sábado, 20 de abril de 2013

Beto

Eu conheci Beto no ônibus do metrô, no trajeto Botafogo - PUC. 

Acho que era a primeira vez que fazia este trajeto, neste horário. O ônibus estava cheio, a fila estava grande, mas eu encarei (o trânsito) ir em pé. Por acaso, parei na sua frente. Na frente de Beto, digo. 

Vou contar a sua história antes do (curto) trajeto da viagem, que nos conhecemos.

Beto tinha 33 anos, e morava no Humaitá, com os pais. 

Seus pais sempre foram bem-sucedidos. Sua mãe, professora de Filosofia de duas universidades. E seu pai, arquiteto e engenheiro civil (sim, ele tinha as duas formações). Ambos sempre educaram os três filhos homens - Humberto (o Beto), Rubens e Carlos - com muita educação e civilidade. Buscavam passar valores humanitários, de igualdade, e viviam à base do zero preconceito. Eram pais amorosos, que buscavam e propiciavam, aos filhos e às pessoas em geral, o máximo de liberdade e amor ao próximo. Nunca foram religiosos, mas sempre tiveram um viés espiritualista, guiado pelo respeito, liberdade e amor.

Beto nunca foi o filho mais fácil, dos três. A diferença de idade deles é de 3 anos. Beto tem, hoje, 33; Rubens, 36; e Carlos, 39. Os dois últimos já são casados. Beto já teve algumas namoradas - os pais só conheceram duas - mas nunca casou. Os pais não sabem bem porquê. "Mas é a vida que ele escolheu", e sorriam silenciosamente.

Quando criança, Beto era pacato, silencioso, poucos amigos. Parecia um menino sem paciência, embora ele dissesse que não. Lia mais do que jogava bola. Desenhava mais do que jogava video-game. E, com a internet, passa mais tempo nela do que namorando. 

Por ser de uma família classe média-alta, sempre viajaram os cinco. Seja pra Região dos Lagos, seja pra Disney, seja pra Europa. Os pais sempre tiveram a sensação de que Beto era o que menos curtia. Exceto a Disney, com aqueles brinquedos violentos, que ele queria ir repetidas vezes. 

Os pais o colocaram numa psicóloga aos 16 anos e, aos 17, ela sugeriu que Beto fizesse um teste vocacional, que deu engenharia de produção. Beto fez no IBMEC. Passou, sempre, com excelentes notas. Já é formado e trabalha em uma multinacional, no Centro, onde ganha muito bem e leva uma vida confortável: tem seu carro, junta dinheiro pra comprar seu apartamento próprio, sai todo final de semana, uma vez por ano faz uma viagem internacional.

Nunca deu trabalho para seus pais. Pelo contrário. Era o filho mais "imperceptível".

- É estranho esse menino, Dora. O que a psicóloga dele diz?
- Verinha, ele tem 16 anos. Não vou ficar conversando com a psicóloga dele sobre ele. 
- Será que ele é gay?
- Acho que não. Mas e se for?
- Ah, estranho, né? Um filho desse, lindo, e gay?
- Vai tomar no cú, Verinha. Ligou só pra isso?

Dora batia sempre o telefone com a sua irmã mais velha - madrinha do Beto -, com quem nenhum dos dois nunca se deu. Era mais velha que ela - Dora tinha 40 e Verinha tinha 50 - e com um pensamento retrógrado, preconceituoso, e, acima de tudo, era fofoqueira. Dora detestava fofoca. E preconceito, mais ainda.

Mas, voltemos a falar de Beto. 

Beto acabou fazendo engenharia de produção, por influência da dona Marisa - a psicóloga - , de quem muito gostava; e de seu pai. Somente os dois sabiam (parte) do seu mundo interno. 

O desejo de Beto era ser policial. Não qualquer policial, mas destes que matam. Beto achava que "bandido bom é bandido morto" e dizia que não ia morrer antes de matar um. 

Nunca andara armado, pois tinha medo - de verdade - de matar um bandidinho desses de meia-tijela e acabar se fodendo por conta disso. Sendo policial, ele não teria esse problema. Podia matar mesmo, e pronto. 

Seria coerente se Beto gostasse de vídeo-games violentos na infância, ou de filmes de guerra, massacre, ou policiais, na juventude. Mas, seus pais nunca ouviram-viram ele vendo nada disso. 

Sempre que podia, Beto estava lendo. Lia não só livros de suspense e policiais, mas livros de estratégia policiais, estratégia de matadores profissionais. Ele gostava de ser o próprio personagem e excitava-se imaginando-se naquele lugar de matador. Gostava de ver, na sua mente, o sangue escorrendo, o morto caindo, em câmera lenta. 

Beto nunca fora assaltado. Ele dizia pra psicóloga, dona Marisa:

- Eu dou azar. Nunca fui assaltado. Eu bem que queria. Acho que, sendo assaltado, ia ter motivo pra comer o filho de uma puta na porrada, até ver sangue. Não precisava matar, né? Morto, ele ia me foder. Mas uns socos, uns tapas fortes na cara, pra ver um sangue, é legal. 

A psicóloga conversava - e interpretava - essa questão de violência, morte e sangue tão presentes na vida de Beto. Antes que ela pudesse desvendar - para ele mesmo - ele saiu da terapia, para se dedicar aos estudos. Era um homem inteligente. Não queria ser desvendado. Dona Marisa ouvia, como ninguém antes, atenta, a história de Beto. Ainda que histórias do seu mundo interno. Beto podia - dona Marisa permitia - viver o personagem policial na terapia. Isso o excitava profundamente. Não excitava de pau-duro, caro leitor, mas excitava enquanto energia, enquanto pulsão, enquanto entusiasmo. 

Na terapia, Beto era a sua essência: o mundo interno (e oculto) vinha pro mundo real. Dona Marisa sabia, e ele era grato a ela por isso. 

Apesar de abarcar um personagem violento, Beto era um homem bom. Bom? Ele não se considerava bom. Talvez eu desejasse que ele fosse bom. Ele era justo. No seu conceito de justiça torpe. 

"Bandido deve morrer". "Os presídios estão lotados. Vai prender o merda lá dentro, pra daqui a 5 anos, ressocializar? Mata logo o cara, porra!". "Um estuprador merece viver? Não, não merece". "Direitos humanos? Bandido merece é bala". "Claro que existe gente do bem. Mas existe gente do mal. Bandido, estuprador, assassino, não é gente do bem. E gente do mal merece morrer". "Todos nós vamos morrer. Mas os bandidos, mais rapidamente". 

Essas eram os conceitos - insanos? - de Beto. 

No ônibus do metrô, Beto lia "Um dia sangrento". Eu tentei ler a contra-capa, ou ler parte do livro com Beto. De alguma forma, ele percebeu, e ficou lendo-o de forma que eu não pudesse ler mais coisa alguma. 

Gostaria que Beto me olhasse. Olhei, fixamente, dentro de seus olhos, parte da viagem. Ele notou que estava sendo observado, mas não desgrudou de seu livro-mundo interno.

Semana passada ele desejou retornar à terapia. Ligou para o consultório de dona Marisa, e falou com a Fernanda, sobrinha e secretária da sua psi. 

Fazia 9 dias que dona Marisa tinha sido assassinada, indo para casa, ao sair do consultório, numa 6a feira à noite. Seu carro era grande, preto, com vidros escuros, e dona Marisa gostava de dirigir devagar, olhando a orla, até São Conrado, onde morava. Foi abordada no final da Avenida Niemeyer e, ao tentar tirar o cinto, para sair do carro, levou um tiro na cabeça, morrendo na hora.

Agora, Beto podia realizar seu sonho. Ia, enfim, se tornar ele mesmo - aquele, de anos atrás, da terapia - e vingar a morte da sua psicóloga.

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