Em observação, nas Barcas

Hoje é domingo, são 11h18. Estou na estação das Barcas, em Niterói, na Praça Araribóia.

Estou sentada em um banco, na beirada do banco.

Ao meu lado direito, uma lata de lixo. Na minha frente, ninguém. Ao meu lado esquerdo, mãe e filha. Ambas, mulatas e magras, do cabelo curto. A mãe veste short jeans branco e blusa sem manga verde e chinelo branco.. Olha a máquina fotográfica. Deve ter cerca de trinta anos. A filha veste short verde, de bolinhas, e parte de cima de um biquini rosa, de bolinhas brancas. Usa um chinelo rosa.

- Eu ficava com uma cabeçona só. Né, mãe? Cabeçona só. Cabeçona só. Cabeçona só. Cabeçona só.

- Bota o óculos.

- Esqueceu, mãe? Já vai dar a hora.

- Coloca a cabeça junto.

A filha passa na minha frente. E passa de novo.

- Olha mãe. Vai morar aqui? Tomei um susto, olha.

- Vamos ver.

- Mãe, eu queria ir.

A filha passa na minha frente. E passa novamente. Filha e mãe passam na minha frente. A bolsa rosa delas permanece ao meu lado. Agora, ninguém ao meu lado. Por aqui, tudo claro, com apenas o barulho do ar condicionado central.

A filha passa na minha frente novamente. Guarda seu óculos na bolsa, que está no chão. A mãe vem e a ajuda. A filha fecha o fecho da bolsa.

- Tem biscoito aí dentro.

A mãe coloca a bolsa sobre o banco, fecha e passa na minha frente.

Agora, ninguém aos meus dois lados e nem na minha frente. Por aqui, tudo claro, com apenas o barulho do ar condicionado central.

A mãe passa na minha frente, novamente, e fala ao celular. Passa novamente na minha frente.

Um rapaz passa na minha frente, carregando uma bicicleta.

Um senhor passa na minha frente, usando bengala. É mulato, alto, magro. Usa boné e óculos escuros.

Agora, ninguém aos meus dois lados e nem na minha frente. Por aqui, tudo claro, com apenas o barulho do ar condicionado central.

A faxineira do local passa na minha frente.

- A senhora quer que eu levante o pé, para a senhora varrer?

- Não, meu amor. Pode ficar, tá? Obrigada.

- De nada.

Ela sai. Agora, ninguém aos meus dois lados e nem na minha frente. Por aqui, tudo claro, com apenas o barulho do ar condicionado central.

Uma senhora senta no banco ao lado do ao lado do meu e coloca a sua bolsa (que é bege e marrom) na cadeira ao lado de onde estou sentada. Agora, tirou a bolsa e colocou o copo descartável com mate e gelo dentro. Ela tira o copo. Colocou o copo novamente, agora, com menos da metade do conteúdo dentro. Tirou o copo.

Uma senhora passa na minha frente. É branca, magra, baixa.

- Você sabe que horas sai a barca?

-Não sei. Não estou esperando por ela. Estou esperando uma pessoa, então, não estou acompanhando.

- Não sei se vai dar tempo de pegar a de Paquetá.

- Que horas sai a de Paquetá?

- Meio dia. E, se não pegar essa, só depois de uma hora ou duas.

- Ai, caramba.

Uma senhora, agora, senta ao meu lado. É negra, alta, gorda. Tem o cabelo curto e usa óculos escuros. Veste uma calça comprida preta, uma sandália marrom, uma blusa estampada azul. Uma bolsa preta, de couro, aberta sobre o seu colo. Ela maquia-se. Passa batom. Fecha o batom, olha-se no espelho. Ajeita o cabelo. Guarda o espelho, fecha a bolsa. Abre a bolsa.

A senhora do outro lado conversa com ela.

- Se embelezando, né?

Mexe do lado de dentro da bolsa.

- Mas com esse sol ultra-violeta. Ah, coisa de doido. É.

Passa perfume.

- Eu tenho 43 anos. Mas vivo de sol. Não bebo, não fumo. Eu sigo todas as regras possíveis.

Abre a bolsa.

- Tá bem também. Tem que ter. É, agora, a maquiagem já vem, né? Pó de arroz com protetor solar, hidratante. Pele. Uhum.

Pega o celular, que é Samsung.

- Também, só um gloss, uma coisa. Muito quente. Você passa uma toalhinha e sai tudo...

Mexe no celular Samsung.

- Uma coisa de doido esse sol. Você fica vinte minutinho, a pele queima.

Continua mexendo no celular Samsung.

- Janeiro geralmente chove, né? É.

Continua mexendo no celular Samsung. Ele toca. Digita uma mensagem de texto nele.

- É.

O celular toca novamente, e ela continua mexendo nele.

- Difícil, né? A gente fica exigente, né? Há sete anos sou viúva. Mas hoje sou mais exigente que há vinte anos atrás. Você pode deixar ser enganada, mas se enganar a gente não se engana mais. Meu marido era bom pra mim. As coisa tá muito difícil hoje. Eu fiquei viúva com 35 anos. Quando eu fiquei viúva, vai ser fácil conhecer uma ou outra pessoa. Nada. É muito difícil. É. Hoje em dia os caras não querem assumir nada. Hoje eu tenho uma filha de 17 anos, graças a Deus. Sou independente, tenho uma pensão. E quando o homem vê que você tem uma casa, tem um negocinho, quer logo trazer a roupa. É ruim, hein? Já quer usufruir do que você tem? Aí não aceito. Ninguém chega. Meu marido deixou pra mim e pra minha filha. E pro meu trabalho. E a pessoa vai chegar na sua vida e a partir disso construir uma vida. Mas ninguém quer não. Ninguém quer nada. Ainda mais homem assim que... Já vem assim, com separação, compricado. Vem com as historias, entendeu ex-mulher pegando no pé. É filho ciumento. É muito problema. Quero não. E uma coisa que eu não quero não: filho dos outros. Meu marido quando veio já era viúvo, e eu cuidei de dois filhos dele, já eram casados. Ele se foi, agora encerrou. Quero não.

Tem a bolsa sob o colo, e as mãos cruzadas sobre a bolsa.

- É. Isso aí. É. Isso aí. Hoje em dia, parceria está muito difícil. Por isso que tá sozinha. Fiquei sozinha sete anos. E final de semana você fica com a pessoa, feriado...

Olha para o lado, com a senhora, conversando. E as mãos cruzadas sobre a bolsa, fechada.

- Isso aí. Isso aí. Eu vou encontrar também um homem muito bagunceiro, muito... Eu sou muito sossegada também.

Uma senhora passa na minha frente. É branca, gordinha, baixa. Usa óculos escuros e tem o cabelo loiro, preso num rabo de cabalo. Veste uma bermuda preta, blusa estampada e sandália bege.

- Parece que você tá fazendo questão... Uhum. Hum. E quanto mais se apega, né? É. Isso aí. É. É. Não paga mais ninguém. Tem que arrumar uma pessoa que se encaixe nisso. É. A gente, chega uma certa idade...

A negra e a outra passam na minha frente. Uma senhora passa na minha frente. Um senhor passa na minha frente. Um rapaz passa na minha frente.

Agora, ninguém aos meus dois lados e nem na minha frente. Por aqui, tudo claro, com apenas o barulho do ar condicionado central.

Nenhum comentário:

Postar um comentário