sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Quatro crianças

O cenário era o Teatro Odylo Filho, da UERJ. Mais alguns minutos ia começar Carmina Burana. 

Eu e André chegamos cedo, e portanto, conseguimos um lugar razoável, no Teatro que, bem antes que começasse o espetáculo, já estava praticamente lotado. 

Ao nosso lado, chegaram um casal, com três crianças. Três meninas. O casal sentou no mais distante de nós e as crianças, então, ficaram bem perto. 

Pude notar, também, um pequeno sozinho (literalmente) com a sua mãe, na nossa frente. Ela, no smartphone, conversava - e ria, e sorria, e ficava séria, e gargalhava - no whatsapp, enquanto ainda permitia som. Incrível foi que, ainda que o espetáculo tenha iniciado, a moça não saía do whatsapp.

Antes, durante e após o espetáculo o pequeno estava sedento por atenção, por dividir seu mundinho. A espera insossa por um espetáculo nunca passa rápido. E, um espetáculo para adultos, menos ainda.

As meninas, ao meu lado, conversavam - baixinho - desenhavam e tinham alguém para interagir. O pequeno, tinha (tinha?) apenas a mãe, ao seu lado.

Tive vontade de comer um chiclete. De tutti-frutti. Daqueles com líquido dentro. Dos quais eu compro a cada 10 e deixo na mochila.

Não me contive e, ainda que o namorado não tenha dito "sim" nem "não", ofereci o chiclete para as pequenas, ao meu lado. O casal adulto (que, descobri, não eram pais), no outro extremo, foi meu alvo.

- Meninas, vocês querem chiclete?

- Sim!!!!!

- Elas comem chiclete, senhora?

- Você pode comer chiclete, Mariana? Sua mãe deixa?

Mariana fez que sim, com a cabeça. Aquilo era quase um "não aceite" para a pequena, que não era dela. Mariana aceitou. Eu não me intimidei.

- E você, pequeno? Quer um chiclete? É de tutti-frutti! - tentando parecer atraente.

- Ele já comeu chiclete, obrigada!

A mãe respondia, pelo filho, sem olhar para ele nem para mim. 

Ele me olhou de volta, não sei se sedento por um chiclete, ou por um bate-papo. Mas a mãe tinha dito "não" e ele virou-se, de novo, para a frente. Esperava o espetáculo começar, sozinho.

O espetáculo, enfim, começou. O pequeno, em determinados momentos, regia, animadamente, junto com o maestro. Em silêncio, diga-se de passagem. Era a forma dele se divertir. De achar bom. De fazer, daquilo, também, um espetáculo infantil, para ele.

As pequenas, por estarem em grupo, comiam chiclete e desenhavam. 

E eu, ou-via o espetáculo ou-bservava as crianças.

O pequeno sacou uma bala da sua mochila. Não perguntou à mãe. Virou-se para trás e, ainda que não pudéssemos ouvir o som da sua voz...

- Quer uma bala? É de morango! - ele tentava parecer atraente (e educado).

- Não, obrigada. - as três pequenas responderam. Ainda tinham o chiclete na boca. 

Ele olhou para mim, estendeu o pacote de bala de morango, e sorriu. Não precisou dizer nada.

Eu aceitei. Ainda que eu não goste de morango. Eu gostei dele - e do seu carinho. Ele merecia receber um "sim".

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