terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Ralph e Lucas


Ralph foi criado por seu pai, um senhor de nacionalidade indefinida, muito machista. Sua mãe morreu no parto, de pré-eclâmpsia. Ele não sabia bem o que era isso, mas sabia que a "sua velha Isa" tinha morrido pouco após dar a luz a ele.

Desde cedo, Ralph gostou de mar, praia, sol e independeu-se muito novo. Aos 12 anos, já matava aula para surfar.


- Que se foda essa porra toda. - dizia isso sempre, mesmo na tenra idade.


Surfava sozinho, pelo menos 3 vezes por semana. A prancha era emprestada dos surfistas que ficavam por ali, em Ipanema, onde morava com o pai. 


Aprendeu a nadar no mar. Conheceu seus amigos no mar. Aprendeu a sentir o sol, o vento, a temperatura, a velocidade no mar. 


Como era esperto e bom aluno, acabava sempre passando de ano, pois estudava na véspera e acabava tirando a nota necessária para passar.


Seu pai, um tanto quanto ausente, não educava nem ensinava sobre a vida para o pequeno Ralph.


Desde novo, sempre fora machista. Tivera poucas amigas e namoradas.


"Amizade entre homem e mulher não existe. Homem é pra comer mulher".

"Amigo de mulher é cabeleireiro. Eu sou surfista macho".
"Mulher é que nem onda grande. A gente tem que meter a cabeça e nem olhar".

Ralph tinha essas pérolas e, os seus amigos, todos mais velhos, riam da inocência e do machismo do pré-adolescente.

Terminou o colégio, fez faculdade de Turismo - também, aos trancos e barrancos -, e a praia era, sempre, a sua melhor amiga.

Já tinha trabalhado em loja - na Sandpiper, na Taco, na Mr. Cat -, e deu pra juntar um dinheiro e, aos 23, comprou a sua própria prancha, que chamava, carinhosamente, de "minha velha Isa", em homenagem à sua mãe.

Os amigos não sabiam do apelido da prancha, pois isso era coisa de "baitola".

Até que, um dia, Ralph conheceu Carolina. Não Carol. Ela gostava de ser chamada pelo "nome completo", como ela dizia, com todas as letras: CAROLINA.

Ela passou a ir à praia ali, naquele local, e observava os surfistas, sentada, sozinha, com um sorriso contemplativo. 

Ficaram amigos. Ralph mostrava, para ela, a ondulação, a curvatura e como a onda fechava. Mostrava de onde vinha o vento, e como, e de que forma, a maré subia. E Carolina gostava de ver Ralph surfando. Parecia, até, um balé. 

Um dia, ela disse isso a ele, que fez uma cara torta engraçada: "isso é coisa de baitola".

- Baitola? O que é isso?
- Baitola, oras. Baitola é baitola.
- Bicha?
- É, viadinho. Baitola é mais do que bicha. É viadinho.
- Você é ridículo, Ralph. Ridículo, preconceituoso, infantil, babaca. 

Carolina e Ralph ficaram amigos. Um belo dia, final de tarde, transaram, ali na areia mesmo. E aí, claro, sem camisinha. Aquelas rapidinhas, próximo a Pedra do Arpoador, com medo de algum policial ver. 

Depois desse dia, Carolina sumiu da praia. Ralph perguntou pros amigos, procurou-a por ali, e nada de Carolina. Quase um mês depois ela apareceu. Ele, vindo do mar, a viu sentada, no mesmo lugar. Vestidinho verão, mas sem bikini.

- Oi gata. Tava sumida, andei te procurando - e estalou um beijo na bochecha dela.
- Oi.
- Como você tá? Tá triste?
- Não sei.
- Tá de bikini? Vamos no bar?
- Não, não. Vim só te ver. 
- Vou pegar mais uma onda e a gente vai ali no Nogueira comer?
- Não, não. Fica aqui. Preciso te falar.
- Fala, princesa.
- Tou grávida.
- Porra, Carolina? Grávida? Tu não toma pílula, merda? Tenho 26 anos, porra. Um empreguinho de merda. Moro com meu pai. Tu com tua mãe. E agora?
- Eu sabia... tu é um babaca. Gato, transa bem, mas um babaca.
- Não, peraí. Onde você vai?
- Embora, tchau.

Ralph não sabia onde Carolina morava, mas o Rezende, guarda-vidas que estava sempre por ali, sim.

- Tu é um babaca, Ralph.
- Porra, mina grávida de mim, Rezende?
- E tu já tem 26 anos, né, pré? Vai assumir o filho não? Deixar a menina da sua vida ir embora?

(A galera chamava ele de "pré", de "pré-adolescente").

- Que mané menina da minha vida...
- Ah, pré... Você é que pensa. Todo mundo já viu, já sacou. O jeito que vocês se olham. O jeito que você beija ela na bochecha. Assume logo isso, cara. Aproveita esse filho e cresce, mané. Tu ainda é pré? Com 26 anos, porra? Um filho, caralho. Um filho. Filho muda tudo, Ralph.

Ralph, ainda pré, foi pra casa e não conseguiu dormir. 23h ligou pra Rezende.

- Rezende, é o pré. Tá podendo falar, cara? Te acordei? Tu sabe onde Carolina mora? É, pois é. Estranhão, né? Não, quero o telefone não. Quero ir direto lá. Ah, sei sim. Aqui perto, né? Tá legal. Vou lá amanhã. Hoje? Você acha? Mas tá tarde, cara. Sei lá, vou pensar. Tá bom. Valeu, meu irmão. Um abraço. 

Ralph tomou banho, vestiu a primeira roupa que viu, deu um beijo na "sua velha Isa", pediu sorte, e foi na casa de Carolina.

Tocou o interfone e a dona Aparecida, mãe dela, atendeu:

- Oi, a Carolina está? É o pr... é o Ralph, da praia. A senhora pede pra ela descer? É, é rapidinho.

Ralph nunca estivera tão nervoso antes. Não sabia o que dizer, como dizer, nem como olhar pra Carolina.

Ela desceu. Não tinha cara de choro, nem de emburrada. Ele, do outro lado da calçada, olhou pra ela com cuidado: a barriga ainda não aparecia. 

Ela atravessou a rua, ao encontro dele, encostado num carro. Ralph chegou junto, a abraçou com força, fungou o seu cabelo loiro, comprido, desgrenhado.

- Eu já tava dormindo, Ralph, que você quer?
- Eu vou ser um pai maneiro.
- Quê? - Carolina não sabia se tinha ouvido mal, ou se ainda estava dormindo.
- Eu vou ser um pai maneiro. Eu QUERO ser um pai maneiro. É isso. 
- Tá, mas como?
- Não sei ainda como, Carolina. Mas esse moleque é meu filho, e eu vou ser um pai maneiro, não como o merda do meu pai. Eu quero ser um pai maneiro pra ele. 

Carolina abraçou Ralph com força, sem saber muito o que dizer, o que sentir, e, na ausência e na confusão interna, Ralph veio com a pérola:

- Cabou a hora de ser pré, gata. Eu te amo, Carolina. E eu quero esse filho pra mim. Quer dizer, pra gente. Tou nervosão, porra.

Os dois explodiram numa gargalhada, e foram comemorar com o açaí do Nogueira, ali perto. 

Ficaram, ainda, uma época, morando na casa da dona Aparecida, até conseguirem alugar seu quarto-e-sala no Leme, onde podiam pagar.

Hoje, encontrei Ralph e Carolina na praia do Leme. Lucas, já com 5 anos. 

Ralph indo ao mar, a cada 3 minutos, com um saco (desses de gelo) pegar água para a piscina do pequeno. Fez essa viagem 6 vezes (eu contei).

Dona Aparecida ("minha melhor amiga", dizia Ralph) e Carolina, grávida da Maria, a segunda filha do casal, sentadas, na sombra da barraca.

Lucas já entretido com os brinquedos da água da piscina. 

Cada vez que Ralph chegava com mais um saco de água, pegava um pequeno balde, e molhava a barriga de Carolina, com um sorriso babaca.

- Sim, ele ainda é um babaca - dizia Carolina -; só que, agora, pelos filhos.


Ralph ainda gostava de surfar. Mas, agora, seu amor era sentar na areia, com o filho, e fazer castelos para ele. Fez 5 castelos, de formatos diferentes, com uma técnica que ele aprendeu intuitivamente: colocava areia no balde, misturava com um pouco de água "pra fazer a liga", batia bem com a mão, emborcava na areia e... voilá! Lá estava o castelo, vários castelos.

Lucas destruía todos. Não era uma criança agressiva, nem arteira. Destruía, mesmo, sem querer. Queria ajeitar o frágil castelo do pai e, com a mão de menino, acabava errando na dose, e o castelo desmoronava.

O pai fazia outro, e outro, e outro. 

Colocava fósforo em cima. Cantava parabéns. A família toda fazia coro, cantando junto. 

E eu, ali, tão perto (com as duas amigas na praia), e tão distante da família. Logo eu, que amo tanto as crianças, tive vontade, hoje, de abraçar e dar um beijo estalado na bochecha do pré.

Um comentário:

  1. Lindíssimo, amiga.
    Diferente...
    Graças a Deus, ainda existem muitos "prés" por ai.
    Que eles NUNCA se acabem. NUNCA. ♥

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