domingo, 3 de fevereiro de 2013

Alessandra e Francisca

Estava eu, no metrô, indo pra algum lugar que não lembro mais.
Vi Alessandra, 17 anos; e Francisca, 40, sua mãe.
Moravam na Pavuna, e estavam na linha 2, de tarde, voltando pra casa, em pleno sábado.
Francisca é empregada doméstica. Trabalha na casa da dona Marisa, em Ipanema, há mais de 10 anos.
Alessandra termina o ensino médio e quer trabalhar como recepcionista, mas nunca trabalhou ainda. "Preciso apenas de uma oportunidade pra mostrar o meu potencial". E tinha. Era uma boa menina, apesar de namoradeira, segundo a mãe.

Ambas eram negras, magras. Alessandra, mais alta que a mãe. Francisca, no entanto, era mais forte que a filha. O mesmo olhar de jabuticaba aparecia nas duas. 

O olhar das duas, triste, silencioso. Não se olhavam. Sequer conversavam. Havia, no entanto, cumplicidade. Uma silenciosa cumplicidade e amor. Muito amor.

Alessandra conhecera João na festa da comunidade, e namoraram escondidos. Ele é mais velho. Ela, com 17, hoje, ele tem... 23. Gostavam de conversar, de passear, de fazer cócegas um no outro, de dançar no baile... O beijo dele era bom, quente, forte.

Francisca não sabia. Apesar de mãe forte, era ingênua.

Alessandra era virgem. João, não mais. A mãe dele foi trabalhar no fim de semana (era técnica de enfermagem), e eles foram pra casa de João ver um filme. Só tinham 2 meses de relacionamento, é cedo pra alguma coisa, pensava Alessandra, mas João era boa gente. 

O carinho foi aumentando, o calor também, tudo tava bom, ele foi carinhoso, mas firme, e acabou rolando. Não doeu, nada. Alessandra não tinha medo. Ele foi cuidadoso.

- O que é isso quente saindo de mim?
- Meu gozo, princesa.
- João, e a camisinha?
- Tem medo não, linda. 
- Eu tenho, João.
- Tem não... olha, já a mãe tá chegando, vou te deixar em casa.
- Precisa não, eu vou só.
- Tem certeza?
- Tenho.

Alessandra foi ao banheiro se lavar e, de lá mesmo, foi pra casa. Quando João viu, já não tinha mais Alessandra.
Chegou em casa, a mãe estava esperando por ela, pra jantar.

- Onde tava, filha?
- Na Lurdinha.
- Ela tá bem?
- Tá sim.
- Você tá triste, filha?
- Não, mãe, tou não. Vamos jantar?

E jantaram, em silêncio.
A menstruação atrasou, Alessandra contou pra João, que comprou um exame, desses de farmácia, e deu pra ela, correndo, pois precisava ir pro trabalho. 
- A gente se fala, princesa. Me liga, se precisar.

Alessandra ficou sozinha em casa, e fez o exame de gravidez. 
40 dias de menstruação atrasada e... POSITIVO.
17 anos, grávida. Sem emprego. Grávida do João.

Alessandra passou o dia, silenciosa, em casa, sozinha, andando de um lado pro outro. Escreveu umas 4 cartas, e rasgou tudo. 

Era uma 6a feira. De tardinha, Alessandra ligou.

- João, sou eu... Você pode falar?
- Vai ser rápido? Tou no trabalho.
- Então... eu fiz o exame...
- Hummm.
- E deu positivo.
- Positivo o que?
- O exame. Tou grávida, João.
- Alessandra, vou tentar arrumar dinheiro. A gente não pode ter esse filho.
- Tá bom.
- Sua mãe já sabe? 
- Não chegou ainda.
- Você vai falar com ela?
- Não sei ainda.
- Amanhã eu vou trabalhar. Me encontra no Centro às 15h? 
- Não posso te ver hoje?
- Hoje eu vou sair com os colegas aqui do trabalho.
- Tá, amanhã 15h onde?
- Na Carioca. Eu te ligo antes.
- Você vai conseguir o dinheiro?
- Vou. Vou pedir aqui. 1.000 dá?

Alessandra tinha vontade de chorar.

- Não sei, João. 
- Me dá até amanhã, a gente conversa amanhã. Não fala pra tua mãe. A gente fez a merda, a gente resolve a merda.
- Tá, tchau.

Francisca chegou e Alessandra estava deitada, acordada, olhando pro teto.

- Alessandra, tá tudo bem, filha? Ta doente?
- Não, mãe.
- Que você tem?
Alessandra não respondeu.
- Alessandra, não preocupa sua mãe. Que você tem?
- Mãe, eu conheci um menino.
- Alessandra, você tem 17 anos, tem que acabar os estudo.
- O nome dele é João.
- O que tem esse tal de João?
- Eu tou grávida do João. 

Francisca sentou na cama, ao lado da filha, e olhou-a silenciosa. O olhar indecifrável da mãe. 

- Ele já sabe que você tá grávida dele?
- Sabe. Vou encontrar com ele amanhã, no trabalho dele. Ele vai conseguir dinheiro.
- Dinheiro pra que, mulher de Deus?
- Pra, pra... A senhora sabe pra quê, mãe.
- Não, não sei. Pra que precisa de dinheiro se a criança não nasceu, Alessandra?
- Dinheiro pra não nascer, mãe.

A mãe pôs a mão no coração e saiu de perto da filha. Nesse dia, elas não jantaram, não se encontraram mais pela casa. Não se falaram. Nada. 

12h almoçaram juntas e Alessandra foi se arrumar.
- Que horas você vai encontrar com ele?
- 15h, na Carioca.
- Vou com você.
- Vai não, mãe... É pior. 
- Você é minha filha, é de menor, e eu vou com você onde eu quiser. - Francisca era forte. Decidida. 

Alessandra pensou em mandar um SMS pra João avisando, mas seria pior. Ele podia não aparecer.
O frio na barriga aumentava.

Na hora marcada, estava Alessandra e Francisca, na porta do Bob's, na Carioca. João chegou 15h20, suado, correndo.

- Oi.
- Você é o João?
- Sou sim senhora. - Ele estendia a mão, pra apertar a mão da possível-futura-sogra.
- Eu sou Francisca, mãe da Alessandra. - e apontou para a filha, com a cabeça, sem retribuir o quase aperto de mão do rapaz.
- Prazer dona.
- Você conseguiu o dinheiro, menino?
- Consegui sim. R$ 1200. Meu chefe me deu adiantado. Vai descontar do meu salário, R$ 300 por mês.

Alessandra permanecia em silêncio. Olhava para um e para outro, enquanto conversavam, em pé, no meio das pessoas, do Largo da Carioca.

- Guarde seu dinheiro, meu filho. Use pro que você quiser. Mas filho de Alessandra é meu neto. E eu vou criar essa criança. Eu e Alessandra. Não precisamos do seu dinheiro. Vocês foram irresponsáveis. Muito irresponsáveis. Minha filha é uma menina ajuizada, do bem. O filho dela também vai ser. A gente vai criar ele. Se você quiser, você vai ser o pai. Se não, ele não vai ter pai. Alessandra também não teve pai, e tá aí, digna. Você não precisa casar com Alessandra se vocês não quiserem, mas meu neto você não tira não.

Alessandra chorava, em silêncio. 
Agora, Francisca apertou a mão do rapaz.
- Felicidades pra você, rapaz. 

Alessandra saiu, com Francisca, sem dar uma palavra. 
Nem ela sabia se queria aquele homem pra ela.
A força da sua mãe, no entanto, te deu força para reconhecer-se, também, como mãe.

E estavam, as duas, sentadas no metrô, em direção a Pavuna.

O olhar era de amor. Apenas amor.

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