domingo, 20 de janeiro de 2013

Mateus e Gabriel



O nome dela é Isabel. Ele, Ricardo.
Isabel estudava Engenharia Civil na UFF. Uma das suas amigas, inscreveu-se na disciplina de Filosofia I, como eletiva, e não estava a fim de ir à aula sozinha. Pediu, portanto, que Isabel fosse com ela, pra ela não ficar deslocada na turma.
Isabel nem era muito a fim de filosofia, mas sendo Filosofia I, quem sabe?
Chegando na turma, deviam ser uns 25 alunos. O professor ainda não tinha chegado.
O professor entrou e olhou, sorrindo, para a turma. Isabel estava no fundo, mas seus olhares se cruzaram por 1 segundo.
Bia olhou – sorrindo maliciosamente – pra Isabel, que fez uma cara de “não entendi”.
- Bom, gente. Bom dia. Meu nome é Ricardo Lopes, e eu sou professor de Filosofia I aqui da UFF. Sou professor de outras disciplinas também, da área de Filosofia e Humanas. Eu sou psicólogo por formação. Já atendi em consultório, mas não mais. Curto mesmo é isso aqui, sala de aula. E, antes da gente falar do programa do curso, da ementa, da proposta... eu queria conhecer um pouco vocês. Então, assim, fale o nome de vocês, a idade, o curso que vocês fazem – essa disciplina é eletiva, né? Bom... turma cheia... – e a expectativa de vocês com a disciplina. Vamos lá? Quem começa?
- Você, professor... – disse alguém.
- Verdade! Obrigado! – Ricardo sorriu um sorriso sincero. – Me chamo Ricardo, tenho 30 anos, sou psicólogo e professor de filosofia. E minhas expectativas? Espero que a gente possa trocar, e que vocês gostem da minha disciplina... eu tenho um jeito todo especial de dar aula, enfim...
Isabel já não ouvia mais. Isabel olhava o conjunto mão – boca – olhos – nariz. E o sorriso? Que sorriso...
Quando chegou na Bia, ela se ajeitou na cadeira...
- Oi, meu nome é Bi... Beatriz, eu tenho 24 anos, estou no 4º período de Engenharia Civil, e eu tinha esse horário na grade e vi esta disciplina, e me inscrevi. Eu acho que eu gosto de filosofia, não sei...
Ricardo apontou com a cabeça, pra Isabel, do lado de Bia.
- Não, não. Não estou inscrita, só tou acompanhando a Bia.
- Ué, e só porque você não está na turma a gente não pode conhecer você? Você pode vir assistir como ouvinte, até, se quiser.
- Obrigada... – ela sorriu, tímida, e não tirava os olhos dele.
- Então... você é a...?
- Isabel. Tenho 26 anos. Estudo com a Bia no 4º período de Engenharia Civil e só vim acompanhar a amiga.
Todos se apresentaram, o professor falou da ementa do curso (que parecia bem interessante), e a aula acabou.
Bia e Isabel iam embora, mas Bia resolveu perguntar sei lá o que pro professor, e Isabel teve que ir junto.
- Ricardo, e das provas? Você não falou...
- Ah, verdade, Beatriz. Na próxima aula, eu falo direitinho sobre isso. E você, Isabel? Vai ficar conosco?
- Não. Não sei. Acho que não. Vou ver com a Bia.
Ricardo sorria com o visível nervosismo da aluna.
Ele era um homem bonito, charmoso, atraente, riso fácil, seguro.
Mal ela sabia que ele também tinha gostado dela. Esse jeito menina, tímida, um pouco bruta – as engenheiras civis são assim – prática, poucas palavras, encantava ele.

Isabel não aparecia sempre na aula de Filosofia I. A disciplina era toda semana, às 3as, às 10h. Isabel ia uma média de 2 vezes por mês, quando dava.
As aulas eram divertidas. A matéria era interessante. E o professor, era um show à parte.
De alguma forma, Ricardo hipnotizava Isabel. Ele percebia, mas, agora, ele adotava uma postura mais discreta.
Todas as vezes que ela aparecia, ele brincava: “seja bem vinda, Isabel. A gente nunca sabe quando você vem, mas é um prazer tê-la conosco”.

Em geral, a aula acabava 12h. Um dia, Ricardo chamou Isabel pra almoçar. Neste dia, a Bia não foi e Isabel foi, mesmo sem a amiga.
Os dois foram caminhando, pelas escadas do prédio, até pararem no restaurante.
- Vai almoçar, Isabel?
- Tou com fome...
- Eu também. Almoçamos juntos?
Isabel engasgou e pensou: “comer, com o professor”?
- Uhum.

E almoçaram juntos.
Num outro dia, Ricardo esperou Isabel, e deixou-a em casa. Ela morava em Copacabana. Ele, no Leme.
Fora da sala de aula, eles conversavam sobre qualquer coisa, menos sobre Filosofia.
E ai, eles foram se conhecendo, ficando amigos.
Até o dia que Ricardo chamou Isabel pra um cinema. Estação Botafogo, no sábado, às 19h. Eles poderiam jantar, depois.
Isa topou na hora. Ele pegou Isa em casa.
No cinema, rolou o primeiro beijo. Uma química, uma pele, um cheiro, um toque. Tudo perfeito.

1 ano depois, já estavam morando juntos, no apartamento do Ricardo, no Leme. Um dois quartos simpático.
Se amavam, mas eram absurdamente diferentes.
Tentaram filhos – o sonho de Ricardo – meio sem sucesso.
Isa trabalhava muito. Ricardo também. Agora, dava aula na UFF e na PUC.

6 anos se passaram.
Isabel, agora, com 32. Ricardo, com 36.

- Acho que tou grávida, amor.
- Gravida???? Fez o exame?
- Vou fazer amanhã. Menstruação atrasada 10 dias.
- Façamos agora. Vou na farmácia comprar.
- Calma, Ricardo. Ta tarde.
- Imagina? Saber se sou pai hoje à noite, ou amanha de manhã faz uma grande diferença. Fui.
Ele deixou Isabel rindo, sozinha, na sala de casa.
Voltou ele, com o exame, 15 minutos depois.
Sim, Isabel estava grávida.

Ricardo foi o pai mais amoroso nesse período. Sonhava com os filhos. Pensava na mobília do escritório, que agora ia ser quarto do pequeno.
Fizeram vários almoços para amigos e familia, pra contar a noticia.
Antes dos meninos chegarem, a casa já estava em festa.

Quando veio a noticia de que eram dois, ao invés de um, Ricardo chorava de alegria, na ultra. Isabel ficou chocada, atônita.
- Mais um berço, mais um carrinho, mais um tudo, Ricardo.
- Isabel, o tamanho deste berço... os meninos dormem juntos.
- Logico que não... um pra cada um...
- Ok, ok.

As crianças nasceram. Ricardo jamais se esqueceria: dia 5 de fevereiro de 2006: Mateus e Gabriel.
Ricardo acompanhou o parto, todas as trocadas de fraldas, todas as vezes que eles acordavam de madrugada para mamar, era Ricardo que os pegava e levava para a mãe, no quarto.
A relação entre Isabel e Ricardo nunca mudou. Pelo contrário: fortaleceu. Isabel acha que não. Era difícil cuidar de dois filhos, apesar de eles serem bons meninos.

Todas as vezes, era Ricardo quem os colocava no berço para dormir, ainda bebezinhos.
Um berço ficava vazio. Ricardo colocava os dois no mesmo berço e, quando chegava para apanhar um deles, os dois estavam aninhados, juntos.
- Meus filhos vão ser amigos, parceiros. Berços separados vão criar indivíduos individuais. Eles são irmãos. Estiveram juntos dentro da mãe. Vão estar juntos fora dela também.
As grandes brigas de Ricardo e Isabel eram essas.
- Uma coisa é serem amigos. Outra é viverem grudados, Ricardo.
- Relacionamento se ensina, Isa. Eles gostam de dormir juntos... Vou te chamar qualquer dia pra ver.
Ricardo podia passar horas vendo os filhos dormirem.

Hoje, encontrei os quatro na praia. Isabel e Ricardo. Mateus e Gabriel. Cada um dos meninos com a sua prancha.
A mãe colocou o guarda-sol, cadeira, canga, bolsa.
Se paramentou de protetor solar, boné, óculos, e ainda sentou no guarda-sol.
Os meninos – hoje, com 5 anos – se vestiram, passaram protetor no rosto, e lá foram pro mar com suas pranchas.

Pude ver Ricardo com eles.
Ricardo pegou a prancha de um dos dois filhos, e pegou onda com eles.
Eles pegavam jacaré, pegavam onda de body board, levavam caldo, furavam as ondas com a cabeça.
E, os três, grandes amigos, se divertiam muito.

Ricardo resolveu voltar pra areia. Afinal, já tinha 41 anos, não era mais um garotão.
Mateus e Gabriel ficaram no mar, por horas, só pegando onda.
Eu tive vontade de ficar amiga deles, e fui até o mar me molhar.
Presenciei Mateus pegando uma onda e vindo até a areia. Levantando-se, para pegar a próxima, vi ele fazendo sinal de positivo para o pai, que retribuía, orgulhoso.
- Oi – eu disse.
- Oi.
- Maneira a tua onda, hein? Gostei.
- Obrigado.
- Qual teu nome?
- Mateus.
- Quem te ensinou a pegar onda assim, Mateus?
- Gabriel, meu irmão. Ali, ó. Ele pega melhor do que eu.
- Vocês são iguais, cara!
- Somos gêmeo, né?
- Ah, é. E vocês se dão bem?
- Se damos. Somos melhores amigos.
- Oi. Bóra, Mateus, olha o ondão, irmão!
- Tchau, moça.
- Tchau, Mateus.

E eu fiquei feliz, por aquele pai ter permitido que aqueles filhos dormissem juntos, aninhados.

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