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Era uma velhinha...

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Eu não sei seu nome. Nem perguntei. Não importa pra este conto. Nem pro nosso encontro. Fui à praia sozinha. Encontrei uma amiga por lá, depois; mas, na ida, no caminho, no encontro com meu lugar sagrado, eu estava só.  Eu moro no início de Copacabana, e vou a praia no Leme. Então, é uma pequena caminhada, pelo calçadão, olhando as pessoas, o mar, as crianças, os cachorros... Olho tudo, menos os carros. (rs) Nossa personagem era magra, bem magra. Devia beirar os 70 anos. Vestia um shortinho de pano, deixando suas pernas brancas bezuntadas de protetor solar de fora, e uma camisetinha, combinando. Uma sapatilha branca, de pano, velhinha, compunha o conjunto.  Tinha um olhar sorridente (embora não sorrisse), contemplativo. Parecia sozinha, sentada numa cadeira de rodas, na beirada do calçadão (a beirada mais próxima da areia). Percebi, a alguns metros, alguém semelhante a uma enfermeira. Uma moça mulata, baixinha, magrinha, pouco sorridente, comprando um coco....

Um ano se passou

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Meu tio – sábia pessoa – me diz que quando a gente fala do outro – para o outro – a gente fala da gente mesmo.  Há quem ache que esta carta é para AnaZ. Desculpa te decepcionar: ela não vai ler. Eu vou ler. Nós vamos. Então, apesar de endereçada a ela, é uma carta pra gente mesmo. Pra mim, pra você, pra quem quiser ler (ou não). Nada ficou a ser dito, AnaZ. Embora eu ache que sim; eu também acho que não. Muitos perdões. Muitos obrigadas. Muitos te perdôo. Muitos te amo. Ou minutos mais cedo – ah, se eu tivesse sido mais rápida naquela manhã de sábado – eu teria pego você, ainda, com um ultimo sopro de vida. Mas eu cheguei, e você já tinha ido.  Enfim, depois de quase 2 anos lutando com uma doença ingrata, você se permitiu perder o controle mesmo. Não, a gente não sabe como é ficar 2 anos quase ininterruptos sem respirar, entubada, vivendo e dependendo de um oxigênio artificial para (SOBRE)viver. Não, a gente não sabe como é ficar numa cama de hospital, cons...

Beto

Eu conheci Beto no ônibus do metrô, no trajeto Botafogo - PUC.  Acho que era a primeira vez que fazia este trajeto, neste horário. O ônibus estava cheio, a fila estava grande, mas eu encarei (o trânsito) ir em pé. Por acaso, parei na sua frente. Na frente de Beto, digo.  Vou contar a sua história antes do (curto) trajeto da viagem, que nos conhecemos. Beto tinha 33 anos, e morava no Humaitá, com os pais.  Seus pais sempre foram bem-sucedidos. Sua mãe, professora de Filosofia de duas universidades. E seu pai, arquiteto e engenheiro civil (sim, ele tinha as duas formações). Ambos sempre educaram os três filhos homens - Humberto (o Beto), Rubens e Carlos - com muita educação e civilidade. Buscavam passar valores humanitários, de igualdade, e viviam à base do zero preconceito. Eram pais amorosos, que buscavam e propiciavam, aos filhos e às pessoas em geral, o máximo de liberdade e amor ao próximo. Nunca foram religiosos, mas sempre tiveram um viés espirituali...

Zulmira e a sua história

Essa história, embora não pareça, tem muito mais realidade do que pensamos. Eu conheci Zulmira, pessoalmente. Ela não sabe que eu sou psicóloga e nem que entrevisto pessoas. Mas ela me contou (pôde me contar) a sua história.  E eu senti que, por respeito à Zulmira, e à sua história, precisarei fotografá-la. Portanto, eis, a seguir, a sua história. Estive, hoje, no Shopping Leblon e fui almoçar com uma amiga, a Fernanda. Fernanda ia encontrar a Zulmira, uma conhecida de sua mãe, pra entregar algumas coisas à ela. Eu e Fernanda escolhemos nosso restaurante, fizemos o nosso prato, e sentamos em uma mesa, para 4 lugares. Fernanda já acabava a sua refeição (e ainda precisava passar no banco), quando a Zulmira chegou. Eu, que comia mais lentamente, ainda demorei um pouco mais. - Oi tia Zulmira! Tá boa? - Tudo bem, querida, e você? - Tudo ótimo. Essa aqui é a Lu, minha amiga. - Oi Lu, prazer. - Oi Zulmira, prazer é meu, obrigada. - Você não vai almoçar, tia? - ...

Miguel e Renata, na Lapa

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Eles se conheceram, ali, na nossa frente, num show de uma banda numa praça eclética da Lapa.  Ele, 30 anos, separado, era um homem bonito, apesar dos dreads. Tinha os olhos expressivos e grandes, uma sobrancelha bem delineada. Bem magro e não muito alto. Um olhar e uma voz o tornavam especialmente sedutor. Tinha recém chegado de Barcelona, e estava a três semanas no Rio de Janeiro, pela primeira vez. Trabalhava como fotógrafo pela Europa, já há alguns anos, mas sempre ganhando pouco para viver a vida que desejaria.  Juntou 20% do que recebia, todos os meses, e conseguiu acumular o equivalente a R$ 2 mil, para poder colocar uma mochila nas costas e vir para o Rio de Janeiro, conhecer a cidade. Se arranjar algum trabalho por aqui, vai ficando. Nessas três semanas, só tinha rolado um trabalho, onde ele ganhou R$ 150, que deu para passar a semana. Miguel estava hospedado num sobrado, na Lapa. Tipo aluguel de quarto, mas ele dividia o quarto com duas outras pessoas....

Ela era evangélica

- Metrô Botafogo, Jardim Botânico, Gávea? Vaga sentado? Shopping da Gávea, PUC, Rocinha? Vai mais alguém? - Bom dia motorista. Sabe que, se dirigir direito, Deus abençoa. Paga teus pecados no Jesus salvador! Só Deus salva, motorista! Só Ele!!!!! Se não fizer direito, motorista, já sabe!!!! Deus não perdoa!!! O silêncio, que já existia do lado de dentro, a partir dela, foi ensurdecedor. Nem um pio. Só ela. - Je-suuusss... é o meu salvador... Só Ele... é que salva os peca-dôôô... E se... tu pe-cáááá... Je-suuuuussss... pode não te sal-váááá... - Próximo ponto, vai alguém? Metrô Botafogo, vai?  - Eu vou, cobrador. - Adianta a passage aí, minha gente. Se não, neguinho salta, não paga, e aí, fode tudo aqui pra nóis. - Je-suuuuuuuuuus... Perdô-a se-nhô... Ô motorista! Pensa no Jesus!!!! Só ele salva, motorista! Só ele!!!!!! Faz direito, motorista! Se não, já sabe... Tem que ser temente a Deus! Te-men-te! Só Ele salva!!!! Só Ele!!! Je-suuuuuss... é o salva-dôô...

Pedro Luiz

Eu vi Pedro Luiz por acaso. O conheci antes-de-ontem. Portanto, será uma história que fala de passado. Recente, mas, ainda assim, de passado. Pedro Luiz - gostava de ser chamado pelos dois nomes - era um homem rico. De grana. Tinha dinheiro e tinha alegrias. Tinha 50 e muitos anos. 58, acho eu. Casado com Daniele há mais de 20 anos. Pai da Leila, sua filha adolescente, de 16 anos.  Pedro Luiz era engenheiro. A esposa, arquiteta. Conheceram-se em uma obra, que ele trabalhou. Apaixonaram-se e casaram. Ela era mais durona que ele, mais séria, mais prática.  Pedro Luiz, ao contrário da grande maioria da sua profissão, tinha mais traquejo com pessoas do que com linhas retas. Seu ídolo era o Niemeyer que, apesar de não ser engenheiro - e sim arquiteto - gostava das curvas, da sinuosidade. Era assim, também, na vida. No trato com os funcionários, com as pessoas, com a família. E com a filha, seu grande amor.  Leila era um doce, grande amiga e parceira do...

Maria Eduarda

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O mar estava forte. A onda vinha até onde estávamos. Resolvemos, portanto, fazer uma pequena barreira de areia - que de nada adiantou - para que o mar não avançasse nosso obstáculo. O mar continuava vindo. Veio, com ele, Maria Eduarda, que viu aquele castelo baixo e comprido, e agachou-se, para tocá-lo, recém molhado pela onda rebelde. - Olha, pai, o castelo! - Oi... Ela me olhou, séria.  Os olhos, azuis como o céu, igualmente sérios. O cabelo preto, liso, num rabo-de-cavalo desgrenhado. Próprio das crianças que se divertem. Biquíni laranja. Talvez uns 4 anos.  - Como é o seu nome? - Maria Eduarda - respondeu baixinho, quase incompreensível. - Você gosta de praia, Maria Eduarda? - Gosto muito, eu venho sempre aqui. - já estava (quase) minha amiga. - Jura? Mas eu venho sempre aqui e nunca vi você aqui. Você já me viu aqui antes? - Eu já. Uma vez eu vi você, mas você estava longe... Mas eu me lembro de você. Eu já esta...

Fotografando gentinhas

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Ontem fui ao CCBB, com um amigo muito querido. - Você é minha melhor amiga - ele disse. Eu fiquei lisonjeada e feliz. Agradeci e fiquei feliz com o amor. É recíproco. Apesar de estar passando uma exposição que eu gostaria de assistir, fomos apenas tomar um café. Havia anos que eu não ia ao CCBB, quiçá para tomar um café. Pedimos os nossos cafés e salgados, e sentados nos degraus de uma escada, ali próximo. (Anotação de bordo: adoro sentar em chão / escada, e observar as pessoas). Na nossa frente, tinham crianças - e seus pais - em uma pequena fila, que dava num "muro" preto, com um retro-projetor. O retro "filmava" a criança se movimentar e projetava, numa tela "de cinema", à sua frente, o Menino Maluquinho (sim, o do Ziraldo) imitando os movimentos da criança.  O Menino Maluquinho é da minha época, que tenho 34 anos. Eu lia os livros, ria, me emocionava. Já fui a Bienal do Livro, com a minha (falecida) mãe, e o Ziraldo já autogr...