quarta-feira, 10 de abril de 2013

Zulmira e a sua história

Essa história, embora não pareça, tem muito mais realidade do que pensamos. Eu conheci Zulmira, pessoalmente. Ela não sabe que eu sou psicóloga e nem que entrevisto pessoas. Mas ela me contou (pôde me contar) a sua história. 

E eu senti que, por respeito à Zulmira, e à sua história, precisarei fotografá-la. Portanto, eis, a seguir, a sua história.


Estive, hoje, no Shopping Leblon e fui almoçar com uma amiga, a Fernanda. Fernanda ia encontrar a Zulmira, uma conhecida de sua mãe, pra entregar algumas coisas à ela.


Eu e Fernanda escolhemos nosso restaurante, fizemos o nosso prato, e sentamos em uma mesa, para 4 lugares. Fernanda já acabava a sua refeição (e ainda precisava passar no banco), quando a Zulmira chegou. Eu, que comia mais lentamente, ainda demorei um pouco mais.

- Oi tia Zulmira! Tá boa?
- Tudo bem, querida, e você?
- Tudo ótimo. Essa aqui é a Lu, minha amiga.
- Oi Lu, prazer.
- Oi Zulmira, prazer é meu, obrigada.
- Você não vai almoçar, tia?
- Não, obrigada. Já almocei antes de sair.

E Zulmira sentou na nossa mesa, observando a gente comer.

Fernanda terminou mais rapidamente, e pediu muitas desculpas a Zulmira, tendo que sair correndo, pois ainda precisaria pagar umas contas, resolver umas coisas. Entregou o que precisava à Zulmira, e nos deixou a sós.

Pude perceber Zulmira neste meio tempo. Era uma senhora, por volta de seus 50 / 55 anos. Usava um vestido estampado, justo, acima do joelho, muito bonito. O vermelho predominava. Tinha um cabelo loiro, pintado, liso, acima do ombro. Olhos castanhos. A pele um pouco rosada. E o olhar triste. 

Zulmira sorria pouco. Quase nada. Falava baixo e pausadamente. Estranhamente gostei da sua companhia e puxei um assunto.

- Tá passeando no shopping, Zulmira?
- Não. Vim a uma entrevista. Vou ainda.
- Ah, que legal. Em alguma loja?
- Não. Em uma empresa de engenharia, aqui no Leblon. Mas vim mais cedo. Passei aqui pra ver a Fernanda e pegar as coisas com ela.
- Que horas é a entrevista?
- 15 horas.
- Ah, legal. Não quer comer nada?
- Não, não. Sem fome. Hoje não seria um bom dia pra ir à entrevista. Mas marcaram, e eu tou precisando.
- Vaga de que?
- Supervisora administrativa de uma obra, na Barra.
- Olha, que legal! Sorte pra você!
- Estou precisando mesmo.

Zulmira suspirou e suas bochechas, rosadas, ficaram ainda mais vibrantes. 

- Me conta, Zulmira. Estou com tempo. Tenho uma reunião só às 15h também. Temos, ainda, uns 30 minutos.

E ela começou:

- Eu vim de São Pedro d'Aldeia. Morava lá, com marido e dois filhos, um casal. A Cecília, a mais velha, hoje tem 32 anos. Adotei ela quando ela tinha 10. É até uma história assim, como é que eu posso dizer...?
- Diferente?
- Não, não.
- Inusitada?
- Não. Não sei te explicar. Eu trabalhava num escritório lá perto, e eu andava sempre cedo, na praia. Tipo 6h da manhã. E aí, vi a menina, muito loirinha, sentada na areia, num canto, sozinha. Ela parecia menos idade. Fui até lá e perguntei: você tá sozinha? Ela disse: tô. Cadê sua mãe? Sei não senhora. Qual seu nome? Cecília. De onde você é? De Cabo Frio. E que você tá fazendo aqui? Esperando minha mãe, ou meus irmãos. Onde eles foram? Sei não. Eles deixaram você aqui? Aí, ela só fazia que sim com a cabeça. E aí, eu entendi tudo. Você tem o telefone de algum deles, pra gente ligar? Tenho não. A gente se mudou recente, minha mãe não tem celular, e não tem telefone na casa. E você sabe onde é a casa nova? Eu tou sozinha, moça. Acho que tou sozinha. E ela repetia, sabe? Sozinha, sozinha, sozinha. Parecia um disco quebrado. Eu já tinha 38 anos, casada ha 6 anos, sem filhos, e aquela menina sozinha ali? Você tá com fome, Cecília? Ela fazia que sim com a cabeça. Se eu pensasse, sabe? Luciana, né?
- Luana.
- Isso, Luana, desculpe. Se eu pensasse, eu ficaria ali, sozinha com a Cecília. Mas eu não podia deixar aquela criança ali. Levei ela comigo. Meu marido - o Rubens - ficou doido. No início, ele não gostou, mas depois ficou... apaixonado... assim, gostando da menina. Demorou a Cecília chamar a gente de pai e mãe. Ela chamava de moça, de moço, de dona, de senhor. A nossa casa era grande, com piscina. E aí, um dia, ela caiu no quintal, abriu o joelho, uma sanguera danada. Eu na cozinha. Era um domingo de tarde. Aí ela me gritou: "manhê!". Nossa, eu não sabia se chorava de preocupação, com aquele joelho aberto, ou de alegria, de ter, agora, uma filha, me chamando de mãe. Aí foi assim. Criei, eduquei, dei de comer. Fiz tudo por Cecília. Minha filha, né? Ela não tava mais sozinha. Éramos uma família, né? Aí, pouco depois, veio o Caio. Aí engravidei. Hoje Cecília tem 32 e Caio tem 15. Menina, mas que xodó era aquele irmão. Era irmão pra cá, irmão pra lá. Caio era bonzinho, não me dava trabalho nenhum. E quem escolheu o nome dele foi Cecília, em homenagem ao tombo dela. Sempre foram muito amigos aqueles dois. Uma coisa. Aí Caio com 3 anos, Cecília com 20, eu voltei a trabalhar. Consegui um emprego na empresa de uma amiga, e Rubens cuidava dos dois, pra mim. Ele era advogado, tinha um pequeno escritório em casa mesmo. Casa ampla, né? Bom, eu vou resumir, que a gente tá sem tempo, né?
- São nem 14h ainda, Zulmira. Pode contar à vontade.
- Engraçado, a gente nem se conhece, né?
- Verdade. Mas aí, você voltou a trabalhar...
- É. Voltei. Aí, um belo dia, uns 3 anos atrás, eu cheguei em casa mais cedo. Caio na escola (ele estudava à tarde), eu vejo Rubens e Cecília...

Zulmira parece que vai ter um negócio. Prende a lágrima, aquela primeira, com uma força tão grande, que basta que eu pegue na sua mão, sobre a mesa, pra que saiam todas.

- Tavam os dois. Meu marido e milha filha. Eu até achei que tinha entrado na casa errada. Mas aquele rabo de cavalo loiro era minha filha. Ela, eu reconheceria em qualquer canto. 
- Mas seu marido e sua filha...?
- Juntos, menina. Juntos. Ai, não gosto nem de lembrar. No sofá da sala, sabe como? Nossa... Mas aí eles não viram que eu vi. Eu voltei praquele lugar lá, onde peguei Cecília. Lembrei do "sozinha, sozinha", lembra? E fui ficar sozinha. Botei a cabeça no lugar. Aí voltei pra casa. Eu não ia guentar. Não ia. Esperei Caio dormir. Ele sempre foi um menino bom, me ajudou. Dormia cedo, que tava estudando, né? Ai esperei ele dormir e falei tudo: vi vocês dois aqui, no sofá da sala, assim, assim, assim, assim. Vocês não me viram. Eu fui pra praia, que lá é que é lugar de esfriar a cabeça. Eu não posso sair ainda. Não posso ir morar em outro canto ainda, que tem também o Caio, que é menor. Mas você, Cecília? Sou sua mãe. Ele é seu pai. Ele nunca foi meu pai, ela me disse. O rosto deles, assim, sabe? Sem emoção. Aí o Rubens: eu te amo, Zul. Ele me chamava de Zul. E aí, você não acredita: o Rubens propôs, da gente ficar, nós três. Nós três, Luana? Eu e minha filha? Casadas com o mesmo homem? Tem gente que é moderna, né? Eu não sou não. Ai, dia seguinte cedo, Caio acordou cedinho. Ele corria na praia, de manhã, e falei com ele: mamãe tá indo embora. Vou pro Rio de Janeiro, hoje ainda. Ele ficou lá, né? Com a irmã e o pai. Graças a Deus, eles nunca deixaram o menino perceber o negócio deles. Romance? Caso? Casamento? Não sei o que era. Mas, graças a Deus, eles foram discretos. Aí vim embora pro Rio, de manhã cedo. Passei no meu quarto, fiz uma mala. Rubens tava gordinho - agora não sei, né? - e tinha o sono pesado. Cecília no quarto dela. Peguei tudo, minhas roupas, pouca coisa, e vim embora. 
- Difícil, né, Zulmira?

Ela fazia que sim, agora, enxugando as lágrimas. Eu ouvia tudo, atenta, contendo as minhas lágrimas.

O almoço já tinha acabado. Agora, eu tomava um suco. Zulmira não bebia nada, apesar de eu oferecer, sucessivas vezes, água, suco, ou qualquer coisa que ela desejasse.

Zulmira só fazia que não com a cabeça e continuou:

- Aí você veio pro Rio de Janeiro.
- Vim. 18 de agosto de 2011. Aí fiquei na casa da Rute, mãe da Fernanda. Eu ajudava elas em casa. Tipo uma doméstica, secretária. Pra ter onde dormir, né? Aí ajudava. Aí, em fevereiro eu conheci o Ricardo. Ah, ele era primo do amigo do pai da Fernanda. Primo do seu Jorge, amigo do Fernando, pai da Fernanda.
- Entendi.
- Confuso, né? É, então. Aí conheci Ricardo, e começamos a sair, e a namorar. Isso em fevereiro, é. Aí, final de março, ele me chamou pra morar com ele, lá no Recreio. Ele tinha uma empresa, de material de construção, na Tijuca. Aí fui. Apaixonada, né? Carente? Quantos anos você tem, Luana?
- 34.
- 34. Olha, cuidado. Se apaixonada, mas cuidado. Aí, apaixonada por Ricardo, quis ser sócia da loja dele. RC Construções. Ricardo Costa, né? Aí ele preferiu assinar a minha carteira. Ele dizia que era mais seguro, né? Aí foi. Fui, quer dizer, né? Eu tinha um dinheiro guardado. R$ 50 mil. Investi na empresa dele. Tava falindo, né?. Aos poucos, né? Comprava material. Maquinário. Pagava salário atrasado dos funcionários. Recebia R$ 1.500 por mês. Isso, eu recebia. Só que eu botava mais, né? Isso começou em abril. Dia 12 de abril de 2012, acho. Aí, de abril a março, agora, 1 ano, né? Eu investi o dinheiro todo, R$ 50 mil na RC. A gente casados e sócios. Eu de carteira, quer dizer, né? Mas tipo sócia. Aí, agora, sábado passado, dia 6 de abril, né? Ele disse: não quero mais. Tou cansado. Você me cobra muito. Ai, falou um monte. Nossa, eu fiquei sem chão. E o trabalho? Perguntei, né? A RC, e tal? Aí ele perguntou: você acha mesmo, Zul, que vai continuar sendo minha funcionária, sem ser minha mulher? Mas eu era sócia, eu disse. De carteira assinada?, ele. Aí eu entendi tudo. Tive vontade de morrer. Aí ele me deu 3 dias pra sair de lá. Aí eu tou dividindo apartamento com uma prima. Ah, já ia me esquecendo. Perguntei pra ele: e os meus R$ 50 mil? Como que a gente faz? Ai ele disse: ué? Você botou R$ 50 mil porque quis. Agora já foi. Vou até fechar a RC. Viver da minha aposentadoria mesmo. Aí, ele me deu três dias pra sair. Eu fui no mesmo dia. No sábado. Pra casa da Isaura, a prima, na Glória. Um kitnet. Vamos dividir as despesas, né?
- E agora, Zulmira, como vai ser?
- Então. Ela, a Isaura, me indicou a empresa de hoje. Eu liguei na 2a feira pra menina do RH, esqueci o nome dela. Tá no papelzinho aqui. E aí ela pediu pra eu vir a entrevista hoje, 4a feira. 

E aí, Zulmira, que não parava de chorar ao me contar a sua história, desabou:

- E hoje, vindo pra cá, meu dente caiu, olha! Está só no pino! Estou horrivel! Logo no dia da entrevista!
- Tá não, Zulmira. Nem percebi. Tá bonita. Com um vestido bonito, elegante. O cabelo bonito. Faz assim: é só você não sorrir.

E pude me ouvir, depois de mais de 30 minutos dizendo isso: "é só você não sorrir".

- Desculpe, Zulmira. Desculpe.

Ela me olhou, séria, e foi começando a sorrir aos poucos, até explodir numa pequena gargalhada, com a ausência do dente à mostra.

- Pelo menos deu certo, né? Tinha a Isaura, me abrigou. E a vaga, hoje. Se for boa, dá pra alugar um kitnet pra mim mesma, pra sair de lá, que é apertadinho. Ali no prédio da Isaura tem. E eu já fiz as contas. Dá até pra ir ver o Caio uma vez por mês. Ver o garoto, né? Tenho saudades dele. 

Quando vimos, já eram 14h40.

- Tenho que ir, estou atrasada. Obrigada pela conversa!

Eu ia me levantando, pra sair com Zulmira, e poder abraçá-la, quando pude dizer:

- Sorte na entrevista, Zulmira! E pode sorrir! Ou não! Faz o que você achar que deve ser feito! Você é uma mulher forte!

Ela sorriu e saiu andando, sem um abraço. 

Antes de descer a escada rolante, jogou um beijo, de longe. Desses estalados, no ar. 

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