sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O casal e o mendigo

(Escrito em 08 de Agosto de 2014)

Eu os vi num bar, na zona sul. Era um casal, por volta dos seus trinta-e-alguns. Eles comiam, conversavam, se beijavam, fuçavam o celular. Cada um o seu.

Já estavam saindo, quando eu os percebi. Eu tinha comprado um açaí, do outro lado da rua, e estava encostado no carro, ali de frente ao bar, vendo o movimento. 

Era tarde e eu estava voltando pra casa, onde, sozinho, ia ver TV. Então, que, pelo menos, enquanto durasse o açaí, eu visse gente. 

O garçom trouxe uma sacola com a quentinha.

"É o jantar deles, de amanhã; ou o almoço". 

Ele pagou. Ela foi lá dentro. Voltou. Beijaram-se antes de sair. 

Por acaso, eles tomaram o caminho na direção da minha casa. 

"Vou segui-los. Gostei destes dois".

Ah, sim. Eu não sou gay, nem estava paquerando a moça, e nem sexo-com-casais. Apenas fui com a cara deles dois. Meu açaí já estava no fim, e eu resolvi ver onde o casal ia. 

Me distraí por um momento e os vi parados. Ela carregava umas sacolas, além da sacola da quentinha. Entregou as grandes para o marido. Acho que era marido.

Um mendigo estava embaixo de uma marquise, sozinho. Estava sentado, de pernas juntas e dobradas, cabeça entre os joelhos. Tremia o corpo um pouco. Não estava um frio que justificasse a tremedeira do cara. 

- Ele está acordado.

A moça cutucou ele: "moço, moço".

Ele custou a levantar a cabeça, quase em câmera lenta. Eu estava atrás do casal, já parado. 

O mendigo olhou para ela. Daria uma cena de filme. Ah, eu sou cineasta. 

- Uma quentinha pro senhor. É carne, o senhor quer?

O mendigo não fez que sim. Nem fez que não. Nem olhou a quentinha. Só olhou pra moça. Levou - também em câmera lenta - as mãos em direção à sacola, com a quentinha. Colocou-as entre as pernas, esboçou um quase-sorriso e deitou a cabeça novamente. Ele não deu uma palavra, sequer.

Os dois seguiram seu caminho.

Eu ainda consegui dar o resto do meu açaí pro "moço":

- Pro senhor acompanhar o jantar que a moça te deu. Ou de sobremesa. É açaí. Açaí.

Fui atrás do casal, pra dizer qualquer-coisa, pra agradecer pelo mendigo, pra agradecer pela cena bonita, mas eles já estavam dentro do táxi. 

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